UM NOVO AMANH
(Pregnant with his child...)
Carla Cassidy



Copyright  1997 by Carla Bracale
Originalmente publicado em 1997 pela Silhouette Books, diviso da Harlequin Enterprises Limited.

Todos os personagens desta obra so fictcios.
Qualquer semelhana com pessoas vivas ou mortas ter sido mera coincidncia.

Titulo original: Pregnant with his child...
Traduo: Maria Ceclia Zanlorenzi
Editor: Janice Flrido
Chefe de Arte: Ana Suely Dobn
Paginador: Fernando da Silva Laino

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Rua Paes Leme, 524 - 10 andar
CEP: 05424-010 - So Paulo - Brasil

Copyright para a lngua portuguesa: 1998
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Fotocomposio: Editora Nova Cultural Ltda.
Impresso e acabamento: Grfica Crculo



Sabrina A Cegonha Chegou n 27




Travis e Frannie sentados sob uma rvore... se b-e-i-j-a-n-d-o...
Bem, talvez no fosse uma rvore, mas houve diversas vezes em que os dois escapuliram de seus quartos pulando a janela para trocarem beijos no milharal. Isto aconteceu h cinco anos. Antes de Frannie partir para Nova York em busca de seu sonho... e antes de descobrir-se grvida de seu grande amor... . Agora ela estava de volta para dividir seu segredo. Assim que Travis soubesse da verdade, os dois fitariam ligados pelo resto da vida. E embora Frannie tivesse certeza de que ele jamais a perdoaria nem voltaria a     tom-la nos braos como outrora, teria de correr o risco. Pelo bem de sua filha...




Digitalizao e reviso: Nelma?


 
PRLOGO

Travis Richards estava em p prximo ao milharal, observando o casaro da fazenda logo adiante.
Certamente Frannie no iria partir. Na noite anterior ela apenas estivera divagando, sonhando, como fizera em tantas outras noites.
Era noite clara, a lua cheia banhava os campos com sua luz prateada e dava aos arredores da casa de dois andares um ar etreo.
O cheiro do vero se fazia presente, mas no era poderoso o bastante para afastar da memria de Travis o perfume doce de Frannie, ainda impregnado em cada um de seus poros.
Na noite anterior os dois finalmente haviam feito amor e fora conforme ele havia sonhado, to bom que superara as suas expectativas.
Frannie no poderia partir, pensou desesperado.
Virou o relgio de pulso na direo da lua. Quase meia-noite.
 Partirei  meia-noite de amanh  ela lhe dissera, enquanto ainda estava deitada em seus braos na noite anterior.  Se quiser me acompanhar, esteja aqui. Apenas aguardarei um ou dois minutos.
Como Francine podia sequer pensar em ir embora depois do que haviam partilhado? Travis fechou os olhos, lembrando-se do calor do corpo feminino contra o seu, dos gemidos doces, da respirao acelerada contra seu pescoo quando a possuiu completamente.
Havia passado o dia inteiro tentando descobrir um modo de det-la, imaginando o que poderia fazer para que ela ficasse.
O som de uma janela sendo erguida o fez abrir os olhos. Era a janela do quarto de Frannie. Subitamente lembrou-se da primeira vez em que a viu.
Ele tinha onze anos. Ouvira dizer que uma garota, quase da sua idade, viera morar na fazenda vizinha. Por isso, certa noite, escapulira de casa bem tarde para tentar ver a nova menina.
Ficara em p naquele mesmo lugar, escondido no milharal e observara, fascinado, um par de pernas magras se pronunciar para fora da janela do segundo piso. Os ps tatearam, obviamente buscando algum apoio na madeira saliente da parede.
s vezes a menina se aventurava a descer pela janela, e ento as pernas eram seguidas pelo restante do corpo. Era uma garota magra com longos cabelos escuros. Quando ela sentia que estava no cho, olhava ao redor com ar de satisfao e ento subia pela coluna de madeira, pela qual havia descido, e desaparecia novamente dentro da casa.
Frannie escapulira de seu quarto com freqncia no decorrer dos oito anos em que ali morara. Primeiramente com o objetivo de se afastar do av austero e ento, mais tarde, para correr para os braos de Travis.
O barulho seco de uma mala contra o cho o trouxe de volta  realidade. As pernas que se insinuavam pela janela, agora, eram bronzeadas e bem torneadas, notou mais uma vez. E geis. Devido aos seus anos de prtica, Frannie rapidamente desceu pela coluna de madeira at o cho e pegou a mala.
Travis deu um passo para trs, adentrando o milharal. Se a namorada o visse, presumiria que ele pretendia acompanh-la. E, no seu caso, partir era impossvel.
Frannie olhou ao redor, ansiosa, o corpo aparentemente vibrando de excitao.
"No v!", era o que clamava o corao de Travis.
Pela primeira vez desejou que o av dela acordasse. Poppy praguejaria e a obrigaria a voltar para casa. Ao menos aquilo daria a Travis um pouco mais de tempo para faz-la mudar de idia.
Infelizmente, entretanto, Poppy no apareceu  janela de seu quarto, nem quaisquer luzes foram acesas para indicar que tivesse acordado.
Como sempre, Frannie havia escapulido com sucesso.
Travis observou-a consultar o relgio de pulso. Sentiu um n na garganta. Mais uma vez sua amada olhou na direo em que estava. Embora ele soubesse que no podia ser visto, sentiu o corao pulsar freneticamente.
Francine acreditara que a acompanharia. Sempre que precisou, Travis esteve presente. No dessa vez, entretanto. Teria de deix-la partir sozinha, embora tanto desejasse estar a seu lado.
Era a dura batalha do dever contra o desejo. Lembrou-se da me to frgil e das duas irms mais novas. Elas dependiam dele, no tinha o direito de decepcion-las.
Queria desesperadamente fugir com Frannie, ansiava por jogar para o alto todas suas tarefas e responsabilidades, mas simplesmente no poderia agir assim.
E como a confirmar tal fato, sua me sofrera mais do que o habitual naquele dia. Parecia saber, de alguma forma, que o filho divagava entre ficar ou partir. V-la to fraca e indefesa fizera com que ele se decidisse. Teria de ficar.
Frannie olhou para o relgio novamente, os ombros subindo e descendo. Sempre foi impaciente. Detestava esperar por qualquer coisa ou qualquer pessoa.
O peito de Travis estava dilacerado. Oh, como gostaria de poder dar vazo ao desejo de correr para perto dela e insistir para que ficasse a seu lado em Cooperville.
Queria fazer amor com Frannie vezes e vezes, at que ela se esquecesse do seu desejo maluco de ir embora.
Seu corao parou de bater alguns segundos quando a viu agarrar com fora a ala da maleta, endireitar os ombros e fitar o caminho adiante com determinao.
 Travis?
A voz delicada foi levada pelo vento noturno at onde ele estava escondido.
 Travis? Voc est a?
Ele prendeu a respirao, no querendo lhe dar falsas esperanas... e com medo tambm de que Francine pudesse convenc-lo a mudar de idia.
Partir era impossvel, mas Travis tambm no havia percebido at aquele momento o quanto ficar na cidade sem sua amada seria insuportvel.
 Estou indo agora.
Ela hesitou mais um momento, ento comeou a caminhar.
"No v!"
Uma dor muito forte apunhalava o corao de Travis enquanto observava Frannie andar e alcanar a estrada que passava em frente  fazenda. Lgrimas queimavam seus olhos e ele soluou convulsivamente.
O luar a iluminava plenamente enquanto caminhava para longe, os passos firmes e determinados. A cada instante a silhueta se tornava menor, menos visvel.
Uma nuvem cobriu a lua naquele momento, transformando tudo, deixando apenas a escurido. Quando retornou, Frannie havia desaparecido de vista.
Durante algum tempo Travis permaneceu esttico, incapaz de acreditar que ela realmente tivesse partido. Francine fora embora de Cooperville.
 Frannie  sussurrou suavemente, como se o murmrio to dbil pudesse traz-la de volta.
Mas seu corao lhe dizia que era intil lamentar e chorava o profundo vazio deixado pela partida de sua melhor amiga.
Conhecia-a bem o suficiente para saber que somente retornaria se algo fugisse a seu controle. Caso contrrio, nunca mais voltaria a pr os ps em Cooperville. Nunca mais!

 
CAPTULO I

Cinco anos depois...

 Poppy, estou em casa! Francine Webster ficou em p ao batente da porta da casa s escuras, esperando por um sinal de boas-vindas do homem que estava sentado na cadeira de balano prxima  lareira.
 Ento voc veio.
A voz era glida, o tom baixo como se fosse difcil para um homem de tamanho porte fsico pronunciar aquela sentena.
Francine suspirou ao perceber que fora tola em achar que seu av ficaria feliz em v-la. Afinal, Poppy j no gostava muito dela cinco anos atrs, quando decidira ir embora. Mesmo assim, achou que o retorno melhoraria o relacionamento intempestivo dos dois.
Sua volta, entretanto, no se devia a tal fato. Fora forada a retroceder devido  sua situao financeira difcil e por causa de sua filha ilegtima.
Tirou uma mecha de cabelos da testa, exausta devido  longa viagem. Nunca mais tentaria percorrer um trajeto de dezessete horas em um carro de vinte e cinco anos, com uma garota de quatro e um cachorro no banco de trs. Chamou a filha carinhosamente.
 Gretchen, venha dizer ol a seu bisav!  instruiu-a.
A menina de cabelos escuros aproximou-se do local onde Poppy estava sentado. A sala subitamente ficou muito silenciosa quando ele parou de balanar a cadeira e retribuiu o olhar firme da pequenina.
 Ol, Poppy!  um prazer conhec-lo  disse ela, pronunciando as palavras que Francine passara a ltima hora lhe ensinando.
O av arqueou as sobrancelhas.
 Como sabe que  um prazer me conhecer? Talvez eu seja detestvel e voc no goste de mim.
Gretchen o fitou por um longo momento e ento lhe deu um caloroso sorriso.
  claro que vou gostar! E voc no pode ser to detestvel assim... Afinal,  meu bisav. E isso  muito especial.
Ele pareceu surpreso e franziu a testa.
 J passa da hora de ir para a cama.
Nem tentou encontrar o olhar de Francine.
 Colocarei uma cama de armar para a menina em seu antigo quarto  anunciou simplesmente.
A cadeira de balano comeou a mexer com mais rapidez e Francine soube, devido  experincia, que aquela era a maneira de ele afast-la.
 Vamos, sapeca, foi um longo dia e precisamos tirar nossas coisas do carro.
Com um suspiro pesado, conduziu Gretchen para fora.
O bater da porta de tela evocou milhares de lembranas na mente de Francine. Quantas vezes, no esplndido otimismo da juventude, jurara que no mais teria de ouvir aquele som detestvel? Naquele instante, era com pesar que o escutava novamente.
 Linda!  Gretchen chamou, dirigindo-se ao banco de passageiro onde estava a caixa da qual eram emitidos latidos tnues.
A menina tirou da caixa um cachorro pequeno, visivelmente deliciado com a liberdade.
 No sei como seu bisav ir reagir a Linda  Francine a avisou, fitando o animal com ar de dvida.
Linda no era um nome muito adequado  cachorra feiosa que haviam encontrado em uma lata de lixo no Central Park. Coberta por plos pretos e brancos e com um nariz que parecia j ter sido batido contra diversos muros, o bichinho instantaneamente conquistara o corao de Gretchen.
 Oh, Poppy ir se acostumar com Linda... Assim como ir se habituar a mim!
Agradou o bichinho enquanto o animal passava a lngua rosada por sua bochecha.
Francine comeou a tirar os pertences do porta-malas, maravilhada, como sempre, com o milagre de ter uma pessoa to especial quanto Gretchen como companheira.
Havia dias em que a filha parecia ter vindo para lhe salvar a sanidade. Era verdadeiramente um presente dos cus, talvez para compensar o restante de sua vida, tantas vezes semelhante a um inferno na Terra.
Caminharam de volta  casa e o perfume das flores as acalentava. O milharal fez o sussurro habitual, uma cano to familiar, e por um momento Francine pde ouvir o eco dos risos de um passado distante.
A lembrana de seu prprio riso e do som profundo da alegria de um homem lhe trouxe uma sensao de felicidade mesclada  tristeza.
Deu uma olhada para a casa vizinha. Embora houvesse alguma distncia entre as residncias, as duas estruturas estavam prximas o bastante para que o sinal de luz de uma janela pudesse ser captado pela pessoa da outra casa.
 Linda poder dormir comigo?  Gretchen perguntou, enquanto entravam na casa.
As janelas s escuras indicavam no haver ningum no interior da outra moradia. Ser que a famlia dele ainda morava ali? Tentou ignorar a dor que o pensar em Travis sempre lhe causava.
 Mame?
 O que foi?
O perfume familiar a envolveu, e lhe trouxe recordaes de muito tempo atrs. Lembranas de uma paixo indelvel e de sonhos antigos... E de Travis.
Gretchen puxava sua saia com tamanha insistncia que em breve a deixaria nua.
 Ento ela pode?  indagou.
 Quem pode o qu?  Francine perguntou de volta, afastando da mente o passado e fitando a menina.
 Linda poder dormir comigo?
 No acho boa idia. Ela ter de dormir na cozinha. Precisaremos ajeitar alguns jornais, j que ainda no est habituada a morar em uma casa.
 Linda vai se sentir muito s...
A cachorra resmungou, como para acentuar as palavras ditas em tom de lamento. Francine sorriu para a filha.
 Mas se adaptar com rapidez. E voc no sentir solido, porque estar em meu quarto. Eu serei sua companheira de quarto.
Gretchen sorriu alegremente.
 Acho que vou gostar daqui  anunciou ao aproximar-se da porta da frente.
A cadeira de balano estava vazia e a casa totalmente silenciosa quando me e filha entraram na sala de estar.
Para onde foi Poppy?perguntou a pequena suavemente.
 Deve ter ido para a cama.
 Mas no nos deu um beijo de boa-noite  reclamou, desapontada.
 Poppy no gosta muito de beijar  Francine lhe explicou, lutando contra o velho ressentimento.
Gretchen a fitou, espantada.
  E claro que ele  de beijar  protestou.   um bisav!
Francine mordeu os lbios e conduziu a menina para o andar de cima, rumo ao quarto onde passou os anos de sua infncia.
Exceto pela cama pequenina ajeitada a um canto, tudo estava exatamente como ela deixara havia cinco anos, quando abandonara a cidadezinha em busca de algo diferente, alguma coisa melhor.
Colocou as malas no cho, perto da porta.
 Vamos cuidar de Linda e depois eu ajeitarei tudo por aqui.
Levaram apenas alguns minutos para instalar a cachorra em um canto da cozinha. Colocaram jornais no cho e usaram uma velha janela que Francine encontrou no sto para prend-la em uma pequena rea prxima ao fogo.
 Pronto, sapeca, hora de ir para a cama  Francine falou.
Apagaram a luz da cozinha e j deixavam o aposento quando Linda fez um barulho  guisa de boa-noite.

 Vamos ficar aqui, mame?  Gretchen indagou, depois de meter-se sob as cobertas na caminha e bocejar.
Francine sentou-se  beirada da cama e afastou mechas de cabelos castanhos da testa da menina.
 Por uns tempos, pelo menos.
Precisava arrumar emprego com urgncia e assim juntar algum dinheiro para que pudessem partir.
 Este foi mesmo seu quarto quando era uma garotinha como eu?  Gretchen perguntou, sonolenta.
 Foi sim. Eu ficava de p em frente quele espelho da penteadeira e fingia ser uma atriz famosa. Eu tinha um vidro de perfume com o formato de um microfone, ento cantava e conversava durante horas.
Francine sorriu ao perceber que Gretchen tinha adormecido. Sua respirao estava profunda e ritmada.
Despiu-se, vestiu~a camisola e ficou em p, pensativa, diante da velha cmoda, olhando para o espelho.
O sonho que nutrira na infncia havia desaparecido, juntamente com o comportamento rebelde da adolescente cujo nico desejo fora escapar da cidade pequena e do homem idoso e rgido que a tinha criado.
A mulher a fit-la de volta era uma estranha... Uma pessoa fracassada, com defesas estampadas em todos seus traos. Embora tivesse apenas vinte e trs anos, sentia-se com quase cinqenta. Retornar fora a coisa mais difcil que j fizera na vida.
Aprumou-se e desviou o olhar do espelho. No era uma derrotada, procurou lembrar-se com firmeza. Apenas tinha pouca sorte. Algo temporrio, que ela no deveria admitir a ningum exceto a si mesma. Precisava apenas de tempo e um pouco de sorte e ento as duas poderiam retornar a Nova York.
Sem Gretchen, jamais teria voltado quela casa;  cidade que guardava tantas lembranas dolorosas. Teria, sim, permanecido em Nova York, morando em seu carro mesmo... feito o que fosse necessrio para alcanar seus sonhos.
Gretchen, entretanto, era sua prioridade nmero um. No poderia pedir  filha que suportasse os sacrifcios necessrios  permanncia na grande metrpole.
A pequena merecia uma cama confortvel, boa comida e os dias de vero ensolarados que a cidadezinha em que seu av morava podia proporcionar.
Quando o dinheiro acabou e tudo comeou a desmoronar, Francine ficou sem alternativa a no ser voltar para a pequena cidade do Meio-Oeste que nunca a acolheu de verdade e para junto de Poppy, que no fora capaz de lhe dar o que mais precisara.
No seria por muito tempo, prometeu-se. A estadia seria apenas temporria. Esperava que quando viesse o outono j tivesse dinheiro suficiente para retornarem a Nova York. Ento Gretchen seria matriculada em uma boa escola.
Alm do mais, para as pessoas de Cooperville, ela era uma estrela voltando para casa depois de umas frias. No admitiria o fracasso a ningum. Deixaria que pensassem estar apenas passando para uma visita, a fim de permitir que Gretchen conhecesse o bisav.
O quarto estava abafado, por causa do calor do sol aprisionado em suas paredes. Francine chegou at a janela e abriu-a para possibilitar a entrada do ar fresco da noite.
Exausta mas muito excitada para deitar-se, perambulou pelo quarto e finalmente parou diante de um enfeite pendurado na parede.
Uma fotografia da poca do ginsio. Franziu a testa. Aquela imagem era para lembr-la de que nunca realmente pertencera quele lugar. A cidade jamais se importou com ela, tampouco o av a desejara ali e, por fim, Travis tambm no a quisera.
 Voc precisa de um bom copo de leite frio  murmurou para si.  E beberei diretamente da embalagem  pensou, com um toque de sua velha rebeldia.
Poppy nunca gostara da sua maneira de beber leite. Talvez fosse a razo de ela agir assim com tanta freqncia.
Deu uma olhada na filha adormecida, ento apagou a luz e desceu a escada em direo  cozinha s escuras. A luz tnue da geladeira piscava, como para testemunhar seu ato subversivo. Pegou a garrafa plstica de leite, abriu-a com o polegar e ento levou-a aos lbios.
 Ento a neta prdiga voltou.
Francine engasgou ante o som daquela voz. O leite pingou em sua mo e no cho. Gotas do lquido frio atingiram suas pernas e ento os ps. O riso prazeroso fez-se ouvir.
A luz foi acesa e ela primeiro viu o cachorrinho a seus ps, lambendo o leite, ento o homem sentado  mesa.
Em um instante, seu olhar apenas ficou preso ao dele. Estava com o calcanhar sobre um dos joelhos, a cadeira equilibrada precariamente sobre dois ps. A cala jeans que usava estava puda e justa no corpo.
A camiseta branca cobria o peito largo, as mangas curtas revelando braos bem torneados e morenos. Uma mo segurava com firmeza a garrafa de cerveja sobre a mesa, a outra estava no colo.
 Travis... O que faz aqui?  perguntou Francine, surpresa.
Subitamente as duas pernas frontais da cadeira bateram contra o cho.
 Costumo vir toda noite para dar uma olhada em Poppy antes de ir para a cama.
Francine desviou o olhar. Ainda no se sentia preparada para encar-lo, para enfrentar o instantneo torpor que ele sempre a fizera sentir. O riso msculo evocou emoes antigas, veladas.
Pegou um pedao de papel-toalha e comeou a enxugar a sujeira do cho, muito consciente do quanto sua camisola era curta.
 No ser mais necessrio que verifique se Poppy est bem, j que eu voltei para casa.
 Acho bom eu no mudar minha programao apenas porque voc decidiu dar um passeio pela cidade.
O tom de voz revelava mgoas profundas e Francine procurou evitar uma resposta agressiva. Estava cansada demais para brigar. Seu corao encontrava-se por demais despedaado para lhe permitir vasculhar amarguras do passado.
Pegou a cachorra, plenamente consciente do olhar de Travis sobre si. Enrubesceu e apressou-se a ajeitar as coisas de forma que Linda no escapasse novamente. Em seguida, terminou de limpar o leite do cho.
O silncio entre os dois intensificou-se, ficou mais pesado, repleto de lembranas. Ele no fez qualquer tentativa de quebrar a tenso. Bebericou a cerveja, o olhar jamais se distanciando de Francine, a expresso enigmtica.
Travis no havia mudado, percebeu ela. Era como se os ltimos cinco anos no tivessem acontecido, absolutamente no o tivessem influenciado.
Os cabelos negros precisavam de um corte e a barba estava por ser feita, mas mesmo assim parecia ser o mesmo garoto duro com o qual fora criada.
Ainda se parecia com o menino que fora seu melhor amigo e o homem que se tornara seu amante por apenas uma noite. As batidas desordenadas de seu corao ao v-lo estavam deixando-a enfurecida.
Finalmente ele terminou de tomar a cerveja, atirou a garrafa no lixo e levantou-se.
 Ouvi dizer que voc tem uma filha.
Francine aprumou-se e jogou fora o papel toalha sujo.
 Sim... Gretchen.
Sentiu de repente muito medo. O que ele saberia sobre Gretchen?
Por um longo momento, os olhos escuros prenderam os dela.
 Quantos anos tem? Cerca de trs?
Francine assentiu com um dbil movimento de cabea.
 Deveria ser minha, Frannie.
Sem olhar para trs, ele se virou e saiu da casa.
Francine apoiou-se contra a parede e soltou a respirao. Travis no sabia. Felizmente ignorava que Gretchen era sua filha. E, se dependesse dela, jamais iria saber.
A cachorra latiu baixinho, rompendo sua divagao. Travis pertencia a seu passado, quela cidade... Assim como as lembranas infelizes de sua vida com o av.
Apenas ficaria ali tempo suficiente para colocar a vida em ordem e ento partiria novamente.
Confortada com tal pensamento, voltou para o quarto que partilhava com a filha. Meteu-se na cama, consciente da serenata que os insetos lhe faziam do lado de fora da janela aberta.
O aroma do campo foi trazido pela brisa noturna e por um momento Francine sentiu como se tivesse voltado no tempo.
Novamente tinha dez anos de idade, tinha vindo morar com o av depois do trgico acidente que tirara a vida de seus pais. Sentia-se sozinha, infeliz... E muito amedrontada quanto ao futuro!
Voltou ao presente em busca de concluses. Mas tinha apenas uma certeza naquele momento: seu futuro de maneira alguma incluiria Travis Richards.
Travis bateu com fora a porta dos fundos, pegou uma cerveja de sua geladeira e acomodou-se em uma cadeira  mesa da cozinha. Maldita Francine Webster!
Girou a tampa da garrafa de cerveja e tomou um grande gole, como se o lquido dourado pudesse acabar com o gosto amargo de sua boca.
Com freqncia sonhara com o retorno de Frannie  pequena cidade de Cooperville, Nebraska. E sempre em seus sonhos ela estivera maculada pelos anos passados na cidade grande.
Esperara que retornasse feia, assim jamais iria desej-la novamente. Mas no, ela ainda era to estonteante quanto cinco anos atrs, quando pulara daquela janela no meio da noite e o abandonara.
Fechou os olhos, a imagem feminina preenchendo sua mente. Os cabelos ainda eram lisos e sedosos a lhe cair pelas costas, a pele parecendo ser de veludo. Se houve alguma mudana, foi em seu olhar. O velho desafio, o brilho selvagem, havia sumido.
Terminou de tomar a cerveja, jogou fora a garrafa e pegou outra. Precisava ficar bbado, banir a imagem de Francine vestindo aquela camisola azul bem clara, to curta e sensual.
Desde o momento em que a vira em tal traje, lembrara-se da doce sensao das pernas esguias enroscadas s suas, do sabor de seus seios sob a lngua, de como ela era delicada e tinha a pele macia.
Maldita fosse!
Levantou-se e jogou o restante da cerveja no ralo. Pressentia que, mesmo se ficasse bbado, as lembranas de Frannie o estariam assombrando.
Foi para o quarto sem se importar em acender a luz. Despiu a cala jeans, tirou a camiseta e foi para a cama. Mas antes de se deitar, acabou se virando e indo at a janela... Aquela que dava exatamente para a do quarto de Frannie.
Quantas vezes naqueles anos de juventude sentara-se quela janela, observando a dela em busca de um sinal de luz, o sinal especial dos dois? Uma vez vendo o sinal, ele deixava me e irms adormecidas e se esgueirava campo afora para encontrar-se com Frannie no milharal que se tornara seu esconderijo de amor.
Franziu a testa, tentando lembrar-se exatamente do instante que se viu apaixonado pela exuberante vizinha. No conseguia decifrar o exato momento. Parecia at que a amava desde quando nascera.
Suspirou, frustrado, ento fechou as cortinas e foi para a cama. A Francine Webster que ele amara, a jovem de quem estivera lado a lado sempre, por quem lutara, a pessoa que povoara seus sonhos, havia ido embora.
Ela era uma mulher feita, uma me... Com uma histria e uma vida que no o incluam.
Detestava-a por isso. Odiava o fato de no ter sido seu nico amante. Meses aps t-lo deixado, Francine simplesmente encontrou outra pessoa para amar, algum que era o pai de Gretchen.
Pensou qual seria o motivo de seu retorno  cidade que detestava e ao av que ela insistia em culpar pela morte dos pais.
Durante os cinco anos em que esteve ausente, no houve telefonemas, cartas, sequer uma palavra dela. Aparentemente Francine dera um jeito de apag-lo de sua vida.
Enviara a Poppy alguns cartes postais ocasionalmente, pequenos bilhetes onde.relatava seu sucesso: um papel na Broadway, outro em uma novela.
E embora Poppy jamais tivesse falado sobre ela, sempre teve o cuidado de deixar os cartes no centro da mesa da cozinha, onde o vizinho com certeza no deixaria de v-los.
Respirou profundamente ao pensar naquele homem. Passara a cuidar de Poppy. Os dois haviam desenvolvido uma bonita amizade e Travis no deixaria que a presena de Frannie os afastasse.
No permitiria tambm que ela voltasse a ferir seu corao.
O destino havia lhes dado uma chance, mas a oportunidade fora perdida. E Travis no iria acreditar em uma segunda chance.
 
CAPTULO II

Francine foi despertando lentamente, tendo a vaga sensao do aroma doce da brisa da manh e do som distante de vozes.
Gretchen provavelmente assistia desenhos animados. O responsvel pelo invento de tal programao matinal era um gnio.
Ouviu um latido e o protesto de uma voz masculina profunda. Imediatamente sentou-se na cama. No estava no pequenino apartamento em Nova York, lembrou-se, e sim de volta a Cooperville!
Olhou para a cama onde Gretchen passara a noite. Vazia. Entrou em pnico. Onde estaria sua filha? E Linda? E Poppy?
Pulou para fora da cama, agarrou um robe e apressou-se rumo  cozinha. Parou ao batente, atnita com a cena que vislumbrou.
Poppy estava em p ao fogo, de costas para ela, a fazer panquecas. Linda se achava do lado de fora da porta dos fundos, o nariz pressionado contra a tela para olhar para dentro. E Gretchen estava com a testa franzida, concentrada em ajeitar guardanapos de papel em cada um dos trs lugares  mesa.
 Terminei, Poppy  anunciou  menina ao encerrar a tarefa.  O que posso fazer agora?
 Pegue a manteiga e o leite na geladeira e ento v acordar sua me. Aqui, se voc quer tomar caf da manh, tem de se levantar no horrio em que  servido.
Francine experimentou o gosto amargo de velhos ressentimentos ante o tom rspido da voz do av.
 Estou acordada  declarou, dando um passo para dentro da cozinha.
 Oi, mame. Poppy est fazendo panquecas!
Gretchen lhe deu um sorriso radiante e instantaneamente a mgoa de instantes atrs se dissolveu.
 Venha me dar um beijo de bom-dia, filha  disse ao acomodar-se em uma cadeira  mesa.
A menina obedeceu de imediato, jogando-se sobre o colo da me e enlaando-lhe o pescoo. Abraaram-se durante alguns segundos, durante os quais Francine sentiu o perfume de morango dos cabelos de Gretchen.
 Poppy disse que Linda tem de ficar do lado de fora  declarou a pequena ao descer de seu colo.  Mas falou que ir construir para ela uma casinha de cachorro.
 Mas que gentileza!
Francine fitou o av. Suas costas estavam rgidas.
 Posso fazer algo para ajud-lo?  perguntou.
Ele se virou do fogo, um prato de panquecas na mo.
 Est tudo pronto. O caf est no fogo, se quiser uma xcara.
Poppy jamais aceitara as convenincias da vida moderna, como uma cafeteira automtica. Em vez de usar uma mquina, preferia faz-lo no fogo. E no havia nada como um caf feito  maneira antiga.
Francine serviu-se de uma xcara do lquido forte e cheiroso e sentou-se  mesa com o av e a filha.
Cada qual fez seu prato e todos comeram em silncio durante alguns minutos. A quietude opressiva fez Francine lembrar-se de seus anos de adolescncia. Uma vida toda de refeies partilhadas por um velho resmungo e uma garota teimosa.
Pois tentaria mudar aquela rotina, pelo bem de Gretchen.
 Como esto as coisas no restaurante?
 Est difcil conseguir bons ajudantes.
Poppy bebeu um gole de caf e serviu-se de uma segunda panqueca.
 O negcio sempre  bom, mas ningum mais quer ser garonete!
 Eu poderia ajudar no perodo em que estivermos aqui  ofereceu-se depois de um momento de hesitao.
No era exatamente o emprego de seus sonhos, mas um trabalho mesmo assim. E talvez em um ms ou dois pudesse guardar dinheiro suficiente para voltarem a Nova York.
Poppy deu de ombros.
 Fique  vontade. Seria til a ajuda.
 Eu poderia trabalhar l tambm  palpitou Gretchen.  Mame e eu costumvamos sempre comer no restaurante em Nova York.
 No, querida, se eu trabalhar no restaurante, encontraremos uma bab para voc  respondeu-lhe a me.
 Ela poder ficar aqui comigo enquanto voc estiver no restaurante  falou Poppy.  Eu j no vou muito para l. Tenho a gerente para cuidar do dia-a-dia do negcio.
Francine quis protestar ante o arranjo. No queria que Gretchen se subjugasse  fria indiferena de Poppy, aos perodos de silncio que a haviam afastado do av.
Mas como poderia se mostrar contrria quela rotina se dissera ter retornado justamente para dar a Poppy e Gretchen a oportunidade de passarem algum tempo juntos?
Alm do mais, sem ter de pagar uma bab, conseguiria guardar mais dinheiro para partir. De qualquer maneira, seria interessante ver o que duraria mais: o sorriso eternamente animado de Gretchen ou a carranca taciturna de Poppy.
 Poppy, eu poderia ajud-lo a construir a casa de cachorro de Linda?  Gretchen perguntou.  E talvez possamos pint-la de vermelho. Acho que Linda gostaria de ter uma casa vermelha.
 No  preciso pintar uma casa de cachorro.
Gretchen encarou o bisav soberbamente, ento fez um gesto de concordncia.
 Tem razo. Linda gostar de uma casa de madeira tambm.
Poppy fitou-a por um longo momento, ento murmurou alguma coisa inaudvel. Em minutos todos terminaram de comer.
 Gretchen, v trocar de roupa  orientou a me ao comear a tirar os pratos da mesa.
 Talvez voc queira levar a menina para o velho galinheiro. H coelhos l  Poppy falou quando a bisneta saiu em direo ao quarto.
 O nome dela  Gretchen  Francine respondeu de modo tenso.
 Sei disto  murmurou de volta, enchendo a pia de gua com sabo.
 Gretchen Mary Webster. O Mary  em homenagem a mame.
Esperou que ele dissesse algo, qualquer coisa, mas como sempre, Poppy permaneceu em silncio.
 Terminarei as coisas por aqui  disse ele finalmente, quando havia apenas uns poucos pratos a serem secados e guardados.
 Est bem. Irei trocar de roupa e levarei Gretchen para um passeio pela fazenda.
Secou as mos no pano de pratos, deixou a cozinha e subiu a escada rumo a seu quarto.
Gretchen estava l. Vestira cala jeans e uma camiseta cor-de-rosa. Estava em p observando fotografias remanescentes do passado de Francine.
 O que  isto, mame?  Gretchen indagou, apontando para um arranjo de flores secas.
 Um buqu  respondeu ao vestir cala jeans e uma camiseta.
 O que  um buqu?
Francine penteou os cabelos e prendeu em um rabo-de-cavalo na altura do pescoo. Sentou-se prxima  filha.
 So vrias flores juntas que um namorado d a uma garota.
 Seu namorado deu este para voc?  Gretchen perguntou.
Francine tocou o buqu de flores secas, no se surpreendendo quando algumas ptalas se desprenderam ante seu contato.
 Sim.
Oh, com que facilidade as lembranas invadiam sua mente. Naquela noite em que Travis lhe dera as flores...
Na ocasio, ela iria ser sua acompanhante em uma festa, mas Poppy no permitira devido a uma rebeldia da neta s regras por ele estabelecidas.
Francine passara a noite no quarto, chorando pela oportunidade perdida, detestando o senhor a quem fora dada a responsabilidade de cri-la.
Prximo  meia-noite, acendera a lanterna  janela, sinal de que iria escapar para encontrar-se com Travis. E l, no meio do milharal, os dois se abraaram. Ele estava com seu melhor terno e a presenteou com um buqu de flores. Danaram sob o luar, conforme os sons que seu rdio  pilha emitia.
 Voc teve muitos namorados, mame?  perguntou Gretchen, quebrando suas divagaes.  Aposto que sim. porque voc  to linda!
Francine riu e pegou a filha nos braos.
 No. Quando eu era pequenina, no era bonita. Era baixinha, magra, desajeitada. Bem, mas j basta de conversas sobre mim. O que voc acha de ver outros animaizinhos alm de Linda?
Gretchen arregalou os olhos.
 Jura?
 Sim. Vamos, vamos ver o que conseguimos descobrir l fora.
Minutos mais tarde as duas saam pela porta dos fundos e eram acolhidas pelo calor do sol.
 Iremos ao velho galinheiro primeiro  declarou a me, apontando em determinada direo.
Conforme caminhavam, Francine teimosamente mantinha o olhar distante da casa vizinha. No queria pensar em Travis. Em vez disso, ocupava-se em mostrar  filha as coisas interessantes da fazenda.
 V aquela construo? Eu costumava brincar ali quando era pequena.
 Acha que Poppy deixar que eu brinque l?
 No sei. Teremos de lhe perguntar.
Conforme continuavam a jornada, Francine pensava naqueles longos dias de vero de sua infncia.
Aquele local se tornara sua escapatria ao mau humor do av, a quem ela fora enviada para morar logo aps a morte dos adorados pais. No confinamento da pequena construo, fingira estar em frias com os pais, imaginava no sentir tanta solido.
Ali derramara lgrimas que no deixara ningum mais ver. Sonhara tornar-se famosa, ser amada. Tambm naquele lugar recebera o primeiro beijo... e fora de Travis.
 Oh, mame, olhe!  Gretchen exclamou, ao ver coelhos. Correu para frente, fazendo os animais se assustarem. Francine sorriu ao ver a filha subitamente estacar e prosseguir, p ante p, at meter os dedos pelos buracos do arame.
 No so lindos?  perguntou a menina.
 Quer segurar um?
 Posso?  perguntou, quase sem flego.
Francine destravou o porto e entraram. Ouviu os risos de excitao de Gretchen enquanto tentava lhe pegar um coelho, ento outro. Finalmente agarrou um e estendeu-o  menina, que sentou-se e o colocou sobre o colo.
Sorriu ao observar a menina com o bichinho. Gretchen parecia ter uma afinidade especial com tudo o que era fraco, frgil e indefeso. A sua maneira conquistava coraes enquanto outras meninas preferiam fazer desaforos.
Subitamente fez-se ouvir o rudo de algum maquinrio da fazenda. Francine se virou em direo ao barulho exatamente no instante em que o trator se aproximava.
Travis estava sentado ao volante, como um rei. Parecia ao mesmo tempo estar relaxado e orgulhoso. Estava sem camisa e vestia cala jeans bem puda, os ombros brilhando, bronzeados, sob a luz do sol.
Os cabelos negros cintilavam, embora Frannie soubesse que o sol seria incapaz de lanar qualquer luz naquele olhar frio.
Evitou fit-lo, at mesmo manter a cabea voltada naquela direo, irritada por Travis no ter se tornado um homem feio com o passar dos anos. V-lo novamente teria sido muito mais fcil se no fosse to devastadoramente atraente.
 Vamos, querida. Poderemos voltar para ver os bichinhos em outra hora  falou  filha, no querendo mais ver Travis, nem recordar-se de tempos passados.  Precisamos acabar de desfazer as malas.
 Tchau, filhotinho  murmurou Gretchen conforme a me a puxava para fora.  Quem  ele?  perguntou, apontando para Travis, que estendeu a mo para cumpriment-la.
 Um vizinho.
 Acha que me daria uma carona em seu trator?  Gretchen perguntou, ao acenar de volta.
 Tratores no so para garotinhas. Vamos, vamos embora.
Francine a conduziu de volta  casa, ansiosa por estar dentro da proteo daquelas paredes, de onde no poderia ver Travis.
Era curioso no ter antecipado o quo difcil seria voltar a v-lo. Provavelmente j estava casado, considerou em pensamento. Casado com alguma jovem doce cujo maior sonho na vida fora o de ser esposa de um fazendeiro. Tambm j devia ter um ou dois filhos aguardando por sua chegada  casa.
De alguma maneira, a adoo de tais premissas lhe tornava mais fcil lidar com a situao. Gostava de pensar que Travis estava feliz. Sempre desejou que estivesse. Fazia com que as escolhas que ela fizera lhe parecessem corretas.
Mas ao mesmo tempo o odiava por ter encontrado aquela felicidade sem ela.
Durante a maior parte do restante da manh Francine e Gretchen ficaram desempacotando e guardando seus pertences. Mudaram a disposio dos mveis, em um esforo para gerar mais espao.
Se pretendesse uma longa estadia, Francine teria acomodado a filha no quarto de hspedes. Mas, era claro, no ficariam por muito tempo.
Cerca de poucos minutos antes do meio-dia as duas voltaram  cozinha. Poppy, novamente, se achava em frente ao fogo.
 Humm, algo est com cheiro bom!  Gretchen vibrou ao sentir o aroma do molho de tomate com alho.
 Parece que Poppy fez um molho caseiro para espaguete  Frannie respondeu.
 Ah, adoro espaguete!  exclamou a menina.
 Poppy, no devia se dar a tanto trabalho para preparar o almoo  falou Francine, estranhamente tocada pelo gesto do av em fazer o molho especial para a primeira refeio de Gretchen em sua casa.
  tera-feira. Sempre fao molho s teras-feiras  respondeu.  Espaguete s teras e sanduches de carne s quintas.
Oh, com que rapidez ele era capaz de transformar qualquer sentimento positivo em algo ruim, pensou Francine com um toque de amargura. Jamais lhe permitiria pensar que fizera algo por se importar com seu bem-estar.
 Ei, Poppy, h pratos demais na mesa  falou Gretchen.
 No, so quatro. Haver quatro pessoas para o almoo. Virou-se para dar uma olhada na massa j cozida.
 Travis almoa comigo quase todos os dias.
Francine franziu a testa.
 Ele no tem uma esposa para lhe preparar o almoo?
 No  respondeu simplesmente.
 Quem  Travis?  Gretchen perguntou, curiosa.
 Um vizinho.
 Aquele que ns vimos no trator?
Francine fez um gesto de assentimento e a garota sorriu.
 Oh, puxa, ele parece ser bonzinho!
"Ele no  bonzinho", Francine queria dizer  filha. "Ele me destruiu, dilacerou meu corao. Era meu melhor amigo, meu primeiro amante e quando eu mais precisei de sua presena, no estava disponvel para mim."
Francine mordeu o lbio inferior para que as palavras no escapassem de modo algum. No precisava de Travis Richards.
 Poppy, eu segurei um coelhinho esta manh  Gretchen falou ao senhor.  Era to bonitinho e mexia o nariz assim...
Tentou imitar como o bichinho se portara.
Poppy olhou para a menina como se ela fosse uma visitante de outro planeta. Apenas por um momento, Francine poderia jurar ter visto a sombra de um sorriso curvar os cantos dos lbios daquele homem.
O barulho da porta dos fundos se abrindo rompeu a magia do momento e Poppy virou-se para a pia enquanto Travis entrava na cozinha.
 Humm, Poppy, o cheiro est timo!  exclamou ele ao fazer um aceno de cabea para Francine.
 Ol, sou Gretchen  a menininha falou, sorrindo-lhe amigavelmente.
Travis ajoelhou-se para que pudesse fit-la no mesmo nvel. Francine sentiu um frio no estmago. Ser que ele havia percebido alguma semelhana? Seria possvel que pudesse ver caractersticas de si mesmo nas feies da filha?
 Ol, Gretchen. E um prazer conhec-la. Meu nome  Travis.
 Eu segurei um coelhinho hoje!  Gretchen exclamou.
  mesmo?
Travis ficou em p, parecendo preencher todos os cantos da cozinha com sua masculinidade avassaladora.
 Talvez enquanto vocs estiverem aqui, sua me a leve at minha casa. H uma ninhada de gatos l.
 Gatinhos!  Gretchen falou, batendo as mos em excitao e olhando para a me.  Voc me levar, mame?
 Veremos  respondeu, relaxando um pouco quando Travis afastou-se de Gretchen e desapareceu dentro do banheiro para lavar as mos.
Poppy colocou a comida na mesa e Francine acomodou a filha numa cadeira.
 Posso fazer alguma coisa?  perguntou ela.
 A salada est na geladeira.
Francine pegou a salada e colocou-a na mesa justamente quando Travis voltava. Em minutos, todos estavam acomodados.
 Tirei todas as ervas daninhas e arbustos de perto do aude  Travis falou para Poppy ao servir-se de uma avantajada poro de espaguete.
 Talvez voc queira levar a menina para pescar  Poppy falou para Francine.
 Oh, no, mame no sabe pescar!  Gretchen rapidamente interferiu.  Preferiria que voc me levasse para pescar, Poppy. Bisavs sabem pescar!
 Como voc sabe tanto sobre bisavs?  Poppy indagou em seu tom amuado de sempre.
 Quando mame me disse que viramos para c para eu ver meu bisav, perguntei a todas minhas amigas o que sabiam sobre bisavs e elas me disseram que so legais... E amorosos. Sabem pescar e soltar pipas. Ajudam a construir coisas e algumas vezes tm doces nos bolsos.
Poppy murmurou alguma coisa incompreensvel e balanou a cabea.
Travis riu, o som profundo reavivando lembranas no corao de Francine.
 Parece que tem muitas tarefas a executar, Poppy  falou Travis.
Ele resmungou mais uma vez.
 Como est sua me, Travis?  Francine perguntou. Ele a fitou, o olhar muito frio.
 Faleceu h dois anos.
 Oh, sinto muito! Se eu soubesse... Eu teria...
 Enviado flores?
Francine enrubesceu, surpresa pela raiva que viu brilhar naqueles olhos. Por que estaria bravo? Fora ele quem a havia abandonado. Travis a ajudara a construir sonhos e ento se recusara a participar de sua realizao.
 E suas irms?
A raiva em seu olhar pareceu suavizar-se um pouco.
 Esto timas. Margaret partiu h pouco para seu primeiro ano no colgio e Susie casou-se h trs meses.
 Deve se sentir muito orgulhoso das duas.
  verdade. So maravilhosas.
Por apenas um momento, um sorriso curvou seus lbios.
Francine imaginou se ele estaria se lembrando de como as irms mais novas gostavam de provoc-los sem descanso, seguindo-os aonde quer que fossem, cantarolando que Travis e Francine estavam em cima de uma rvore se beijando e coisas assim. O casal se esmerava em vo na busca de estratgias para despist-las.
Focou a ateno no almoo, pouco desejosa em lembrar-se daqueles dias e noites da infncia e adolescncia. Tudo aquilo lhe trazia uma mistura curiosa de prazer e dor.
 Ei, Travis, eu tenho uma cachorra  declarou Gretchen, a boca toda decorada de vermelho devido ao molho.
 Foi sua cachorra que eu vi amarrada l fora?
Ela fez um gesto de concordncia.
 O nome dela  Linda.
Inclinou-se em direo a Travis e baixou o tom de voz para um bem conspirador.
 No  na verdade uma lindeza, mas ns a chamamos assim para que ela se sinta melhor.
 Ah, algo muito esperto de sua parte!  respondeu Travis.
O sorriso com que brindou Gretchen atingiu diretamente o corao de sua me. Quando a menina nasceu, Frannie jamais imaginou que um dia a filha se sentaria to prxima a seu pai  uma mesa de cozinha.
Nunca imaginou que Travis estaria na vida das duas de alguma maneira.
"Ele  apenas um vizinho", afirmou a si mesma. Era assim que devia v-lo. Apenas um dos vizinhos de Poppy. Alm do mais, em alguns meses, as duas estariam partindo dali.
 Achamos Linda em uma lata de lixo  Gretchen explicou para Travis.  No  triste? Algum quis jog-la fora.
 Eu diria que Linda  um bichinho de muita sorte por ter sido encontrada por voc.
Travis inclinou-se e limpou a boca de Gretchen com o guardanapo dele.
Novamente Francine viu-se tomada pela emoo. Seria um pai maravilhoso. Sempre falou sobre a famlia que gostaria de ter. Sobre seu sonho.
 Gretchen, se voc j terminou de comer, v lavar suas mos e o rosto  falou a me, querendo colocar alguma distncia entre pai e filha.
 Est bem  concordou sem protestar.
Desceu da cadeira e comeou a caminhar em direo ao banheiro, ento fez uma pausa e virou-se.
 Travis, voc gosta de pescar?
 Claro,  um de meus passatempos favoritos  respondeu-lhe.
Gretchen sorriu.
 Ento talvez quando Poppy me levar para pescar voc possa ir conosco.
 Isto me parece bastante divertido  concordou Travis.
Gretchen escapuliu da cozinha e ele fitou Francine.
  uma criana maravilhosa. Parece ser muito inteligente para ter apenas trs anos de idade.
  brilhante  respondeu Francine rapidamente.  Mais inteligente do que outras crianas de sua idade.
 Fala demais  interferiu Poppy. Travis riu.
 Poppy, para voc at uma mmia fala demais!
Mais uma vez Francine pensou ter visto o incio de um sorriso desenhar-se nos lbios do av. Aquilo a desconcertou... era to fora de contexto! No podia se lembrar de t-lo visto sorrir alguma vez.
 Ela se parece muito com voc  Travis falou. Francine assentiu, no momento, grata por aquele fato.
Prendeu a respirao, aguardando uma pergunta sobre o pai da menina. Para seu alvio, entretanto, Travis concentrou-se em comer.
Quando terminaram, Francine comeou a limpar a mesa.
 Deixe. Eu cuidarei disto  falou Poppy.  Voc pode caminhar com Travis e certificar-se de que aquele bicho tenha gua fresca.
Relutantemente Francine seguiu Travis para a porta dos fundos.  distncia, Gretchen estava sentada no cho, fazendo desenhos para Linda, que a observava com olhar de adorao.
Travis apoiou-se na madeira da varanda, o olhar pousando na plantao de milho e feijo.
 Eu tenho tomado conta das tarefas nos campos de Poppy. Ns dividimos os lucros e ele faz almoo para mim todos os dias.
 Voc no me deve explicaes.
Travis virou-se para fit-la, seu olhar mais uma vez iluminado pela raiva.
 Tem razo. Eu no lhe devo nada.
Respirou profundamente e passou a mo pelos cabelos, o olhar mais uma vez mergulhado nos campos  distncia. Houve alguns momentos de um silncio constrangedor.
 Por quanto tempo pretende ficar?  ele finalmente perguntou.
Francine deu de ombros.
 No tenho certeza. Estou entre dois projetos agora, ento no h motivo para me apressar a voltar.
No iria lhe dizer que estava entre projetos durante os ltimos seis meses e que no tinha mais dinheiro.
 Por qu?
 Foi simptico de sua parte trazer sua filha para conhecer Poppy. Ele no est ficando mais jovem a cada dia, voc sabe. Mas no fique tempo demais, Francine. No despedace o corao dele novamente.
No aguardou por uma resposta. Deixou a varanda e caminhou em direo ao trator estacionado logo adiante.
Francine observou-o sair, chocada com suas palavras. No partir o corao de Poppy? Mas que ironia! Poppy no tinha corao para ser despedaado.
Quando Travis passou ao lado de Gretchen, assanhou-lhe os cabelos e apertou de leve seu nariz. Os risos da menina foram trazidos pela brisa e Francine anotou mentalmente a primeira tarefa do dia seguinte.
Iria ao restaurante. O quanto antes conseguisse guardar algum dinheiro, mais cedo poderia sair dali.
E dessa vez, quando partisse, jamais, nunca mais sequer olharia para trs.

 
CAPTULO III

Francine partiu no dia seguinte logo aps o caf da manh, deixando instrues cautelosas para Gretchen, que ficaria em casa com Poppy.
Seu carro a levava ao restaurante, situado a dez milhas de distncia, no centro da pequena cidade de Cooperville.
Desceu o vidro da janela e aspirou profundamente o aroma campestre O ar cheirava a terra, frescor e grama. Como sentira falta de tais fragrncias.
Os ps de milho j chegavam  altura de seu ombro e lhe acenavam ao sabor da brisa do incio de agosto. Quase podia sentir a tenso da cidade grande, to acumulada em seus poros durante cinco anos, dissipar-se a cada colina por que passava.
Amava Nova York, com sua rotina frentica e perene movimento. Houve vezes, entretanto, bem na calada da noite, em que o sono se recusou a chegar. Ocasies em que a saudade de casa assolou-a e ela ansiou por ouvir o barulho ritmado da cadeira de balano de Poppy, sentir o cheiro do feno sendo cortado e embalado, ver o tom particular de azul existente apenas no cu de Nebraska.
E se Francine mergulhasse profundamente em sua alma teria de admitir, embora com dor, que sentira saudade de Travis.
Houve poca em que eram capazes de terminar a sentena um do outro, to ligados estavam. Dois adolescentes desajustados, sempre  procura de algo, parecendo estar um passo adiante ou aqum de outras pessoas, mas em perfeita sintonia enquanto casal.
Ela rompera tal harmonia ao partir. Travis destrura qualquer lao ao deix-la ir com tamanha facilidade.
Apertou com fora o volante, lutando com a estranha combinao de arrependimento e ressentimento.
Com alvio, virou e entrou no estacionamento do restaurante Della's.
Delia fora a av de Francine, falecida quando ela ainda era beb. Poppy no mudara o nome do restaurante, a despeito da ausncia da mulher de quem a neta nem mesmo conseguia se recordar.
Encontrou uma vaga no estacionamento quase lotado. Em vez de sair do carro instantaneamente, ficou sentada por uns poucos momentos a observar o local que era mais um lar para ela do que a casa de fazenda de dois andares.
A construo havia sofrido com o tempo. A pintura precisava ser renovada mas, mesmo assim, o restaurante mantinha um certo charme.
Toldos listrados protegiam as duas janelas frontais do sol da manh e imensas floreiras a cada lado da porta ofereciam o colorido de petnias e de outras flores de variados tamanhos e tons.
Poppy era o dono do restaurante, mas jamais trabalhou em perodo integral. Quando Francine era bem jovem, costumava passar muitas horas ali aps o retorno da escola. Preferia a catica atmosfera do restaurante  solido da fazenda.
Fora o dinheiro das gorjetas do trabalho como garonete, aps o retorno da escola, que lhe permitira deixar Cooperville cinco anos atrs. Parecia-lhe irnico que mais uma vez dependesse do restaurante para completar o sonho de retornar a Nova York.
Desceu do carro e entrou. Um sino tocou quando ela abriu a porta e imediatamente Francine foi acolhida pelo aroma de comida e o barulho inerente ao salo lotado.
Betty Jean Prather, a gerente grandalhona e de cabelos grisalhos, viu-a entrar e caminhou em sua direo, os amplos braos abertos para cumpriment-la.
 Por acaso esta  nossa pequena estrela vindo para casa para uma visita?
Abraou calorosamente Francine, seu avental emanando o cheiro familiar de temperos, perfume de rosas e chiclete de menta.
O abrao foi retribudo com afeio. Betty Jean fora a nica influncia feminina em sua vida. Fora ela quem a levara para comprar o primeiro suti, quem lhe contara os fatos da vida.
 Deixe-me dar uma olhada em voc.
Soltou Francine e deu um passo para trs, os olhos azuis a fitavam de maneira crtica.
 Parece que a cidade grande no a machucou nem um pouco  observou e ento sorriu.  Eu a vi naquela novela, querida. Foi a coisa mais excitante que aconteceu em minha vida. Liguei para todas minhas amigas e parentes para lhes dizer que minha pequena Francine estava na televiso.
Francine acomodou-se em um banco junto ao balco, lutando contra uma onda de culpa e orgulho. Culpa porque Betty obviamente estava muito impressionada e parecia acreditar que ela havia vencido no mundo dos espetculos.
 Foi divertido. Mas fiquei desapontada por eu ter sido assassinada em trs dias.
Betty Jean sorriu.
 Mas teve uma morte tima! Deixe-me lhe pegar uma xcara de caf. Poppy me telefonou esta manh para me dizer que voc viria trabalhar comigo enquanto estivesse por aqui.
Colocou o caf na xcara e ento estendeu-a para Francine.
 Definitivamente acolheremos bem sua ajuda. O caf da manh est sendo administrado satisfatoriamente, mas temos encontrado dificuldade no horrio de almoo, sem contar que minha melhor garonete pediu as contas na semana passada.
 Poderei trabalhar no horrio em que precisar de mim.
 Durante os finais de semana eu gostaria que ficasse tanto para o almoo quanto para o jantar.
 timo.
 Opa, s um momento.
Betty foi at a janela que separava o salo da cozinha e pegou dois pratos de comida fumegante. Enquanto entregava os pedidos, Francine olhou ao redor da sala, reconhecendo vrias pessoas e sorrindo em cumprimento.
 Ouvi dizer que voc tem uma garotinha  Betty falou ao retornar.
Francine sorriu e assentiu.
 O nome dela  Gretchen.
 Algum rapaz esperto da cidade grande deve ter passado uma conversa muito doce em voc. E eu sempre achei que acabaria se casando com Travis e tendo uma dzia de filhos.
O corao de Francine reclamou  meno daquele nome.
 Fiquei surpresa em descobrir que ele no se casou.
 E no foi por falta de oportunidade. Travis  o solteiro mais cotado da cidade e a maioria das jovens e metade das mes tentaram agarr-lo.
Betty aproximou-se mais.
 Mas eu acho que quando voc deixou Cooperville, levou todo o fogo daquele homem na bagagem.
Mais alguns pedidos ficaram prontos e Betty pediu licena novamente para entreg-los.
Francine ficou olhando para o caf, as palavras de Betty ecoando em seus ouvidos e em seu corao. Travis podia ter ido com ela. Ou ao menos a detido. Mas no fizera nem uma coisa nem outra.
O passado. Tudo era passado e no havia como retroceder e alter-lo, consertar ou esquecer. Teria de conviver com aquilo.
 Betty, d-me um talo de pedidos  disse ela. acabando de tomar o caf e se levantando.  Estou pronta para comear a trabalhar.
A manh passou rapidamente. Francine manteve-se ocupada atendendo as mesas, pegando os cheques dos clientes e carregando pratos sujos para a cozinha.
Ficou embaraada com o nmero de pessoas que lhe disse ter visto sua breve participao na novela, presumindo estar diante de uma grande estrela em frias e trabalhando apenas para ajudar o av.
Surpreendeu-a notar que, aparentemente, os breves cartes postais enviados a Poppy, preenchidos com exagerada descrio de um sucesso fictcio, tivessem sido partilhados com a maior parte dos clientes regulares do restaurante.
Suas pequenas mentiras estavam retornando para assombr-la.
 Ei, Francine!
Um homem sentado  mesa nos fundos do salo lhe acenou. Chegara no horrio mais atribulado de almoo e fora servido por Betty.
 Posso ajud-lo?  perguntou, desejando naquele momento poder tirar os sapatos e massagear os ps doloridos.
Havia se esquecido do quanto era exigido, em termos fsicos, de uma garonete. Ele estendeu a mo.
 Barry Simmons. Sou editor do Cooperville Press.
 Prazer em conhec-lo, sr. Simmons. Apertou-lhe a mo. Era um homem atraente, com cabelos
louros e calorosos olhos castanhos. Aparentava estar no final de seus vinte anos, incio dos trinta.
 O que posso fazer para ajud-lo?
 Deixe-me contar uma histria sua. Sabe, uma garota local que se deu bem...
 Oh, por favor, no!
 Seria uma histria que geraria muito interesse  argumentou Barry.
 Sr. Simmons, estou em casa de frias. A ltima coisa que eu gostaria de fazer seria ver uma histria minha no jornal local. Alm do mais, no sou exatamente um sucesso estrondoso. De fato, como a maior parte das atrizes de Nova York, mal sobrevivo.
O sorriso de Barry foi amplo e genuno.
 Da maneira como Betty Jean fala a seu respeito, imagino que esteja para receber prmios.
Francine riu.
 Participei de uma novela durante trs captulos e de um espetculo da Broadway por cerca de seis semanas. Tambm estive em um episdio para um drama de televiso e esta  toda extenso de minha carreira.
Sorriu tristemente e acrescentou:
 Isto no preencheria uma matria sobre uma garota local que se deu bem, embora seja suficiente para assanhar a curiosidade das pessoas desta cidade pequena.
 Aprecio sua honestidade, Francine.
O sorriso se tornou mais sensual.
 Est bem, se eu no poderei escrever uma histria, talvez voc me deixe lhe oferecer um jantar antes de seu retorno a Nova York.
Francine enrubesceu. No se lembrava da ltima vez que algum a havia convidado para sair.
 Eu no tenho muita certeza de como ser minha programao aqui  murmurou.  Entre trabalhar no restaurante e tomar conta de minha filha, provavelmente terei todo meu tempo tomado. Alm do mais, no gosto muito de sair.
Barry deu de ombros, o sorriso amigvel ainda nos lbios.
 No se pode culpar um rapaz por tentar.
Francine sorriu, feliz por ele no ter levado a recusa de maneira muito pessoal.
 Foi um prazer conhec-lo, Barry. Agora eu terei de retornar ao trabalho antes que Betty Jean me acuse de estar sendo negligente.
Alguns minutos mais tarde, enquanto Francine limpava uma mesa, Betty agarrou-lhe o brao.
 Por que no aceitou a oferta de Barry para jantar?
 Betty Jean, eu poderia jurar que voc tem ouvidos na parte de trs de sua cabea. Como sabe que o moo me convidou para sair?
 Ele me disse que iria faz-lo quando peguei o pedido, e ao sair mencionou sua recusa. Por que no aceitou?  repetiu.   um rapaz simptico.  o outro bom partido da cidade.
 Pois eu no estou procurando um bom partido  respondeu Francine.  Alm do mais, a coisa mais estpida que eu poderia fazer seria me envolver com algum daqui, quando tenho a inteno de partir em um ms ou dois.
 Eu no disse que era para voc dormir com ele querida, apenas jantar  provocou-a Betty.
 No estou disposta a comear um relacionamento agora.
O que ela se recusava a dizer a Betty era que no se interessava por ningum desde a noite em que deixou Cooperville.
Algo se partira quando Travis, com tanta facilidade, a deixara sair de sua vida... E ela sabia que esse "algo" era, precisamente, seu corao.

Travis sentou-se  varanda com uma garrafa de cerveja na mo. Observava o trabalho de Poppy e Gretchen na construo da casa de cachorro para Linda.
O sol de fim de tarde gerava sombras profundas sob as rvores e o ar cheirava a grama recm-cortada.
Tomou um gole da cerveja gelada, o olhar focado na filha de Francine. A criana era uma imagem da me, os longos cabelos escuros e os olhos azuis muito brilhantes em perfeita harmonia com as bochechas rosadas.
Observ-la crescer seria como ver Francine novamente migrar da infncia para a adolescncia.
No havia indicao de como seria a aparncia de seu pai, nenhuma marca gentica nas feies da menina.
Segurou com mais fora a garrafa de cerveja, no querendo pensar no homem que tivera Francine nos braos, fizera amor com ela... plantara um filho em seu ventre.
H longnquos anos, Travis partilhou com ela noites e noites de conversas sobre sonhos para o futuro. Os de Frannie referentes a estrelato e fama... os dele focados na construo de um lar e famlia. A despeito das diferenas, nunca duvidou que de alguma maneira ficariam unidos por toda eternidade.
Nunca acreditou que ela iria embora de sua vida e jamais retornaria. Jamais considerou que, poucos meses aps sua partida, fosse capaz de se abandonar nos braos de outro homem.
Queria destratar a criana, o fruto da traio de sua amada, mas era impossvel. A menina era um encanto, assemelhava-se a um dia ensolarado. Tinha a aparncia da me, mas sua personalidade era muito diferente daquela que Francine tinha quando criana.
Frannie passou a maior parte da juventude revoltada.
Brava com o destino que levou seus pais, com Poppy por no lhe dar o que precisava e com o mundo por no lhe estender a mo.
Travis esperava que Nova York e o sucesso tivessem abrandado um pouco aquela ira e Francine tivesse encontrado uma espcie de felicidade que ele e Cooperville aparentemente no tinham sido capazes de lhe proporcionar. Parecia correto que pelo menos um dos dois fosse feliz.
Tomou o ltimo gole, ficou em p e caminhou para onde Gretchen e Poppy trabalhavam.
 Parece que teremos uma bela casa de cachorro  observou.
A menina sorriu.
 Eu sabia que Poppy faria a casa mais bonita.  o melhor bisav do mundo!
 Pois eu acho que voc fala demais  respondeu Poppy.
 Como assim?  indagou Gretchen, rindo.
Poppy colocou o martelo no cho e fitou-a intensamente.
 Acho que voc est falando muitas bobagens hoje.
A pequena voltou a rir e um sorriso passou pelo rosto, agora enternecido, do av. Quase imediatamente, entretanto, ele pegou o martelo e voltou a trabalhar.
Travis observou-os, divertido. Gretchen era tudo de que seu vizinho necessitava. Nos ltimos cinco anos os dois homens haviam se aproximado muito e Travis descobriu que Poppy escondia um corao de ouro por trs daquela fachada rude.
Soube tambm que a vida dele fora muito vazia. Esperava que Gretchen pudesse preencher tal solido, nem que fosse temporariamente.
Uma nuvem de poeira sinalizou a aproximao de um veculo.
  mame!  Gretchen exclamou quando o carro chegou mais perto.
Francine estacionou e desceu, toda sua ateno voltada para a filha que pulava para cumpriment-la. Usava o uniforme do restaurante, listrado de rosa e branco, e parecia estar encalorada e cansada.
Gretchen pegou sua mo e conduziu-a at a casinha de cachorro semi-acabada.
Travis foi buscar outra cerveja na geladeira. Quando retornou para a varanda, encontrou Frannie sentada em um degrau, observando os dois carpinteiros atarefados.
 Tome  disse, estendendo-lhe a cerveja.
 Obrigada.
Pegou a garrafa gelada e colocou-a junto  testa.
 H muitas coisas de que eu me esqueci sobre estar aqui.
 Como o qu?  indagou, sentando-se a seu lado.
 Por exemplo, como agosto  quente.
Ela baixou a cabea e pousou a garrafa no pescoo, o ato parecendo estranhamente ertico a Travis. Um lampejo de desejo o atingiu, surpreendendo-o ao mesmo tempo em que o deixava irritado.
Em seguida, Frannie jogou a cabea para trs e colocou a garrafa no pescoo, na altura da garganta, como se achasse a frieza da garrafa prazerosa.
Ele observava-a, meio hipnotizado pelo movimento. Suprimiu um gemido, ento pegou a garrafa de sua mo, abriu o lacre e a devolveu.
Francine tomou um longo gole.
 Oh, o sabor est maravilhoso! Eu havia me esquecido tambm do quo boa uma cerveja gelada  em um dia quente de vero.
Tirou os sapatos e mexeu os dedos dos ps.
 Outra coisa de que no me lembrava era da dificuldade de ficar em p o dia todo servindo pessoas.
 Voc ficou meio molenga com seu novo estilo de vida, com sua rotina de atriz de sucesso.
Ela encarou-o e abriu a boca para dizer algo, mas em vez disso olhou para Poppy e Gretchen.
 Em breve ser outono e eu no terei um s minuto de tranqilidade  comentou Travis.  O milho ter de ser colhido, todo o maquinrio limpo.
 Voc realmente parece ser um fazendeiro.
 Eu sou um fazendeiro e isto  tudo o que sempre fui: apenas um simples fazendeiro.
Por um momento seus olhares permaneceram ligados. No dela Travis viu recriminaes veladas, mas recusou-se a sentir culpa.
Sabia que o sonho de Francine fora que ambos se mudassem para Nova York e l trabalhassem, mas aquilo nunca fez parte do seu sonho.
Ela suspirou e olhou para o nada.
 H quanto tempo esto fazendo a casinha?
 Estiveram a o dia todo. Poppy teria construdo trs casas de cachorro durante o tempo dispendido, mas est deixando Gretchen fazer a maior parte do trabalho, por isto est demorando tanto.
Ela sorriu e balanou a cabea de um lado a outro, os cabelos longos esvoaando com o movimento.
 Poppy tendo pacincia! Quem acreditaria nisto?  perguntou tristemente.
 J se passaram cinco anos, Francine. As pessoas mudam.
Travis entrelaou os dedos, lutando contra o impulso de estender a mo e tocar-lhe os cabelos sedosos.
Aborrecia-o notar que, embora ela o tivesse abandonado, ainda a desejasse tanto.
 Poppy no mudou  falou Francine.   apenas impossvel ser rancoroso com Gretchen. Ela se recusa a aceitar algo assim.
Tomou mais um gole da cerveja.
Travis sabia qual seria o gosto daquela boca: mel quente mesclado ao sabor de cerveja gelada. Podia lembrar-se com vividos detalhes da suavidade de sua pele, do calor daquele corpo se movendo contra o seu. Mais uma vez sentiu muita raiva, raiva de si mesmo, de Francine.
 Onde est o pai de Gretchen?  perguntou, sabendo que este tpico seria capaz de manter viva sua ira e assim manteria afastada a emoo perigosa do desejo.
 Ele j no faz parte de nossas vidas.
Travis ficou pensando se ela o amara desesperadamente ou se aqueles primeiros meses de solido em uma cidade estranha a haviam conduzido aos braos daquele homem. De qualquer maneira, no importava.
 Isto  pssimo  respondeu.  Perdi meu pai quando era muito jovem, por isto sei a falta que um pai faz.
 Gretchen est bem  defendeu-se.  Est perfeitamente bem-ajustada. Sou tudo o que ela precisa. Eu a amo o suficiente por um pai e por uma me.
 Puxa! Fique calma! No tem de provar nada para mim.
O olhar de Francine pousou na filha.
 Ela nunca sequer perguntou sobre o pai. A cada dia mais crianas so cuidadas apenas por um dos pais. E se um dia ela me perguntar alguma coisa sobre ele, serei honesta. Enquanto isto, no quero falar sobre este assunto.
 Mame, veja!  Gretchen exclamou, em p ao lado da casa de cachorro pronta, o rosto demonstrando o orgulho que sentia.  Est pronta!
 Ficou maravilhosa, querida!  disse a me.
Gretchen colocou Linda dentro de seu novo lar. Enquanto isso, Poppy juntou-se a Travis e Francine na varanda.
 Betty Jean a fez passar apuros hoje?  o av perguntou, ao acomodar-se em sua cadeira.
 No mais do que o habitual  respondeu.  Eu diria que aquela mulher tem mais energia do que trs pessoas com metade de sua idade.
  uma boa gerente, mantm tudo nos eixos para mim.
 Tambm  a maior fofoqueira da cidade  falou Travis secamente.
Francine riu, o som meldico mais uma vez despertando o desejo adormecido de Travis.
 Est absolutamente certo sobre isto. Em quinze minutos de trabalho a seu lado, soube de tudo que aconteceu com todos desde minha partida.
Travis ficou em p, subitamente precisando colocar alguma distncia entre os dois. O seu riso, perfume, a presso dos seios contra o tecido do uniforme... Tudo aquilo conspirava para desej-la ainda mais. E no era bem isso que ele queria.
 Preciso ir para casa  disse ao descer os degraus da varanda.
 Seria bem-vindo para o jantar  ofereceu Poppy.
 No, obrigado. Tenho algumas coisas para fazer em casa.
 Tchau, Travis!  Gretchen gritou ao v-lo entrar na caminhonete.
Ele acenou para a garotinha e ligou o motor. Enquanto dirigia pela estrada que conectava as terras de Poppy s suas, apertava com fora o volante, tentando analisar seus sentimentos. Queria saber por que, mesmo depois de tanto tempo, apesar da raiva e da mgoa, ele ainda desejava Francine com tanta intensidade.
Talvez a causa fosse a noite que caa.
Sempre naquela hora do dia, havia anos, ele comeara a antecipar seus momentos ao lado de Frannie. Naquele horrio, quando o sol comeava a baixar no oeste, seu corao se acelerava de felicidade e excitao.
No importava o quo cansado estivesse das horas na escola e do trabalho nos campos, nunca estivera fatigado demais para se encontrar com a namorada.
Quando as sombras se aprofundavam e tingiam tudo de lils, no lusco-fusco, ele sempre obtivera uma energia extra, vibrando de alegria ao saber que assim que escurecesse por completo Francine se esgueiraria para fora de casa e os dois passariam algum tempo juntos.
Algumas vezes limitavam-se a ficar sentados lado a lado, sem a necessidade de uma conversa ou toque, apenas confortados pela presena um do outro. Em outras ocasies se beijavam, se acariciavam, mal conseguindo se deter antes de perderem o controle completamente. Ento ele ia para casa, to inflamado pelas caricias que demorava horas para conciliar o sono.
De alguma maneira, sempre assumira que quando finalmente fizesse amor com Francine seria em uma cama enorme e macia, e ento a tornaria sua esposa.
Mas aquilo no havia acontecido. A ltima noite que haviam partilhado, quando fizeram amor, fora um ato nascido mais do desespero que do amor. Uma lembrana final que o assombraria e aqueceria para sempre.
Lembranas, era tudo o que ele possua. Apenas a recordao do desejo, a reteno dos momentos prazerosos.
Suavizou a fora com que segurava o volante, mais aliviado pela anlise racional. Era claro que tudo se limitava a lembranas. Por apenas um momento, fora capturado pela recordao de seu amor por Francine, mas aquilo nada tinha a ver com o presente, com a realidade.
Era humano e por isso se emocionava ante sua proximidade, por causa de tudo que haviam vivenciado juntos.
Sim, seria um tolo caso se permitisse acreditar que seu corao sentia alguma coisa por Francine alm de um punhado de recordaes.

 
CAPTULO IV

Eu a verei amanh  Francine falou para Betty Jean ao sair do restaurante.
Enquanto caminhava para o carro, tocou o bolso onde guardava as gorjetas do dia. Sim, o dinheiro estava prximo a seu corao.
J estava trabalhando no restaurante havia uma semana e entre o que trazia consigo e o montante guardado na gaveta de seu quarto, tinha pouco mais de trezentos dlares. Nada mal, pensou, congratulando-se.
Felizmente o restaurante era um negcio promissor e a maioria das pessoas muito generosa quanto a gorjetas. O que surpreendia Francine mais do que tudo era o fato de apreciar o trabalho. Gostava do contato social com os clientes e da atividade fsica que a deixava exausta demais para que pudesse sonhar  noite.
O que tambm a espantava era como Poppy e Gretchen pareciam estar se dando bem. J por duas vezes ele levara a menina para pescar. Encarregara-a de alimentar e cuidar dos coelhinhos, uma tarefa que, por sinal, Gretchen adorava.
Por um lado, Francine era grata ao av por cuidar to bem de sua filha enquanto estava no trabalho. Por outro lado, entretanto, ressentia-se ante o fato de seu av conseguir ficar menos emburrado quando Gretchen estava por perto.
Havia a lembrana de uma garotinha que jamais conseguira se fazer amar por ele. Francine. Magoava-a ver que Poppy era capaz de dar amor quela criana, um sentimento que jamais fora capaz de lhe ofertar.
Desceu o vidro da janela, os pensamentos migrando de Poppy para Travis. Felizmente seu horrio de trabalho no restaurante raramente permitia que se encontrassem.
Pouco haviam se visto durante a ltima semana. Duas vezes ele aparecera  noite, mas ficara na varanda conversando com Poppy e ela permanecera dentro da casa.
Frannie achou que seu corao fosse parar de bater quando Travis lhe perguntou sobre o pai de Gretchen. Uma culpa muito grande a tomou enquanto buscava uma resposta.
Percebeu que devia ter lhe contado anos atrs que aquela nica noite de paixo havia gerado um resultado importante. Naquele momento, entretanto, achava plausvel sua razo em no lhe contar a verdade.
Pretendia sair de Cooperville, ento ele no conseguiria fazer seu papel de pai. Certamente, se quisesse que Francine ficasse, desejasse um futuro a seu lado, teria lhe pedido para ficar e construir uma vida com ele naquela noite, quando fizeram amor.
Alm do mais, Travis estivera sufocado pela responsabilidade de cuidar da me doente e das irms mais novas. No seria justo acarretar-lhe mais um fardo. E atualmente aquilo j no importava. Havia se passado tempo demais para que Frannie revelasse o segredo.
A verdade apenas complicaria a vida de todos.
Ou no?
Afastou aqueles pensamentos ao aproximar-se da fazenda.
No mudaria seu comportamento em relao a Travis. E quanto a Poppy, nada revelaria tambm. Sentia-se grata por ele estar sendo gentil com Gretchen e a menina parecia estar apreciando muito o tempo passado em companhia do av.
Estacionou defronte  casa, uma sensao de plenitude, de estar chegando a seu lar, preenchendo seu corao ao ver Poppy e Gretchen sentados  varanda aguardando por ela.
 Ol, mame.
Gretchen se jogou do ltimo degrau para os braos de Francine.
 Oi, sapeca  respondeu-lhe, abraando-a com fora.  Teve um bom dia?
 Tivemos um grande dia  respondeu Gretchen.  Pegamos dois peixes bem grandes e uma cobra cruzou nosso caminho. E olhe...
Apontou para a casinha de Linda, pintada de vermelho.
 Acabamos de pintar. No est bonita?
 Maravilhosa.
Francine olhou para Poppy. O rosto dele estava enrubescido pelo calor, mas talvez por outra razo tambm. Havia um pouco de tinta vermelha em seu rosto.
 Parece estar cansado  observou ela.
 Estou.
 Achei que no fosse pintar a casinha.
 A srta. Tagarela ficaria me importunando at a morte. Aquele bicho tinha de ter uma casa vermelha.
Gretchen sentou-se prxima ao bisav.
 E o que eu ficaria tagarelando hoje?  perguntou.
Aquilo tornara-se um jogo entre os dois. Francine observou Poppy fingir pensar bastante antes de responder e seu corao se enterneceu.
 Acho que voc ia ficar falando ao meu ouvido a palavra vermelho sem parar  respondeu e Gretchen riu como se ele fosse o homem mais esperto que j conhecera.
Um brilho de afeio iluminou os olhos de Poppy e mais uma vez Francine sentiu algo esquisito em seu corao.
  melhor eu entrar para preparar o jantar  disse ela, ansiosa por despir o uniforme e usar algo mais fresco e confortvel.
Em seu quarto, tirou o dinheiro das gorjetas e guardou na gaveta. Em seguida colocou um vestido de vero, prendeu os cabelos em um rabo-de-cavalo e foi para a cozinha preparar a refeio da noite.
Uma hora mais tarde todos acabavam de comer quando Travis apareceu  porta dos fundos.
 Eu podia sentir o cheiro do caf da minha casa  disse ele, fazendo um gesto em direo ao bule.
 H uma xcara com seu nome gravado  Poppy falou ao afastar o prato vazio.
 Por que vocs dois no tomam seu caf na varanda enquanto eu lavo os pratos?  sugeriu Francine.
No queria Travis na cozinha, onde pudesse sentir o aroma fresco de sua loo aps barba e o olhar penetrante pousado em seu rosto. Ele a perturbava de uma maneira intensa demais para faz-la sentir-se confortvel.
 Parece-me uma boa idia  falou Poppy e levantou-se.
 Travis, pintamos a casa da Linda hoje  revelou Gretchen.
A menina pegou-o pela mo.
 Venha ver como ficou bonita.
 V e deixe que ela lhe mostre  disse Poppy a Travis.  Eu levarei o caf.
Os dois desapareceram porta afora. Francine ocupou-se de lavar os pratos. Ela e Poppy haviam feito um acordo de se revezarem com a comida e a limpeza nas refeies noturnas. Aquela noite era a sua.
 Aquele homem devia ter filhos  falou Poppy. Francine o fitou, pensando se estaria desconfiado de seu segredo. Estava em p ao batente, observando Travis e Gretchen. Devia ter sido apenas um comentrio inocente, concluiu por fim, sossegando.
 De acordo com Betty Jean, metade das mulheres da cidade adoraria ser sua companheira  respondeu Francine.
 Talvez, mas Travis no parece estar interessado em nem uma delas.
Poppy aproximou-se do bule e serviu duas xcaras de caf.
 O que acha de tomar um pouco de caf conosco quando acabar sua tarefa aqui?
Francine o fitou, espantada.
 Talvez eu v por alguns momentos  concordou.
Ele assentiu, ento desapareceu porta afora. Francine ficou observando-o, chocada pela indicao de que gostaria de sua companhia.
Travis havia comentado tal possibilidade. Dissera que Poppy mudara nos ltimos cinco anos. Ela desprezara at mesmo considerar o fato como possvel. Afinal, qualquer coisa que o av lhe oferecesse agora seria pouco... e muito tarde.
Seria mesmo?
Terminou de lavar os pratos em tempo recorde e foi para a varanda levando sua xcara de caf. Poppy estava sentado ao lado de Travis. Gretchen brincava com Linda, tentando lhe ensinar a dar a pata.
Francine acomodou-se no degrau de cima e apoiou a cabea contra a amurada. Era uma linda noite. Uma brisa refrescante dissipava um pouco o calor do dia e trazia o perfume de flores e de mato.
Gretchen, aparentemente cansada de treinar a cachorra, juntou-se  me no degrau.
 Ei, menina.
Francine tirou uma mecha de cabelos dos olhos da filha.
 Mame, voc jogaria comigo?
 Que espcie de jogo?
 No sei. Algo divertido.
Seu rostinho se iluminou ante uma idia.
 Eu sei... que tal brincarmos de esconde-esconde?
 Oh, querida, no acho que algum queira brincar de esconde-esconde  respondeu Francine.
 Mas seria muito divertido. Por favor.
Poppy pousou a xcara no cho.
 Acho que eu guardei um pouco de energia para brincar de esconde-esconde.
Gretchen deu um pulo e abraou o bisav.
 Oh, Poppy, eu sabia que voc era o melhor bisav do mundo!
 Voc iria ficar implorando e tagarelando at a morte se eu no concordasse.
Travis ficou em p, sorrindo.
 Eu tenho de lhe avisar, Gretchen. Sou o melhor do mundo em esconde-esconde. H anos atrs, quando sua me e eu costumvamos brincar, ela levava horas e horas para me encontrar.
Gretchen arregalou os olhos.
 Voc e mame costumavam brincar de esconde-esconde?
Travis assentiu, o olhar pousando em Francine, uma expresso pensativa ao referir-se s lembranas dos dias de infncia. Frannie retribuiu o sorriso, permitindo-se usufruir do prazer de tais lembranas.
 Eu no era mesmo exatamente esperta para encontrar bons lugares para me esconder  respondeu ela.
 Oh, isto vai ser muito divertido!  Gretchen exclamou, pulando e batendo as mos em excitao.  timo. Eu ficarei ali e vou contar at cem enquanto vocs se escondem.
A menina correu at a rvore que havia no jardim, fechou os olhos e comeou a contar enquanto os adultos saam da varanda e procuravam lugares para se esconder.
Poppy foi para o celeiro e Francine olhou ao redor, buscando o lugar perfeito. Havia um enorme carvalho nas proximidades, mas temeu ser aquele o primeiro lugar onde Gretchen a procuraria.
Em vez disso foi para o milharal, sabendo que a planta alta faria dali um lugar maravilhoso para se esconder. Enquanto corria pela passagem estreita entre uma linha e outra de ps de milho, ouvia a menina alcanar o nmero quarenta na contagem.
 Quarenta e dois. Quarenta e oito. Cinqenta...  falou Gretchen e Francine tomou nota mentalmente da necessidade de repassar a contagem de nmeros com a filha.
 Pessoas inteligentes pensam a mesma coisa.
Deu um pulo quando Travis apareceu  sua frente, um pedao de planta decorando o alto de sua cabea. Sorriu e afastou o p de milho.
 Suma daqui, seu monstro! Eu estava aqui primeiro.
 O campo  bem grande. Certamente h espao para dois.
Era verdade, mas quando Travis se aproximou, ela sentiu como se o espao tivesse encolhido, tornando-se pequeno demais para duas pessoas. Estava to prximo que era possvel sentir seu perfume msculo, o cheiro do sabonete de menta.
Francine queria se mover, encontrar outro lugar para se esconder.
 Prontos ou no... l vou eu!  gritou Gretchen detrs da rvore e Francine soube que, caso se movesse, a menina perceberia.
Ento ajoelhou-se para que sua cabea no pudesse ser vista por sobre os ps de milho.
Travis fez o mesmo, ficando bem prximo. Francine sentia o calor daquele corpo. Afastou-se um pouco, procurando sentar-se, mas franziu a testa quando o observou acomodar-se ao seu lado, a coxa pressionada intimamente contra a sua.
 Lembra-se da noite em que nos escondemos no milharal enquanto Poppy praguejava sobre suas notas baixas na escola?  perguntou Travis.
A despeito do desconforto por tamanha proximidade, ela sorriu ante a lembrana.
 Oh, voc se lembra de como ficou bravo? Eu achei que fosse me encontrar.
 Seu av sabia que voc era capaz de tirar notas muito melhores do que aquelas  observou Travis, o olhar caloroso.
 Era mesmo.
Ele se inclinou, a respirao aquecendo o rosto de Francine.
 Aquela foi a primeira e nica vez em que eu a vi chorar.
Com o indicador, tocou a bochecha delicada em um carinho temeroso.
 Densas lgrimas caram por seu rosto e eu fiquei com vontade de gritar com Poppy por t-la aborrecido tanto.
As batidas do corao de Francine se aceleraram e sua boca ficou seca. Sabia que deveria fugir dali, no permitir que Travis a tocasse com tanta intimidade. Mas no podia. Sentia-se colada ao cho, cativa quela proximidade.
 Voc teve tanto medo de que Poppy a mandasse embora. Chorou em meus braos durante horas.
Francine fez um meneio com a cabea, desejando que ele tirasse a mo de seu rosto e, ao mesmo tempo, lutando contra a vontade de submeter-se quele toque.
 Eu achei que havia ido longe demais.
Fechou os olhos, lembrando-se das emoes que a tomaram ao dar-se conta da raiva de Poppy. Naquele instante percebera que, embora detestasse morar com o av, a idia do viver em qualquer outro lugar era muito assustadora.
Tambm naquele momento acreditara verdadeiramente que, se tivesse de viver sem Travis, morreria. Atualmente sabia que aquilo era perfeitamente possvel.
 Francine.
O tom de voz era suave e quando ela abriu os olhos, soube que Travis iria beij-la. Tambm sabia que deveria det-lo, mas, que Deus a ajudasse, porque ela queria demais aquele beijo.
Os lbios de Travis tocaram os seus suavemente, buscando reconhecimento. Francine sentiu uma emoo poderosa domin-la e abriu os lbios para que o beijo se intensificasse.
Eles perderam-se naquele beijo.
Travis colocou a mo atrs de sua cabea e passou a explorar-lhe a boca com uma intimidade que a deixou sem ar. Sensaes doces e familiares passaram por seu corpo, sentimentos meio esquecidos, desejo e paixo.
Francine passara os ltimos cinco anos tentando se esquecer do calor daqueles beijos, do fogo que a inflamava quando Travis a tocava e com apenas um beijo ele conseguira trazer tudo de volta e resgatar todas as lembranas daquela nica noite em que haviam feito amor.
Ele pousou a mo na fita que prendia os cabelos de Frannie e logo os fios brilhantes caam em cascata.
 Poppy, encontrei voc!  Gretchen exclamou, deliciada, seu riso penetrando atravs do torpor gerado pelo beijo.
Subitamente desperta, Francine afastou-se.
Viu desejo naqueles olhos, assim como tantos anos atrs. Amedrontava-a saber que a paixo permanecia entre os dois, a despeito da distncia, do tempo e do espao. Cinco anos no haviam sido suficientes para banir tudo aquilo.
 No devia ter feito isto  ela falou suavemente ao tocar os prprios lbios.
Os olhos de Travis cintilaram.
 Eu sei  respondeu-lhe e correu em direo  varanda, onde Gretchen e Poppy aguardavam.
Francine permaneceu no milharal por um longo momento, esperando que seu corao parasse de pulsar com tamanha rapidez e a respirao voltasse ao normal. Viu a fita no cho e rapidamente ajeitou os cabelos em um rabo-de-cavalo.
Quando finalmente julgou ter recobrado o equilbrio, ficou em p e caminhou vagarosamente de encontro aos outros.
Repetiram a brincadeira por mais trs vezes. Francine escolhia os lugares para se esconder com muito cuidado, evitando assim ficar muito prxima a Travis. Quando terminaram o ltimo jogo, a escurido havia cado, tornando qualquer outra brincadeira ao ar livre impossvel.
 Hora de tomar banho e ir para a cama  Francine falou para Gretchen.
 Sim, e  hora de eu voltar para minha casa  murmurou Travis.
 Tchau, Travis  falou Gretchen e puxou seu brao para que se abaixasse para receber um beijo na bochecha.  Brincaremos outras vezes, ento eu o encontrarei, no importa o lugar onde se esconda.
Ele riu e tocou-lhe a ponta do nariz em um gesto'afetuoso.
 Tchau, querida. Durma bem e no caia do trem.
Gretchen riu. Travis aprumou-se e olhou para Francine.
 Tenha doces sonhos, Frannie.
Ela assentiu e observou-o entrar na picape.
Frannie.
Somente Poppy e Travis a haviam chamado assim. Observou os faris serem ligados e serpentearem at a casa vizinha. Permaneceu na varanda at v-lo entrar e acender a luz da sala de estar.
Estaria pensando no beijo? Por que a tinha beijado? Por que ela permitira?
Virou-se e entrou na casa. Poppy havia desaparecido em seu quarto e Gretchen preparava-se para tomar banho.
Vinte minutos depois ela colocava para dormir uma garotinha muito cheirosa. Sentou-se na beirada da cama e acariciou a testa da menina.
 Boa noite, querida.
Gretchen sorriu, as plpebras parecendo muito pesadas.
 Foi divertido brincar de esconde-esconde no foi, mame?
 Divertido  beca.
 Ns poderemos ficar aqui para sempre? Gosto deste lugar, de Poppy, do tio Travis...
 Tio Travis?
 Eu decidi fingir que ele  meu tio. Gosto muito dele.
 Voc no sente falta de Nova York, de suas amigas?
Gretchen ficou pensativa. Franziu a testa.
 Sim, sinto falta delas. Mas gosto mais daqui do que de Nova York.
A me inclinou-se e lhe deu um beijo.
 Durma agora. J  tarde e poderemos conversar mais amanh.
Gretchen assentiu e fechou os olhos. Francine deixou o quarto, perturbada com a conversa. No queria que a filha gostasse de Cooperville. Aquilo apenas complicaria tudo.
Caminhou de volta para a varanda, onde a noite j roubara o restante do dia. Sentou-se em uma espreguiadeira e levou os dedos aos lbios ao lembrar-se do beijo de Travis.
No poderia permitir que aquilo se repetisse. Absolutamente recusava-se deixar seu corao ser tocado por ele. Mais do que nunca, percebeu o quo importante era juntar algum dinheiro e partir... Antes que seu corao se despedaasse novamente.

Travis deu um pulo do sof e pegou o telefone.
 Al?
 Ah, voc est em casa! Tentei ligar antes e ningum atendeu.
Como era agradvel ouvir a voz de sua irm Susie.
 Estava na casa de Poppy  Travis lhe explicou. Levou o telefone consigo at o sof e sentou-se.
 Oh, sim, ouvi dizer que Francine est de volta  cidade.
 Est.
 E ento?
Era perceptvel a ansiedade na voz de sua irm.
 Ento o qu?  indagou, irritado.
Desde o recente casamento da irm, ela parecia ter se elegido a cupido pessoal de Travis.
 Ento voc a viu? Alguma chama crepita entre vocs dois?
Chamas? Droga, o que ele sentira fora um incndio completo passar por seu corpo quando beijara Francine. Mas no iria dizer isso. Jamais admitiria isso a qualquer pessoa, especialmente  sua irm fofoqueira.
 Susie, tudo aquilo  passado. Francine e eu ramos duas crianas malucas.
 Eu apenas pensei... Eu achei...
 No ache  interrompeu-a Travis.  Ela est aqui apenas para umas frias bem curtas. Tem uma carreira em outro lugar. Tem toda a cidade de Nova York a seus ps. Tenho certeza de que a cidade est repleta de toda espcie de homens maravilhosos que podem lev-la a restaurantes da moda e a peas de teatro da Broadway. Ela certamente no tem algum interesse em um simples fazendeiro.
Por algum motivo, o pensamento daqueles homens da cidade ao lado de Francine lhe causava uma incmoda dor no peito.
 Travis, para mim voc sempre ser mais do que um simples fazendeiro  murmurou Susie.  Para mim voc sempre ser um heri.
Ele sorriu, sentindo-se enrubescer ante as palavras da irm. Travis certamente nunca se considerou uma espcie de heri. Era apenas um homem que cuidava de sua fazenda e fazia o que era melhor para sua famlia e s pessoas a quem amava.
Entretanto, uma coisa era clara: seria um tolo se um dia se esquecesse de que era apenas um homem simples, um fazendeiro, feliz com a descomplicada vida que levava.
Isso no fora suficiente para Francine cinco anos atrs... E certamente no seria o bastante para ela atualmente tambm.

 
CAPTULO V

Francine passou uma esponja pelo balco e deu uma olhada no relgio de pulso. Nove e meia. Mais trinta minutos e poderia colocar a plaqueta de "fechado"  porta do restaurante e ir para casa.
Betty havia partido havia vinte minutos, declarando que a freqncia estava baixa demais para justificar a presena das duas at a hora do fechamento. O movimento estivera fraco durante toda a noite, algo tpico das quintas-feiras.
Com todas as mesas e balces limpos e nada mais a fazer, Francine serviu-se uma xcara de caf e sentou-se em uma banqueta ao final do balco.
Da cozinha podia ouvir os sons de Benny Walton, o cozinheiro, fazendo a limpeza. Ele havia desligado o fogo da chapa momentos atrs. Logo, aos clientes que chegassem quela hora restariam como opes as sobremesas que j estavam prontas e drinques. Para todas as intenes e propsitos, a cozinha estava fechada.
Bebericou o caf com vagar, encontrando dificuldade em acreditar que j estava em casa havia quase duas semanas. Entre o trabalho no restaurante e o tempo passado com Gretchen, os dias se transcorreram com tamanha rapidez que chegava a ser amedrontador.
Algumas de suas colegas de ginsio haviam comparecido ao restaurante, surpreendendo-a com sua boa acolhida. Aparentemente, a seus olhos, Frannie alcanara o sucesso e todas elas falavam da novela em que aparecera com curiosidade e uma aura de inveja.
Tudo isso era estranho para Francine, que ainda podia se lembrar das tticas cruis utilizadas por muitas coleguinhas para feri-la. Chamavam-na de "pernas de vareta" ou "rf magrela".
Mais do que uma vez descobrira o quo maldosas as crianas podiam ser umas com as outras. Sempre fora eleita como vtima.
Parte do motivo devia-se ao fato de no ter pais em uma cidade onde famlias com pai e me era maioria. Essa era uma espcie de diferena que dividia as crianas. Outra razo fora a reputao de Poppy. Como era rabugento, todas as crianas da cidade tinham medo dele.
Entretanto, aquelas pessoas atrozes eram atualmente adultos ansiosos por terem amizade com uma grande estrela de televiso. E Francine descobriu ser impossvel guardar mgoas. Afinal, naquela poca todos eram crianas.
O sino  porta do restaurante tocou. Olhou para cima e viu Travis entrar. Imediatamente aprumou-se. No o via desde a noite em que haviam trocado um beijo no milharal.
Passara os dias desde tal incidente procurando no pensar no assunto. Mas ao cumpriment-lo, seus lbios pareceram latejar, como a se lembrar do calor e prazer oferecidos por aquela boca.
 Voc parece dedicar-se muito ao trabalho  disse ele com um sorriso acolhedor.
 Acho que poderia dizer que no h muito a que se dedicar hoje por aqui  respondeu-lhe ao ficar em p.
Travis acomodou-se em um banco do lado oposto ao local em que ela se encontrava.
 Eu poderia tomar uma xcara de caf?
 Claro, mas nada poder pedir para a cozinha. Est oficialmente fechada.
Virou-se para pegar a garrafa trmica.
 Que tal um pedao de torta de ma?
 Sem problemas  respondeu-lhe ao lhe servir o caf e em seguida a sobremesa.
 Francine, estou indo embora!  Benny gritou dos fundos.
 Est bem, Benny. Boa noite!
 Que tal sentar-se e terminar de tomar seu caf em minha companhia enquanto como a torta?  sugeriu ele.
Francine hesitou, ento assentiu.
 Est bem.
Pegou sua xcara e acomodou-se em um banco.
 Ningum faz tortas de ma como Benny  falou Travis depois de experimentar o doce.  Lembra-se daquela que voc fez na poca de ginsio?
Francine irrompeu em risos.
 Oh, como poderia esquecer? Ns dois ficamos doentes por uma semana.
 Nunca tive uma dor de estmago to forte.
 Acho que as mas estavam verdes. E talvez em nada tenha ajudado que eu a tivesse preparado em apenas meia hora e cada um de ns comido metade da torta.
O sorriso dele se intensificou, enriquecido pelas lembranas partilhadas.
 Tivemos bons momentos...
 Os melhores.
Houve uma longa pausa, mas sem desconforto. Era um silncio de companheiros, de duas pessoas recordando-se de pocas agradveis.
Travis comeu mais um pedao da torta, bebeu outro gole de caf e ento a fitou novamente.
 Fale-me sobre Nova York, Frannie.
Fitou-o, surpresa.
 O que voc quer saber?
 Desejo saber onde morava, como era seu trabalho... Se tudo correspondeu s suas expectativas.
 Temos um apartamento legal na Upper West Side. No  chique, mas  um lar.
Fitou a xcara, incapaz de sustentar o olhar de Travis. No poderia lhe dizer que perdera o apartamento, que fora incapaz de pagar o aluguel do minsculo estdio at mesmo trabalhando em dois empregos de meio perodo.
 A cidade em si  inacreditvel  continuou.  H correria e excitao o tempo todo, o que  muito contagiante.
No mencionou o medo, a frieza da metrpole, a solido que com tanta freqncia sentira, a despeito de existirem tantas pessoas a seu redor.
 Um lugar divertido para se viver  concluiu por fim. O que ela gostaria de lhe dizer era que no vivenciara os sonhos, pelo menos ainda no. Morar em Nova York, tentar encontrar trabalho, tudo fora muito mais difcil do que jamais imaginou. Mas o orgulho a impedia de confessar aquelas coisas.  E quanto a voc? Conte-me sobre sua vida. O que fez nos ltimos cinco anos?  indagou Francine, querendo desviar o foco da conversa de sua pessoa.
 No h muito a contar. Levo uma vida simples. Trabalho no campo, visito Poppy, ocasionalmente pesco e algumas vezes assisto filmes. Tenho certeza de que  muito aborrecedor comparado  sua vida.
 No , no  protestou.
Levantou-se e foi at a cafeteira para servir mais caf a ambos.
 Tenho certeza de que Poppy aprecia sua ajuda aqui  disse Travis.
Francine voltou a sentar-se.
 Para ser honesta, estou apreciando o trabalho. Nunca me importei em trabalhar aqui  acrescentou sorrindo.  Glenda Snider veio outro dia. Partiu meu corao ver que a chefe da torcida esportiva engordou tanto e parece estar muito estressada devido a seus trs filhos.
Travis riu.
 Partiu seu corao? Voc est muito fragilizada, Francine.
 Fragilizada? No, apenas humana. Glenda era uma das garotas mais bonitas do ginsio. No pude deixar de ficar triste ao observar que ela j no  mais a pessoa glamourosa de antes.
 Acho que voc devia ter sentido isto anos atrs quando lhe serviu uma torta.
Ela riu, sabendo exatamente a que Travis se referia. Uma tarde aps a escola, Glenda e suas companheiras haviam ido ao restaurante. Como sempre, Francine as serviu, suportando seu comportamento rude e detestvel. Farta da falta de educao das garotas, dera um jeito de, "acidentalmente", derrubar sorvete no colo de Glenda quando lhe servia um pedao de torta.
Parou de rir e olhou para Travis, lembrando-se de mais aquela histria.
 Ela ficou to brava que foi para casa e contou a seu irmo mais velho, que ameaou me bater.
Travis assentiu.
 E eu lhe disse que se tocasse em um fio de cabelos seus, acabaria com ele.
Seus olhares se conectaram, falando a linguagem da velha camaradagem.
 ramos uma dupla e tanto  Francine murmurou, balanando a cabea tristemente.  No posso imaginar como teria sido minha vida sem voc  disse pensativa, sabendo o quo sua infncia teria sido mais triste sem aquela amizade.
 Acho que foi uma questo de sobrevivncia para ns dois A velha dupla contra o restante do mundo. E ento ns crescemos.
 Sim. Crescemos.
Ela desceu do banquinho e foi para o outro lado do balco. Muitas emoes a assolavam, lembranas de tempos passados. Aquilo tudo era perigoso.
 Sabia que Poppy teve um ataque do corao logo depois de sua partida?
Francine quase derrubou a garrafa trmica.
 O qu?
Travis terminou de comer a torta e colocou o prato de lado.
 Ficou no hospital por uma semana. Foi ento que eu comecei a tomar conta do trabalho em seus campos.
Francine sentiu como se seu mundo tivesse desabado. A realidade pareceu girar a seu redor. Poppy doente? No se lembrava de t-lo visto, um dia sequer, abatido.
Seu corao disparou ao imagin-lo em uma cama de hospital, sozinho, sem quaisquer familiares para o ajudar.
 Mas ele est bem agora?  perguntou ansiosamente.
 Aparentemente sim. No se preocupe, tenho certeza de que ele no tentar faz-la ficar usando a culpa como recurso.
Francine aprumou-se.
 Est tentando fazer com que eu sinta culpa ao partir?
Encheu a pia com gua e sabo e comeou a lavar a xcara.
 Foi por isto que me falou sobre o ataque do corao? Ou est tentando me manipular para que eu fique?
 No estou tentando fazer nem uma coisa, nem outra  respondeu Travis, a irritao fazendo seu tom de voz subir.  Eu apenas pensei que voc deveria saber que seu av no passou bem.
 Sinto muito que Poppy tenha ficado doente, mas a sade dele no vai me impedir de partir daqui e voltar para minha vida em Nova York.
Passou a enxugar a xcara.
 Poppy sobreviveu sem minha presena durante cinco anos e sobreviver quando eu for embora novamente.
Alm do mais, seu av parecia estar excepcionalmente bem, disse a si mesma.
 Certo. Que Deus ajude qualquer pessoa que se intrometer no caminho de Francine Webster e de seus sonhos de estrelato!
Subitamente todas as lembranas da camaradagem, da amizade antiga, do amor perdido, foram banidas pelo peso daquelas palavras e pela amargura da voz de Travis.
Francine voltou-se e fitou-o por instantes.
 Sabe o que acho, Travis? Acho que est com cime porque eu tive coragem de ir embora daqui cinco anos atrs e tentar conseguir uma vida melhor.
Toda mgoa que mantivera contida transformou-se na mais pura ira.
Ele se levantou, a expresso austera.
 E voc est brava porque no fui com voc. Porque pela primeira vez em nossas vidas, eu lhe disse no. Eu tinha uma me dependendo de mim e duas irms mais novas que necessitavam de minha presena aqui.
 Desculpas. Encare a verdade, Travis. Foi um covarde.
Francine percebeu o brilho de raiva naquele olhar, mas no se importava. Tivera cinco anos para ruminar o fato de que o antigo namorado no a amara o suficiente para acompanh-la.
 E voc teve medo de deixar este lugar, de soltar suas asas e voar. Pois eu voei... E quero continuar meu vo.
 Esta  a velha Francine de que eu me lembro  respondeu ao tirar a carteira do bolso e colocar alguns dlares sobre o balco.  Nunca se deixando deter, sempre desprezando aqueles que se importam com ela.
 Oh, por favor, diga-me novamente o quanto Poppy se importava comigo quando eu era jovem! Diga-me sobre todo o amor que ele demonstrou para mim atravs de seu silncio, suas regras to rgidas. Criar-me foi sua tarefa, uma tarefa que ele apenas tolerou, nada mais.
Pegou o prato de Travis e a xcara e colocou-os dentro da pia, ento virou-se.
 Vamos falar sobre o quanto voc se importou comigo. Enfrente os fatos, Travis. O que ns sentamos um pelo outro nada tinha a ver com amor. Eu precisava de algum que se importasse comigo e voc alimentou minha ira porque era covarde demais para sentir raiva por si mesmo.
  a segunda vez que voc me chama de covarde, Francine  avisou-a, os olhos se estreitando e a voz se tornando incrivelmente suave.  Sei quem eu sou. Conheo as opes e escolhas que fiz e sei que nada daquilo teve a ver com covardia.
Caminhou em direo  porta, os punhos cerrados. Ali chegando, virou-se, os olhos repletos de indignao.
 Acho que sua visita j est ficando longa demais, Francine.
Com tais palavras, o sino voltou a tocar pouco antes de a porta ser batida com fora.
Ela lutou contra o impulso de jogar o prato molhado na parede. Em vez disso, foi em direo  porta, virando o carto onde se lia "aberto" para "fechado" e trancou-se dentro do restaurante.
Caminhou de volta ao balco, a viso turvada pelas lgrimas. Piscou e mordeu os lbios. Nunca fora chorona, mas jamais teve tanta vontade de chorar como naquele momento.
Dissera coisas que no queria falar. Palavras cheias de mgoa, vocbulos detestveis que deixaram um gosto amargo em sua boca. Mas Travis respondera de tal modo que a fizera sentir-se egosta, insensata.
Como uma simples conversa sobre tortas de ma pudera sair tanto de seu controle? O que comeara como uma conversa agradvel sobre o passado, fora transformado em uma discusso sobre antigos rancores.
Terminou de lavar a loua e secou as mos. Mais uma vez sentou-se ao balco, muito aborrecida para ir diretamente para casa.
A informao sobre o ataque de corao de Poppy deixou-a arrepiada. O av sempre lhe pareceu ser to forte e indestrutvel. Ele costumava dizer que era teimoso demais para que o cu o quisesse e muito mal-humorado para que o inferno o desejasse por l.
Poppy estava bem atualmente, afirmou-se mais uma vez. No era como se o estivesse abandonando doente e indefeso. Aparentava estar to forte e capaz como sempre fora. No havia motivos para Francine mudar seus planos.
Sabia qual era a razo da conversa com Travis ter fugido ao controle. Era porque de alguma maneira, de algum jeito, a despeito de suas intenes em contrrio, ela se importava com o que o antigo namorado pensava a seu respeito.
E pela discusso que haviam acabado de travar, percebeu que no a julgava grande coisa.

Travis no se lembrava da ltima vez que estivera to bravo. Ento percebeu que jamais em sua vida ficara furioso assim antes.
Enquanto dirigia para casa, procurava respirar profundamente vrias vezes, tentando manter as emoes controladas.
Como Francine ainda era capaz de perturb-lo tanto? Por que se importava com o que ela pensava a seu respeito?
Um covarde. A palavra ecoava em seus ouvidos e o fazia apertar com fora o volante. Ela achava que fora covarde porque no a acompanhara na busca de seus sonhos. Os sonhos dela, no os seus.
Suspeitava atualmente que durante todas s vezes em que estiveram juntos, conversando sobre o que queriam, Francine jamais ouvira verdadeiramente quais eram seus sonhos.
Em um impulso, em vez de dirigir diretamente para casa, rumou em direo  residncia da irm. O marido dela trabalhava at tarde e no chegava em casa antes da meia-noite, por isso sabia que Susie estaria acordada esperando pela chegada do esposo.
Conforme esperava, assim que estacionou em frente ao lar acolhedor, situado em uma esquina, percebeu atravs de uma janela da sala de estar que as luzes se acendiam.
Desligou o motor, mas permaneceu sentado na caminhonete, tentando amansar a ira. Maldita Francine! Pela primeira vez em anos, viu-se questionando as decises que tomara tanto tempo atrs. Ficou pensando se, talvez, em sua deciso tivesse pesado uma centelha de covardia.
Tivera medo de deixar a cidade pequena? Ficara apavorado frente ao desconhecido?
Desceu do veculo e caminhou em direo  porta da frente. Antes que pudesse bater, Susie abriu-a com uma expresso de surpresa e satisfao no rosto.
 Travis, eu bem achei que fosse sua a caminhonete.
Deu um passo adiante e beijou-o no rosto.
 Entre. Est tudo bem?
 Tudo bem  garantiu-lhe.  Eu acabei de tomar uma xcara de caf e comer uma torta no restaurante e decidi, em um impulso, passar por aqui.
 Fico feliz que tenha vindo. Sabe que sempre adoro ver meu irmo favorito.
Sorriu e fez um gesto na direo da sala de estar.
 Eu deveria lembr-la de que  fcil ser o irmo favorito quando se  o nico?  Travis questionou secamente.
Susie riu enquanto se sentavam lado a lado no sof macio.
 Agora diga-me o motivo real de estar aqui.
Fitou-o analiticamente.
 O que quer dizer?
Ela sorriu, faceira.
 Travis, eu o amo, mas voc no pode me enganar. Algo o est aborrecendo. Posso ver em seus olhos.
Travis ajeitou-se bem contra o encosto e passou a mo pelos cabelos.
 Voc sabia que h cinco anos, quando Francine deixou a cidade, ela queria que eu a acompanhasse?
Mais uma vez Susie sorriu.
 Travis, havia pouco entre voc e Francine que Margaret e eu no sabamos.
Ela franziu a testa, pensativa.
 Ficamos apavoradas com a hiptese de voc acompanh-la.
Fitou-a, espantado.
 Mas nenhuma de vocs me disse uma palavra a esse respeito.
 No era nosso direito tentar tomar a deciso por voc. Mas rezvamos todas as noites para que Francine no o convencesse a ir.
Travis ficou completamente chocado com aquelas palavras. Jamais imaginou que as duas irms mais novas soubessem do que acontecia em sua vida, da encruzilhada em que se viu naquela poca.
 Por que no me disseram que sentiram medo? Por que no me pediram para no ir?
Susie apoiou a cabea em uma almofada do sof, os olhos pousados no rosto do irmo.
 Margaret quis. Tinha apenas onze anos e estava apavorada com o que poderia acontecer conosco. Mas eu lhe disse que voc tinha de tomar a deciso sozinho. No queria que se sentisse forado. Deixei que a escolha acontecesse por sua livre vontade. No gostaria que ficasse conosco movido apenas pelo dever. Queria que fosse por amor.
 Eu no tinha percebido como voc era esperta!  exclamou Travis, o corao pulsando de amor pela irm.
Ela sorriu.
 Eu nunca quis que voc lamentasse sua opo.
Hesitou por um momento.
 Voc lamenta?
Travis a abraou com fora.
 No. Eu me arrependi de muitas coisas, mas ficar aqui e permanecer na vida de vocs nunca foi uma delas.
 Voc era nossa ncora, Travis  disse Susie quando o irmo a soltou.  Papai havia falecido, ns sabamos que mame estava morrendo tambm. Voc fazia com que nos sentssemos seguras.
Fora esse o motivo de Travis ter ficado, pensou. As palavras da irm apenas confirmavam o que j sabia. No ficara porque era covarde.
Permanecera ali porque sua famlia precisou dele e Travis amava as irms e sabia ser tudo o que elas tinham. Sim, sentira o peso da responsabilidade, mas uma responsabilidade calcada no amor.
 Deve ter sido difcil para voc  comentou Susie.  Ter apenas quinze anos quando papai morreu, ento quando tinha vinte e dois ver-se o pai e a me de duas garotas mais jovens. Voc deixou muitas coisas de lado para estar presente para ns duas.
 No foi nada disso  protestou ele.
 Desistiu de jogos de futebol, de bailes, noites com seus amigos e todas as coisas que homens jovens fazem  comentou Susie.  Sei como os outros garotos o provocavam. Eu me lembro de como o chamavam de "garoto da mame" porque voc sempre tinha de apressar-se em voltar para casa, cuidar dela... e ento mais tarde, cuidar de ns.
 No foi algo to grande assim  ponderou.
E observado sob a distncia dos anos, no era mesmo, embora no tempo em que acontecera, ele tivesse sentido muita mgoa.
  melhor eu sair daqui  disse Travis, o corao mais leve do que quando chegou.  J est ficando tarde e seu marido chegar a qualquer momento.
Ficou em p e Susie fez o mesmo, seguindo-o at a porta.
 Travis, eu tenho uma pequena novidade para lhe dizer antes que v embora.
 O que ?
 Voc vai ser titio.
Encarou-a, estupefato. Ento, sentindo uma alegria indizvel, tomou-a nos braos e a apertou em um abrao.
 Quando? Susie riu.
 Ir demorar um pouco, ainda, estou com apenas oito semanas de gravidez. Se for uma menina, iremos lhe dar o nome de Mary Elizabeth... Em homenagem a mame. Se for um garoto, queremos que se chame Richard Travis em sua homenagem.
Travis sentiu como se seu corao fosse explodir. Ficou sem ar. Tocou o rosto da irm com suavidade, ento virou-se e deu mais um passo em direo  porta, emocionado demais para dizer qualquer coisa.
Minutos mais tarde, enquanto dirigia para casa, seu corao ainda palpitava com a novidade da gravidez de Susie e com o fato de eles quererem que o nome do menino fosse o seu.
Se teve qualquer dvida quanto  deciso que tomou anos atrs, as novidades haviam banido todas. Isso era a vida: famlia, amor, nascimentos.
Nascimento. Era-lhe estranho que sua irm fosse ter um filho antes dele. Travis tinha vinte e quatro anos e o tempo corria. Se no tivesse seus prprios filhos, iria ter apenas a alegria de ver os sobrinhos crescerem. E ter uma famlia fora seu sonho, o nico que partilhara com Francine, aquele que suspeitara que ela no ouvira ou no desejara ouvir.
Parou em frente  sua casa, bem mais tranqilo quanto  ex-namorada. No era culpa dela que os sonhos dos dois tivessem levado cada um a direes diferentes. Nem dele tambm.
Era uma vergonha terem passado o tempo juntos naquela noite culpando um ao outro por assuntos do passado, coisas impossveis de serem alteradas.
Enfrentou o fato de que seu corao sempre pertenceria a Francine. E ela j o levara consigo uma vez.
Tudo havia comeado naquela primeira noite quando tinha onze anos de idade e Frannie dez, quando a viu escapulir pela janela do quarto.
Desceu da caminhonete e ficou parado na varanda, o olhar pousado na casa vizinha. O carro de Francine estava estacionado no lugar de costume, permitindo-lhe saber que ela chegara do restaurante em segurana. Seu olhar se moveu para a janela do segundo andar, onde sabia situar-se o quarto dela.
Sim, aquela garota sempre teria um pedao de seu corao. Mas era hora de ele finalmente se mover, esquecer-se de Francine Webster, das doces lembranas e dos sonhos do que poderia ter sido a vida deles.
Era hora de ser mais ativo para tornar seus prprios sonhos realidade. Tudo que lhe restava fazer era descobrir exatamente por onde comear.

 
CAPTULO VI

Cedo ou tarde Francine teria de pedir desculpas a Travis.
As palavras duras que dissera a assombraram durante todo o dia seguinte  discusso. S descansaria quando lhe dissesse que sentia muito. Jamais foi capaz de suportar saber que Travis estava bravo com ela.
Ele no apareceu depois do jantar, como se tornara seu hbito e Francine ficou surpresa em perceber o quanto sentiu sua falta.
Ansiava por ouvir os tons profundos de sua conversa com Poppy na varanda enquanto lavava a loua. Lamentava a ausncia das gargalhadas de sua filha, o que Travis sempre conseguia provocar com tanta facilidade.
Quando o av se retirou para o quarto e Gretchen adormeceu, Francine sentou-se  janela de seu quarto, observando a casa vizinha. A luz acesa na sala de estar indicava que Travis ainda no havia ido para a cama.
No tivera a inteno de cham-lo de covarde. Sabia, em seu corao, que no fora a covardia, a responsvel por ele no ter ido para Nova York.
Mas era mais fcil acreditar que o medo do desconhecido o mantivera na cidade pequena do que assumir o motivo real. Aceitar que ele simplesmente no a amara o bastante.
Mesmo atualmente, depois de tanto tempo, o pensamento lhe causava uma dor muito forte no corao.
Por que as duas pessoas que mais lhe importavam na vida no haviam sido capazes de lhe proporcionar amor suficiente? Primeiro Poppy, ento Travis... Nenhum fora capaz de demonstrar o amor incondicional de que desesperadamente precisara.
Durante muito tempo ficara brava quanto a isso. Estranhava atualmente no sentir raiva, apenas uma profunda tristeza. Afinal de contas, no tinha o direito de se enfurecer com os dois, eles no podiam comandar emoes que no sentiam.
Mesmo assim, Frannie no queria que Travis sentisse o peso das palavras amargas que dissera. Deveria ir at sua casa, desculpar-se e propor uma trgua para o perodo que ainda ficaria em Cooperville.
Ao considerar essa hiptese de ao, a luz da sala de estar foi apagada. Tarde demais para tentar uma aproximao naquela noite, percebeu decepcionada.
Ficou observando a casa s escuras durante longos minutos, sabendo que deveria ir para a cama e dormir, mas seu corao estava pesado demais para lhe permitir algum descanso.
No queria que Travis evitasse passar por ali por causa da discusso que haviam tido. No era justo punir Poppy e Gretchen pelo seu descontrole.
Suspirou, o olhar migrando da casa de Travis para a lua cheia acima. Parecia um rosto enorme e sorridente. Ou um farol distante. Subitamente ela lembrou-se do sonho que teve na noite anterior.
Estivera em uma apresentao e quando as cortinas caram, a multido comeara a gritar: Frannie, Frannie, Frannie.
Ela retornara ao palco, estendo a mo em direo  audincia como para abraar a todos. Sentira o amor daquelas pessoas aquecendo-a, preenchendo os espaos vazios de seu corao.
Quanto acordou, um sorriso ainda curvava seus lbios e uma determinao renovada a tomou. Determinao de voltar a Nova York para alcanar suas metas.
Olhou mais uma vez para a casa de Travis, percebendo uma luz acesa em seu quarto. Obviamente estava indo para a cama. Tentou amenizar a necessidade de lhe pedir desculpas, percebendo que deveria dormir tambm. Iria trabalhar na manh seguinte e j se aproximava da meia-noite.
Comeou a se virar da janela, mas hesitou quando outro pensamento lhe passou pela mente.
Havia funcionado muitos anos atrs. Ainda funcionaria? Pegou a lanterna da gaveta da cmoda e retornou  janela.
Lembranas a assolaram, memrias de centenas de noites de seu passado, quando sinalizara para Travis com a lanterna uma mensagem para que fossem se encontrar nos campos de milho nas proximidades.
Conforme observava, a luz do quarto dele se apagou, deixando a casa em total escurido. Se Travis fosse diretamente para a cama, no veria seu sinal. Se, por algum motivo, olhasse para fora da janela, veria. Mas ser que iria at o milharal?
Apontou a lanterna para a casa, ento ligou e desligou duas vezes. Dois rpidos lampejos. Aquele era o cdigo para que se encontrassem. Aguardou alguns instantes, ento voltou a sinalizar.
Provavelmente j foi para a cama, pensou, o corao pesaroso de decepo. Por que ele estaria olhando janela afora naquela hora da noite, afinal?
Seu corao se expandiu quando uma luz brilhou  janela. Dois brilhos breves em resposta ao seu. Pousou a lanterna na cmoda, o corao subitamente disparando de antecipao.
Nem mesmo considerou a hiptese de descer a escada e sair pela porta da frente. Velhos hbitos profundamente arraigados ditaram suas aes quando ergueu o vidro e silenciosamente afastou a tela,
Esgueirar-se janela afora marcara seu jeito de ir encontrar-se com Travis. Toda a excitao que costumara sentir ante a expectativa de v-lo retornou enquanto Francine descia pelas madeiras salientes.
Felizmente Poppy no resolvera plantar rosas ali. Caso contrrio, a descida seria um completo desastre.
Anos de experincia retornaram conforme ela se esforava para chegar ao cho. E pela primeira vez em meses... anos... seu corao tornou-se jovem novamente, livre. Principalmente quando ela tocou o cho e correu em direo ao milharal que lhe acenava ao sabor do vento.
Sempre se encontravam na mesma fileira, no mesmo lugar e quando a alcanou, deteve-se, tentando controlar a respirao ao aguardar por Travis.
A lua iluminava plenamente os campos, tingindo tudo de prateado. Francine respirou profundamente, ponderando o motivo de seu corao continuar a bater com tamanha selvageria.
Aquele encontro no era como os do passado, quando ela e Travis mal podiam esperar para se jogar nos braos um do outro. Naquela poca, o milharal fora o nico lugar para onde podiam ir para escapar das irms mais novas de seu amado.
E bem tarde da noite era o nico horrio em que Travis no estava trabalhando nos campos, cortando madeira ou ocupado tentando manter a fazenda da famlia em ordem.
Sentou no cho, o cheiro rico da terra a rodeava por completo. Estava ali para dizer a Travis que sentia muito pelas palavras detestveis que dissera. Para impor uma trgua entre os dois. Aquilo era tudo.
Ouviu seus passos antes de v-lo. Escutou o barulho dos ps de milho sendo afastados conforme ele se movia. Ficou em p, seu corao batendo fortemente, embora no pudesse entender o motivo.
Travis surgiu. Usava apenas cala jeans e sapatos. Seus cabelos brilhavam devido  umidade e ela podia sentir o cheiro do sabonete de menta, uma pista de que aparentemente acabara de sair do chuveiro.
Francine sorriu, tentando suavizar o cumprimento.
 Eu no tinha certeza se voc viria.
 Estou aqui.
Ele colocou as mos nos bolsos e deu de ombros.
 Eu tinha acabado de tomar banho e me aprontava para ir para a cama quando vi as luzes. Est tudo bem?
 timo.
Francine mordeu o lbio inferior e franziu a testa.
 Na verdade, no est bem, Travis. Eu disse coisas detestveis para voc na noite passada no restaurante e queria lhe dizer que sinto muito.
 Ns dois estamos meio abalados emocionalmente.
 Sim, mas voc me conhece... Eu tenho tendncia a ofender as pessoas quando estou com raiva.
Ele sorriu, os olhos escuros brilhando ao sabor do luar.
 Eu no a reconheceria se agisse de outra maneira.
Francine retribuiu o sorriso, o aperto em seu peito suavizando ao perceber que fora perdoada.
 Sentimos sua falta hoje aps o jantar.
 Fui at a cidade visitar Susie e seu marido. Ela est grvida, por isto fizemos uma pequena celebrao.
 Oh, isto  maravilhoso!  exclamou Francine.  Voc deve estar felicssimo.
 Estou.
Mais uma vez Travis sorriu, fazendo com que um calor intenso passasse pelo corpo de Francine. Aquele sorriso sempre teve o poder de causar tal efeito.
 Se for um menino, iro dar-lhe o meu nome.  uma homenagem que Susie quer me fazer.
 Oh, Travis, estou muito feliz por voc!
Francine procurou ignorar o impulso de se jogar em seus braos para cumpriment-lo. Em algum lugar, em um recanto escondido de sua mente, sabia que se o tocasse de alguma maneira, estaria em terreno perigoso.
 Ainda outro dia Poppy mencionou que voc deveria ter uma casa cheia de crianas suas.
O sorriso desapareceu do rosto de Travis e seus olhos brilharam intensamente ao fit-la.
 Eu sempre achei que fosse ser assim. Que voc seria a me dos meus filhos.
Por um momento suas palavras pareceram pairar no ar de forma assustadora. O peito nu de Travis brilhava ao luar, parecendo estar quente e firme. Francine podia se lembrar da sensao de ter aqueles msculos sob seus dedos.
 Eu sempre lhe disse quais eram meus sonhos  murmurou ela com suavidade.
Rompeu o olhar e observou, sonhadora, a lua.
 Voc sempre soube que era importante para mim  completou.
 Sim, mas eu sempre achei que fosse apenas conversa de juventude. Voc sabe, como garotinhas que sonham em ser bailarinas ou meninos querendo ser bombeiros. Voc queria ser uma estrela.
Francine abraou o prprio corpo, querendo mudar de assunto, sabendo que as conversas sempre terminavam em discusso quando falavam sobre sonhos e passado.
 Quando Susie ter a criana?
 No final de maro.
Mais uma vez ele colocou as mos nos bolsos, a cala descendo um pouco na altura da cintura para mostrar um pouco mais dos quadris bem-feitos.
 Ser bom ter um beb na famlia. Susie diz que quer ter quatro ou cinco filhos.
 E quanto a Margaret? Ela quer ter muitas crianas tambm?
 Provavelmente. Neste exato momento est concentrada em obter seu diploma. Mas sempre disse querer ter uma famlia grande.
 Voc ainda tem seu violo?
 Claro, s que faz bastante tempo que no o toco.
 Eu adorava ouvir voc tocar e cantar.
Francine se lembrou do som, suave e profundo, de sua voz. At mesmo Poppy, vez ou outra, se juntava aos dois na varanda nas noites em que Travis levava seu violo e cantava velhas baladas.
 Voc era to bom quanto quaisquer dos cantores de sucesso da atualidade.
 A diferena, Francine,  que eu nunca quis ser um artista. Tudo que eu desejei foi um dia ser capaz de cantar canes de ninar para meus filhos.
Francine sentiu uma dor no peito ao pensar em Travis com Gretchen nos braos a entoar doces melodias.
Se ela tivesse permanecido em Cooperville, ser que as coisas teriam acontecido dessa maneira? Teriam construdo uma vida juntos?
No tinha certeza. Ambos eram to jovens e Travis assoberbado pela responsabilidade de cuidar da me doente e das irms mais novas. No houvera espao em sua vida para uma jovem noiva e um beb.
No, fizera a coisa certa ao partir e no lhe contar sobre Gretchen. Ele tivera muitas preocupaes naquela poca. E atualmente j era tarde demais.
  melhor eu voltar  disse ela.  Eu achei importante que declarssemos uma trgua durante o restante do tempo em que eu estiver aqui.
 Haver um carnaval na cidade este final de semana. Por que no vamos todos juntos e passamos o sbado nos divertindo? Gretchen poderia ganhar uma bola.
Francine hesitou.
 Est bem  finalmente disse, a despeito de seus temores em passar um dia todo ao lado de Travis.  Betty falou alguma coisa a respeito. Disse que provavelmente o movimento no restaurante seria menor, j que todos estariam no carnaval, ento ela me deu um dia de folga. Em que horrio nos encontraremos?
 Pegarei vocs por volta das onze horas.
 Estaremos prontos.
Francine comeou a andar, mas se deteve quando Travis pousou uma mo em seu brao. Virou-se para fit-lo e instantaneamente soube que corriam perigo.
Os olhos escuros brilhavam com uma emoo que ela reconheceu, porque sentia a mesma coisa. Desejo. A sensao a tomou pura e simplesmente quando Travis a abraou.
Sua boca clamou pela dela e Francine percebeu que fora a antecipao por esse acontecimento que fizera seu corao disparar no momento em que se lanara janela afora.
Quentes e ansiosos, os lbios de Travis a seduziam e ela nem mesmo conseguia pensar em fazer objees. Em vez disso, abriu a boca, permitindo que o beijo prosseguisse enquanto o acariciava, ansiosa, louca por sentir os msculos fortes de seu peito.
A pele de Travis era exatamente como ela se lembrava: quente a seu toque, suave, cobrindo a musculatura firme.
Francine sabia que no deviam estar fazendo aquilo, mas no queria parar. Sabia que quando retornasse a Nova York, sozinha e triste, seria a lembrana dos beijos de Travis que a sustentaria.
Conforme o carinho se aprofundava, ele a puxava com mais fora de encontro  fortaleza de seu corpo, a mo se insinuando sob a blusa que cobria o suti de renda. Francine podia sentir o calor daquela palma, perceber que provocava o bico de seu seio que se enrijecia em resposta.
Parecia que nas veias dela corria puro fogo. Sentia-se prestes a explodir. Escorregou as mos para sentir o poder daquelas costas largas, lembrando-se da sensao da pele quente quando repetiram a experincia anos atrs.
Travis finalmente interrompeu o beijo. A respirao dos dois estava entrecortada. Francine gemeu baixinho ao sentir os lbios quentes beijarem seu pescoo. Com surpreendente agilidade os dedos de Travis abriram os botes de sua blusa e ento soltaram o fecho do suti.
Um prazer puro, indescritvel, dominou-a por completo. Percebia que seu suti era afastado e os seus seios cobertos por mos enormes. Travis baixou a cabea e tocou o bico trgido com a lngua, deixando-a sem ar ante a nova intimidade. Seus joelhos ameaaram falhar.
Travis ergueu a cabea, para logo em seguida seus lbios voltarem a selar os de Francine. Faminto, premia os quadris de encontro aos dela, permitindo que notasse a intensidade de sua excitao.
 Frannie...  sussurrou a seu ouvido, a respirao quente lhe causando um arrepio.  Venha para casa comigo. Venha para casa comigo e deixe-me am-la.
Aquelas palavras fizeram aflorar recordaes daquela nica noite em que se entregou completamente a Travis. Lembrou-se de como as batidas dos seus coraes ecoaram em unssono na noite silenciosa enquanto faziam amor pela primeira vez.
Queria-o novamente, sentia at dor tal a intensidade do desejo. Mas sabia que seria uma tola se permitisse que aquilo fosse adiante. Pela primeira vez desde que se tocaram, deu-se conta da existncia de uma batalha de sobrevivncia entre o desejo e o bom senso.
 Travis...
Empurrou-o e deu um passo para se afastar, as pernas ameaando no sustentar o peso de seu corpo.
 Isto  loucura  sussurrou, espantada por sua voz estar to fraca.
No conseguiu encar-lo. Procurou focar a ateno em vestir o suti e abotoar a blusa.
 Sinto muito, eu no deveria ter deixado as coisas irem to longe quanto foram  disse Francine.
Travis suspirou profundamente.
 Voc no estava exatamente sozinha. E tem razo. Estivemos prestes a cometer um erro maior.
Francine sabia que ter interrompido o encontro amoroso fora correto. Mesmo assim, decepcionou-se ao ouvir aquelas palavras. Era irracional, mas no queria que ele sentisse as coisas daquela maneira.
 Voltarei a Nova York em algumas semanas. Fazermos amor em nada ajudaria.
 Tem razo  concordou e ento sorriu fracamente.  Mas aliviaria meu desejo. No vou mentir para voc, Francine. Eu a desejo. Ns nos demos bem antes e apenas achei que poderia ser bom repetirmos a experincia.
Suas palavras causaram uma dor intensa no peito de Francine. O que ela sentira quando fora abraada e beijada instantes atrs nada tivera a ver com algo meramente bom. Para ela, no fora apenas a vontade de duplicar momentos agradveis. Fora algo mais profundo, mais importante.
Mas novamente as palavras de Travis a fizeram lembrar-se do motivo de ter partido. Ele jamais a amou o suficiente. E nada havia mudado com o passar dos anos.
 Preciso voltar. No quero que Gretchen acorde e no me encontre por perto.
 Eu a verei na manh de sbado.
Ela assentiu e virou-se para partir. Dessa vez no foi detida. Caminhou em direo  casa, o corpo reclamando pelo desejo no satisfeito e o corao magoado em saber que no fora o amor o grande responsvel por aqueles beijos e carinhos. Fora apenas luxria, a lembrana de uma boa experincia sexual.
Desejo certamente fazia parte do que ela sentia, mas no era tudo. Sabia que se fizesse amor com Travis novamente, poderia no querer mais deixar Cooperville.
Mas nada havia para ela ali. Poppy, como sempre, mal a tolerava. Suas colegas sempre zombaram dela. E embora acreditasse que Travis um dia se importara com seu bem-estar profundamente e talvez ainda lhe desejasse bem, era bvio que no a amara o suficiente para lhe pedir que ficasse. No no passado. E no no presente.
Tinha de partir, retornar a Nova York e tentar alcanar seus sonhos. Porque profundamente em seu corao, sabia que, sem seus sonhos, pouco tinha.
Travis a observou ir. Aproximou-se da casa de Poppy para v-la subir pela madeira e retornar ao seu quarto. Muito tempo depois de Frannie ter desaparecido e a luz sido apagada, Travis ainda estava no milharal.
Queria poder detest-la, tentara durante os ltimos cinco anos. Mas dio no era uma emoo que lhe vinha com facilidade, especialmente quando a pessoa em questo era Frannie.
Se acreditasse que fazer amor com ela a faria ficar, teria seduzido-a durante todos os momentos de cada dia. Poderia t-la envolvido com seus carinhos antes, se soubesse que, caso pressionasse apenas um pouco mais, poderia faz-la esquecer de protestar.
Francine o desejava. Percebeu isso atravs de sua respirao entrecortada, da maneira com que pressionara o corpo sinuoso contra o seu, do calor daquele corpo. Percebera seu desejo na suavidade dos beijos e nos dedos que tatearam seu peito e costas.
Sim, poderia seduzi-la, mas achava que aquilo no mudaria seus planos. Os sonhos de Francine. Afinal, fora essa crena equivocada que tivera anos atrs.
Tivera certeza de que se fizessem amor, ela jamais seria capaz de abandon-lo. E como estivera errado.
Travis sabia que a havia magoado com suas palavras sobre a vontade de repetir a agradvel experincia. O comentrio soou frio, sem emoo, mas tivera de salvar um pouco de seu orgulho.
No conseguia odi-la, por mais que desejasse. Seria uma emoo muito simples comparada ao que sentia por ela naquele momento.
Teria sido muito mais fcil lidar com o dio do que saber que a amava... e jamais poderia t-la.

 
CAPTULO VII

Amanh de sbado mostrou-se brilhante e bonita, um dia perfeito para o carnaval. Francine acordou mais cedo do que o usual, surpresa por estar desperta antes de Poppy. Fez caf e levou uma xcara para a varanda.
O restante do que faltava do sol fez-se ver no leste, o cu muito lmpido e coalhado de pssaros.
Francine bebeu seu caf vagarosamente, permitindo que a cadeira de balano se movesse gentilmente para frente e para trs. Deveria estar feliz. Quase tinha dinheiro suficiente para ela e Gretchen retornarem para Nova York.
Imaginava que mais uma semana, duas no mximo, e estariam a caminho. Devia sentir-se em xtase, mas no estava. As ltimas semanas haviam sido relativamente felizes, mais do que sonhou ser possvel.
Ela e Poppy, embora no demonstrassem muito calor um com o outro, pareciam ter estabelecido algumas regras de bom comportamento. Francine aprendera a esperar muito pouco do av e como resultado no estava desapontada.
Gretchen ajudou, preenchendo todos os silncios que poderiam gerar rancores entre os dois. A menina proporcionava riso onde nada antes existira.
Francine ficou to surpresa na primeira vez em que ouviu o riso de Poppy que quase caiu da cadeira. Embora rouco e breve, no fora um som desagradvel e lhe dera satisfao. Sentiu como se tivesse acabado de receber um presente inesperado.
Mais uma vez viu-se ponderando o motivo de Gretchen ser capaz de alcanar o corao de Poppy com tamanha facilidade, enquanto ela passara a vida toda tentando obter um pequeno sorriso, uma nica palavra gentil, do homem que a criou.
Era uma coisa que sempre permaneceria um mistrio para Francine. Assim como o mistrio de Travis ainda desej-la, querer fazer amor, mas no estar apaixonado por ela.
Afastou os pensamentos, determinada a apreciar o dia sem arrependimentos, sem perguntas perturbadoras sobre o futuro a atorment-la.
Estava cansada de mergulhar no passado. Sua infncia fora pior do que a de alguns, melhor do que de outros. Fora vestida e alimentada, morara em um lugar quente e seguro. Algumas crianas no tiveram tanto assim.
E quanto a Travis, ela tivera uma noite de indizvel amor, de entrega de corpo e alma, coisa que algumas mulheres jamais haviam tido, jamais viriam a experimentar em suas vidas.
Estava cansada de ficar brava e magoada sobre o passado e decidiu, em vez disso, contar as bnos que tivera.
Era um lindo dia e ela o iria passar ao lado de um homem atraente e de sua preciosa filha. O que mais poderia querer?
Virou-se quando a porta foi aberta e Poppy surgiu na varanda com uma xcara de caf na mo.
 Acordou cedo  murmurou o av ao acomodar-se em uma enorme cadeira.
 Est fazendo uma manh linda demais para se ficar na cama  respondeu-lhe.
 Humm, parece-se com centenas de outras manhs para mim  murmurou Poppy, com seu toque usual de mau humor.
Francine o ignorou, recusando-se a permitir que sua rudeza estragasse o prazer que sentia ao vislumbrar uma manh to magnfica. Durante alguns minutos beberam caf em silncio.
Mas Francine no estava magoada. Percebera durante as ltimas semanas que Poppy era um homem de poucas palavras. Falava quando tinha algo a dizer, mas raramente preenchia o silncio com conversas de sentido meramente social.
 Poppy, Travis me falou que o senhor teve um ataque do corao depois que eu parti  murmurou, quebrando o silncio ao lembrar-se das palavras do vizinho.
Ele franziu a testa.
 Aquele homem devia cuidar de seus prprios negcios e no ficar falando sobre mim.
 Por que no me escreveu? Tinha meu endereo. Por que no deixou que eu soubesse que estava doente?
Poppy a fitou, os olhos de um plido azul, mas ainda rspidos como sempre.
 O que voc teria feito? Pelo que soube, no tirou diploma na universidade de medicina.
Francine mordeu a lngua por um momento.
 Alm do mais  continuou ele  no foi algo muito ruim. Eu j estava recuperado em pouco tempo.
Queria lhe dizer que o av deveria ter lhe escrito porque ela se importava com o que lhe acontecia. Devia t-la deixado saber por que, a despeito do fato de ele ter deixado claro que jamais a considerou algo alm de um fardo, ela o amava. Ainda o amava. A constatao a surpreendeu.
Por um momento no conseguiu falar, atnita demais com a realidade do amor que sentia pelo av rabugento. Era o nico parente que tinha, o pai e a me que havia perdido.
Poppy e Gretchen somavam a totalidade de sua famlia e ela percebeu que o passado devia ser superado. Afinal, havia um lao a uni-los, algo a ser preservado e fortificado.
 Travis e eu vamos levar Gretchen para a cidade esta manh. H uma festa de carnaval no campo atrs da quitanda. Gostaria de nos acompanhar?
Era o melhor que podia fazer, o mximo que suportaria. No diria que o amava, recusava-se dar-lhe o poder de mago-la. Mas poderia lhe oferecer algo na forma do convite para se juntar a eles durante o dia.
 Carnaval? Um bando de tolos fazendo coisas sem sentido  murmurou com uma carranca.
Francine franziu a testa. Deveria ter imaginado qual seria a resposta.
 Acho melhor eu ir com vocs, assim aqueles exploradores no tiraro cada centavo do que tm  continuou, entretanto.  Alm do mais, a menina provavelmente ir querer que eu cavalgue a seu lado.
Francine ficou muito contente. Novamente pensou por que ele era capaz de dar a Gretchen o que jamais fora capaz de lhe oferecer. Mesmo assim, procurou alegrar-se. Aquele seria um dia memorvel. Um dia com Travis, Poppy e Gretchen...
Um dia em famlia que ela guardaria em um lugar especial de seu corao eternamente. Mesmo aps sua partida de Cooperville, quando deixariam Travis e Poppy para trs.
Muitas horas mais tarde, todos estavam na caminhonete de Travis a caminho da cidade. Gretchen tagarelava loucamente, excitada pela nova aventura que a aguardava. Nunca estivera em uma festa de carnaval antes e achava tudo aquilo muito emocionante.
Poppy estava sentado a seu lado, murmurando respostas a todas suas perguntas.
 Eu sei como  um carrossel!  exclamou a pequena orgulhosamente.  Andamos em um no ano passado no Central Park, no  mesmo, mame?
 Sim, querida, andamos.
 Poppy, voc ir no carrossel comigo, no ir?  perguntou Gretchen.  Ns encontraremos para voc um cavalo muito lindo, com uma cauda azul bem grande para combinar com seus olhos.
Poppy deu um meio sorriso e respondeu:
 Ento teremos de encontrar um cavalo bem tagarela para voc montar  respondeu por fim, fazendo a menina rir.
Poppy e Gretchen conversavam no banco de trs. Francine pousou a cabea no encosto, pensando se um dia poderia ser mais perfeito do que aquele.
Travis a cumprimentara com um sorriso, revelando sua capacidade em anular a intimidade partilhada no milharal para simplesmente apreciarem o dia.
E como o dia estava lindo. Uma brisa leve anulava o calor de final de agosto, tornando o clima ameno.
Ela deu um olhar de soslaio para Travis. Parecia relaxado e feliz, como se no aguardo de um dia muito agradvel.
Francine abraou o prprio corpo, desejando reter aquele momento em seu corao para sempre.
Quando entraram na rua principal, as luzes e os sons do carnaval se fizeram presentes. Atrs da quitanda estavam as barracas. O ar recendia a pipoca fresca, cachorros-quentes e algodo-doce.
 Oh, ser muito divertido mesmo! exclamou Gretchen conforme caminhavam do estacionamento em direo  entrada da festa.
  melhor voc segurar minha mo para no se perder  Poppy lhe disse.
Gretchen obedeceu e a viso do bisav e da menina, de mos dadas, levou lgrimas aos olhos de Francine.
 Mame, voc tem de segurar na mo de Travis para no se perder.
 Oh, no...  comeou a protestar.
 Acho esplndida sua idia!  interveio Travis.  Esta estratgia  muito inteligente.
A mo enorme envolveu a de Francine. Embora fosse maior, mais forte, era como se as duas tivessem nascido para ficarem entrelaadas.
Gretchen e Poppy seguiam adiante. Travis e Francine os seguiam olhando para todos os lados, observando as tendas oferecendo jogos de habilidades, carrossel para crianas e outras atraes para adultos.
Francine olhou para Travis, admirando seu belo perfil. Usava jeans e uma camiseta esporte de manga curta azul-clara que lhe permitia contraste perfeito contra os cabelos e olhos escuros. Parecia muito confiante, um fazendeiro de sucesso em um dia de lazer.
Conforme caminhavam, encontravam pessoas conhecidas, paravam para conversar com um e outro. Pela primeira vez Francine percebeu a sensao de comunidade, de benevolente calor, que parecia inerente a uma cidade pequena.
As crianas que haviam sido cruis com ela durante o ginsio tinham crescido, amadurecido e a cumprimentavam com genuna cordialidade, como se os anos anteriores jamais tivessem acontecido.
Francine viu-se deliciada e confusa com o calor humano demonstrado por eles. Seria porque todos pensavam estar diante de uma grande estrela de cinema que voltava para casa para breves frias? Ou seria simplesmente porque a juventude havia ido embora, e com isso a intolerncia tola e infantil e os preconceitos deixaram de parecer importantes? Quando Poppy e Gretchen foram para o carrossel, ela mencionou seus pensamentos a Travis.
 Fui eu quem mudou ou foram os outros?  perguntou-lhe. Travis lhe sorriu e acenou para Gretchen e Poppy conforme o carrossel girava.
 Talvez uma combinao das duas coisas  respondeu.  Acho que ns compramos um pouco desta briga. ramos to unidos que havia pouco espao para qualquer outra pessoa. Com freqncia eu fiquei pensando se no afastamos, sem inteno, os outros e ento ficamos bravos por eles no terem se aproximado.
 Talvez tenha razo  concordou pensativamente.  Parte de mim queria outros amigos, mas uma poro mais forte queria apenas voc. Eu tinha medo que outras pessoas pudessem estragar o que tnhamos.
Ele assentiu sorrindo.
 Ns demos um jeito de fazer tudo sozinhos, no foi mesmo?
Qualquer outra coisa que pudessem dizer um ao outro teria sido interrompida pelo retorno de Poppy e Gretchen.
 Vamos a outro brinquedo!  exclamou a menina, bochechas rosadas de excitao.
 Sim, garota  disse Travis e a pegou nos braos.  E se eu tiver bastante sorte, talvez consiga ganhar um grande animal de pelcia para voc at o final do dia.
Francine lutou contra uma onda de culpa ao ver pai e filha juntos. Estaria fazendo a coisa certa? Seria correto manter segredo da paternidade de Gretchen? Afastou as dvidas, recusando-se a lidar com qualquer outra coisa naquele dia que no fosse riso e alegria.
Travis no se lembrava de quando se divertira tanto. Talvez nunca em sua vida um dia tivesse sido to apreciado e especial. Conforme iam de uma barraca para outra, observava Francine, lembrava-se de suas qualidades, daquilo que inicialmente o havia feito afeioar-se a ela.
Sempre fora um conjunto fascinante de contradies. Ofendia-se com facilidade, mas era rpida em perdoar. Forte mas vulnervel, orgulhosa mas carente.
Tinha um amor  vida que Travis invejava. Jogava-se a novas experincias como se cada qual fosse a ltima e inspirara nele uma paixo que jamais sentira por qualquer outra pessoa.
At mesmo Poppy parecia afrouxar suas defesas conforme o dia prosseguia, rindo com freqncia e se entregando s diverses. E, era claro, havia Gretchen, uma verso mais jovem da me, com os brilhantes olhos azuis e cabelos escuros.
Alguma coisa na garotinha tocava o corao de Travis. Talvez fosse sua suavidade to natural, a maneira como parecia encontrar algo positivo em tudo e em todos. Seria uma bno criar aquela menina, experimentar o mundo atravs de seus olhos.
No final da tarde, todos se sentaram a uma das mesas para jantar.
 Eu quero um chili dog e algodo-doce  falou Gretchen quando Travis indagou o que gostariam de comer.
 Filha, voc j comeu trs algodes-doces. Vamos esperar pelo menos uma hora para que coma outro.
 Se esperar, eu irei no gira-gira com voc e ento comeremos o algodo-doce juntos  falou Poppy.
 Era exatamente disto que eu precisava  Francine falou um momento mais tarde para Travis quando os dois foram at um balco comprar a refeio.  Uma garotinha super-ativa e um av rabugento, ambos cobertos com acar.
Travis riu.
 Poppy est sendo levado por sua filha.
Ela olhou de volta para a mesa, onde os dois estavam sentados lado a lado.
 Sim.
Travis observou algumas nuvens escurecendo o olhar de Francine e soube que ela pensava na prpria infncia com Poppy.
 Mais cedo ou mais tarde, Frannie, voc ter de deixar as coisas flurem  murmurou suavemente.
Fitou-o, surpresa.
 O que quer dizer?
Travis fez um gesto na direo dos dois. A cabea de Poppy e Gretchen estavam juntas. Sussurravam alguma coisa.
 Voc ter de encarar o fato de sua filha ter conseguido tocar o corao de Poppy de um modo como voc jamais conseguiu.
Soube ter dito em voz alta o que ela pensava ao ver o sorriso triste em seus lbios.
 Voc sempre teve o hbito irritante de ler meus pensamentos.
O sorriso de Francine desapareceu e ela olhou para trs.
 Inicialmente, fiquei preocupada que Poppy de alguma maneira conseguisse inibir a exuberncia natural de Gretchen. Mas parece que ela venceu.  surpreendente.
  uma garotinha muito especial.
Francine sorriu plenamente, o gesto iluminando seu rosto bonito.
 Sim, .  meu corao.
"E voc  o meu", pensou Travis. As palavras ameaaram sair de seus lbios mas foram detidas por um esforo consciente. Viviam em mundos diferentes, tinham sonhos distintos e nenhuma confisso de amor iria mudar aquele fato.
Travis no poderia impedi-la de lutar por seus sonhos. Jamais quis ser um empecilho na vida de Frannie. No compreendia os motivos que a haviam conduzido para longe de Cooperville, mas sabia no ser capaz de protelar os planos de Francine.
Momentos mais tarde, os dois retornavam  mesa, carregando bandejas com comida.
 Provavelmente iremos ficar doentes  observou ele ao passar os chili dogs, as batatas fritas e as sodas limonadas.
 Provavelmente menos doentes do que quando vocs dois devoraram aquela torta de ma anos atrs  respondeu Poppy, fazendo Francine e Travis fitarem-no, boquiabertos.  Ou talvez aps a aventura de se esconderem no celeiro para tentar enrolar um pouco do meu tabaco em jornal.
Francine comeou a tossir e Travis riu.
 Acho que nada lhe passava despercebido, Poppy!  exclamou.
Os olhos do senhor se iluminaram.
 Descobri que eu era duas vezes mais esperto do que vocs achavam que eu era. E ainda sou.
Todos riram e ento comeram, sentindo o sabor da felicidade.
J era final de noite quando ento rumaram para casa. Gretchen imediatamente se deitou e adormeceu no banco de trs, a cabea no colo do bisav e os braos em volta do dinossauro de pelcia roxo que Travis ganhara para ela ao jogar uma bola em garrafas de leite.
Poppy parecia exausto, a cabea apoiada no encosto e os olhos fechados.
Travis dirigia, o olhar se alternando entre a estrada e Frannie. Embora o vestido de vero dela estivesse decorado com chili, os cabelos alvoroados e a maquiagem precisando ser refeita, estava adorvel.
Desejou que estivessem se dirigindo de volta  casa deles, onde Travis colocaria Gretchen na cama e ento tomaria Frannie nos braos e os dois fariam amor at que as primeiras luzes da manh se esgueirassem atravs das cortinas.
Queria tomar caf da manh com Gretchen a um lado e Francine do outro, a conversa delas permeando os cantos silenciosos de sua casa, preenchendo os espaos vazios de seu corao.
Franziu a testa, perturbado por desejos que jamais seriam concretizados. Obviamente, ele tinha um qu de masoquismo escondido em algum lugar do seu ser. Era a nica maneira de explicar o fato de conscientemente escolher passar o dia na companhia de Frannie, sabendo que jamais a teria para sempre a seu lado.
Talvez fosse hora de comear a namorar. As irms estavam crescidas e ele tinha tempo, embora pouca vontade. Durante os ltimos cinco anos, seu corao estivera lamentando a ausncia da garota que amara e perdera. Talvez fosse hora de deixar para trs as feridas causadas por Francine.
 Foi um belo dia, no foi?  ela perguntou quase afirmando, interrompendo seus pensamentos.
 Sim, foi.
 No me lembro da ltima vez em que me diverti tanto.
Travis a fitou.
 Certamente voc vivenciou dias que rivalizam com este na cidade grande.
Sabia haver um certo cinismo em sua voz, mas simplesmente no conseguia controlar.
Seus olhares se encontraram por um momento e ento ela virou-se e olhou pela janela de passageiro.
 A vida em Nova York no  to preenchida com diverso. Durante a maior parte do tempo trabalha-se para sobreviver.
Seu tom de voz era suave, como se relutasse em admitir o que acabara de dizer.
 Mas era o que voc queria  lembrou-a.
 Ainda   murmurou Frannie com determinao ferrenha.  Apenas quis dizer que os ltimos cinco anos no foram apenas diverso e jogos.
 Mas voc conseguiu um certo sucesso.
 Eu mal consegui me sustentar  respondeu-lhe. Olhou para o banco traseiro, aparentemente para se garantir de que Poppy e Gretchen haviam adormecido.
 Travis, vim para casa porque estava falida. No sabia mais o que fazer.
 Mas nos cartes postais que enviou para Poppy voc deixou claro que estava se dando muito bem. Participou de uma pea de teatro, teve aquele papel na novela.
Francine observou as prprias mos e entrelaou os dedos.
 Faz idia do quanto  caro viver em Nova York? No apenas eu tinha despesas de moradia mas tambm uma conta enorme no hospital devido ao parto de Gretchen.
 O pai dela no a ajudou financeiramente?
O pensamento de Francine e Gretchen desamparadas o assustou.
 Dois trabalhos como atriz em cinco anos no  exatamente a descrio do sucesso. Mas as coisas sero diferentes quando retornarmos. Gretchen ir para a escola, o que me dar mais tempo e oportunidade para me dedicar a minha carreira.
Travis notou que seu lbio inferior tremia, um gesto familiar que ele sempre associou  sua intensa teimosia.
 Eu serei feliz!  profetizou firmemente e ento acrescentou com suavidade:   que de vez em quando eu sinto que estou querendo alcanar as coisas rpido demais.
 Acho que o importante  que voc permanea com a ateno voltada em seus sonhos.
Era algo difcil para Travis dizer, encoraj-la a seguir seus sonhos que apenas a levariam para longe dele novamente.
Estacionou defronte  residncia dos Webster e desligou o motor. Virou-se e olhou para trs. Gretchen parecia um anjinho adormecido e Poppy um gnomo roncador.
 Eu carregarei Gretchen se voc cuidar de Poppy  ele disse, tentando retornar ao clima agradvel que marcara todo o dia at alguns momentos atrs.
 O que acha de eu carregar Gretchen e voc acordar Poppy?  sugeriu Francine com um sorriso tenso.
Mas Poppy acabou acordando sozinho e fitou-os.
 O que vocs dois esto olhando?  indagou-lhes.  Nunca viram um homem velho dormir antes?
Francine riu. Travis desceu do carro e abriu a porta para tirar Gretchen do colo de Poppy.
A garotinha se curvou contra o peito largo, o corpo quente e com cheiro de algodo-doce. Seus braos enlaaram o pescoo largo de Travis, um sinal inconsciente da confiana que ele lhe despertava. Sabia estar segura.
Quando Poppy desceu do carro, Francine adiantou-se e pegou o dinossauro de pelcia roxo do cho. Poppy destrancou a porta da frente da casa e acendeu a luz da sala de estar.
 Pronto, eu a pegarei  disse Francine, colocando o dinossauro sobre o sof e estendendo os braos na direo da filha.
 Eu estou com ela. Apenas me diga onde devo acomod-la  respondeu-lhe Travis, no querendo soltar a garotinha ainda.
Nunca antes experimentara a sensao de ter uma criana adormecida nos braos. Seu corao batia alegremente. Era bom observar a respirao de um ser to inocente, experimentar a confiana que lhe era depositada.
J tentara imaginar antes como seria ser pai, mas jamais sentira com a intensidade experimentada naquele momento.
Seguiu Francine para o andar de cima at seu quarto, onde uma caminha estava encostada  parede e uma cama de solteiro acomodada do lado oposto. Soube imediatamente qual era a de Gretchen, j que os lenis que a cobriam estavam decorados com ursinhos e patos.
Inclinou-se e a colocou na cama. A menina abriu os olhos e sorriu, um sorriso doce que rumou diretamente ao corao de Travis.
 Oi, tio Travis. Eu adormeci?
 Sim.
Ele tocou-lhe a ponta do nariz com o indicador.
 E agora voc pode voltar a dormir, porque j est em sua caminha.
Gretchen sentou-se com a testa franzida.
 Onde est meu dinossauro?
 No andar de baixo. Eu irei peg-lo  Francine disse, e desapareceu do quarto.
 O que acha de tirarmos seus sapatos e meias antes de voc dormir?  sugeriu Travis.
Gretchen assentiu. Enquanto ele observava, tirou os tnis e meias e ento deitou-se na caminha, bocejando profundamente.
 Ns nos divertimos hoje, no  mesmo?
 Com certeza sim.
Travis sentou-se  beirada da cama e afastou uma mecha de cabelos do rosto da menina.
 Poppy se divertiu tambm.
 Sim, acho que sim  concordou Travis.
 Adoro carnaval  disse ela, as plpebras muito pesadas devido ao sono.
 Eu tambm.
 E eu adoro algodo-doce.
A voz da menina j estava pastosa devido ao sono.
 Eu tambm  murmurou ele sorrindo.
 E eu amo voc.
Por um momento, Travis no pde responder. Era impossvel falar, com o corao lhe causando um n na garganta. Engoliu diversas vezes.
 E eu a amo  sussurrou para a criana adormecida.
Ficou em p quando Francine entrou no quarto carregando o animal de pelcia. Ela sorriu e balanou a cabea tristemente.
 Acho que demorei demais  disse a me.
Travis aproximou-se da porta e observou-a colocar o dinossauro prximo a Gretchen, ento ajeitar o lenol para cobrir a ambos. Deu um beijo na testa da criana e tocou levemente sua bochecha rosada.
Ela era uma boa me, pensou Travis ao seguir Francine escada abaixo momentos mais tarde. Apesar de no ter tido me durante a maior parte de sua vida, conseguira desenvolver instintos maternos sozinha.
 Acho que Poppy foi para a cama  comentou Francine ao chegarem  sala de estar vazia.  Isto costumava me deixar maluca. Ele nunca dizia boa-noite, apenas desaparecia em seu quarto.
Travis sorriu.
 Poppy viveu muito tempo sozinho antes de voc vir para c. E tambm nos ltimos cinco anos.
 Quer um pouco de caf?
 No,  melhor eu ir para casa. Tenho algumas tarefas para fazer antes de ir para a cama.
Fora um bom dia e o melhor de tudo tinha sido o comentrio doce de Gretchen ao dizer que o amava. No queria arriscar pr tudo a perder ao passar tempo demais sozinho com Francine. Poderiam voltar a discutir.
 Eu o acompanharei  disse ela.
Caminharam juntos para a noite. O ltimo raio de sol havia desaparecido dando lugar  plena escurido, como se as brilhantes cores tivessem sido assustadas pelas nuvens noturnas.
 Travis, obrigada pelo dia de hoje  disse quando se aproximaram da caminhonete.  Pressinto que Gretchen jamais esquecer sua primeira experincia em termos de carnaval.
 Tambm apreciei muito.
Ele abriu a porta e fitou-a com curiosidade.
 J decidiu quanto tempo mais ir ficar?
 Por qu?
 No se preocupe, este no  o comeo de uma conversa rude  garantiu-lhe.  Estou apenas curioso.
As rugas de preocupao sumiram e ela pareceu pensativa.
 Penso em mais uma semana ou no mximo dez dias. Gostaria de estar de volta  cidade na primeira semana de setembro, para que eu possa instalar Gretchen em uma boa escola.
Ele pensou na confisso de Francine durante o trajeto para casa, quando dissera que as coisas haviam sido um pouco mais difceis do que deixara transparecer nos cartes postais. O que realmente a tinha trazido de volta a Cooperville? Teria sido tambm a necessidade de sua filha e do av se conhecerem ou apenas uma questo de sobrevivncia?
 Quando voltar, se precisar de alguma coisa, voc sabe, alguma ajuda financeira para manter Gretchen na escola, ou apenas um par de sapatos ou coisas do gnero, voc me telefonar, est bem?
Travis no fazia idia do motivo da oferta ter surgido com tamanha facilidade, apenas no suportava pensar nas duas desamparadas e to longe de casa. Era claro, sabia que Francine jamais faria aquilo. Nunca deixaria o orgulho de lado para pedir qualquer coisa de que precisasse.
Os olhos dela se iluminaram com um brilho especial, como se a oferta a tivesse agradado.
 Obrigada  murmurou suavemente e pousou uma mo em seu brao.
Por um longo momento ficaram em p olhando um para o outro. Travis ficou pensando se ela fazia idia do quanto era amada. Poderia possivelmente ver aquilo em seus olhos, saber as emoes que sempre lhe havia inspirado?
De alguma maneira no achava provvel. Francine sempre fora muito boa em ver apenas aquilo que queria, o que precisava ver. O amor de Travis seria apenas um fardo para ela.
 At mais, ento  disse e entrou no carro.
Enquanto percorria a curta distncia at sua casa, Travis ficou pensando se Francine teria voltado para Cooperville se tivesse alcanado sucesso como planejara inicialmente. De alguma maneira decepcionava-o saber que fora a necessidade que a trouxera de volta, no o desejo.
Pensou em sua prpria deciso em comear a namorar, tal idia deixava-o apavorado. No podia se imaginar passando o tempo com outra mulher, beijando os lbios que no fossem os de Frannie, entretanto sabia que a menos que quisesse passar o restante de sua vida sozinho, era melhor vencer tal averso.
Precisava esquec-la.
Estacionou e um pensamento lhe ocorreu. Percebia que no era apenas de Francine que sentiria falta quando elas partissem. Gretchen conseguira ocupar um lugar em seu corao tambm.
Permaneceu no carro alguns momentos, pensando nos instantes em que tivera a garotinha junto de seu corao.
Trs palavras. Algo to simples.
"Eu amo voc."
Trs palavras com uma fora enorme, capazes de construir monumentos, destruir civilizaes e fazer um homem simples ter vontade de chorar.

 
CAPTULO VIII

Francine teve aquele sonho novamente. Mas dessa vez, com uma diferena perturbadora.
Como das outras vezes, estava no palco e a platia gritava seu nome vezes e vezes. Ela lhes fazia uma mesura, emocionada pelo amor que flua da platia para seu corao. Foi ento, bem nesse instante, que o sonho mudou.
O pblico havia desaparecido, nem mesmo o eco de seus gritos de adorao permanecera ali. As luzes a cegavam e o calor que emanava das lmpadas era intenso demais. Ela tentava desesperadamente ver por entre a escurido da platia vazia alguma coisa. Algum.
Mas no havia nada. Estivera sozinha o tempo todo.
Desesperadamente s.
 Frannie!
Uma voz profunda surgiu do meio da escurido.
 Frannie.
Uma voz doce e familiar que lhe dava apoio e conforto.
Acordara momentos antes, mas lembrava-se ainda de cada detalhe. Tentava ignorar as implicaes malucas daquele sonho.
No o queria examinar com muita profundidade porque a sensao de Travis chamando seu nome preenchia seu corao to completamente quanto a admirao de toda uma platia.
Virou para o lado e olhou para o relgio de cabeceira, espantando-se ao descobrir que j eram quase dez horas. Dormira demais.
No havia nada que detestasse mais do que desperdiar uma manh dormindo, especialmente uma das raras em que no teria de estar no restaurante ao raiar do dia.
Levou apenas alguns minutos para tomar um banho e se vestir. Desceu em busca de Gretchen e Poppy. Um bilhete na mesa da cozinha lhe disse que os dois haviam ido at a cidade comprar algumas coisas.
Serviu-se uma xcara de caf, a ltima deixada na cafeteira e sentou-se  mesa da cozinha. Repassou o dia anterior e um sorriso chegou a seus lbios. Tiveram momentos maravilhosos e sabia que Gretchen para sempre se lembraria de seu primeiro carnaval.
Esperava que ela fosse capaz de esquecer-se, entretanto, do que dissera a Travis pouco antes do sono envolv-la. Francine acabara de subir a escada e estivera prestes a entrar no quarto quando ouvira a filha dizer ao pai que o amava.
Aquilo partira seu corao e todas as dvidas acerca do fato de nada ter dito a Travis sobre a paternidade voltaram a assombr-la.
Equivocara-se em manter o nascimento de Gretchen em segredo? No, recusava-se a considerar sua deciso, tomada tanto tempo atrs, um erro.
Embora as circunstncias de Travis tivessem mudado e ele j no estivesse rodeado por pessoas que precisavam de seu amparo, a situao de Francine no havia se alterado. Ela ainda queria, precisava, do que Nova York e o palco podiam lhe oferecer.
No agira mal em no revelar que Travis era o pai de Gretchen. Seu silncio fora melhor para todos os envolvidos, aconselhou-se com firmeza.
J havia terminado de tomar o caf e lavava a xcara quando Travis entrou pela porta dos fundos.
 Bom dia  disse ele.  Onde est Poppy? A porta da garagem est aberta, mas no vi sua caminhonete.
 Ele e Gretchen foram para a cidade. Quer um pouco de caf? Eu posso passar um bem fresquinho.
 No, estou aqui para dois propsitos especficos. Primeiro, preciso emprestar algumas ferramentas de Poppy. Meu trator est com problemas e eu espero que alguns ajustes possam resolver a questo.
 Fique  vontade com o que puder encontrar na garagem. Sabe que Poppy no se importar.
 O outro motivo de eu estar aqui  porque Margaret telefonou esta manh. Ela est planejando vir  minha casa esta tarde para uma visita e insistiu em fazermos um churrasco. Achei que seria bom se vocs trs se juntassem a ns. Ela adoraria v-la novamente e conhecer Gretchen.
Francine hesitou. Travis estava to atraente naquela manh, perfeito com cala jeans e camiseta cinza. Uma mancha de sujeira e leo decorava sua bochecha, mas apenas para acrescentar um charme masculino especial a seu belo rosto.
 Eu prepararei minha famosa costela  acrescentou ele, como para convenc-la a ir.
Francine riu.
 Eu no sabia que voc tinha costelas famosas.
 Ganhei o primeiro prmio dos ltimos trs anos.
Ele enrubesceu, orgulhoso.
 Meu molho secreto  a receita mais comentada da cidade.
 Como eu poderia dizer no? A que horas devemos ir e o que eu poderei levar?
Francine lutou contra o impulso de dar um passo adiante e limpar o rosto de Travis. Sabia que sua pele estaria aquecida e macia sob seus dedos.
 Cerca de trs horas e no leve nada. Susie cuidar da sobremesa e eu providenciarei o resto.
 Estaremos l  concordou.
 Diga a Gretchen que Poppet, o gatinho que mantivemos conosco, mal pode esperar para conhec-la  disse Travis por fim e partiu.
Francine permaneceu em p ao batente da porta, observando-o caminhar at o local onde Poppy guardava as ferramentas. Tinha o jeito de andar de um homem confiante, feliz com a prpria vida.
"Ele est feliz", pensou Francine. "Feliz em ser um fazendeiro, trabalhar a terra e viver em uma cidade pequena."
Pela primeira vez ela percebeu que Travis jamais teria sido feliz em Nova York. Se a tivesse acompanhado alguns anos antes, um pedacinho de sua alma teria morrido.
Sempre soube que seus sonhos eram diferentes, mas conscientemente recusara-se pensar nas conseqncias de terem aspiraes distintas.
Quando deixou Cooperville, havia ainda resqucios de uma garotinha magoada dentro de seu corao, uma menina que precisava saber que Travis a amava mais do que a qualquer outra pessoa no mundo. Alm das responsabilidades, da famlia, dele mesmo. Estivera errada em esperar aquilo.
Como poderia culp-lo por seguir o prprio corao, quando fora exatamente aquilo que ela fizera? E com tal pensamento, uma sensao de paz a encobriu, um perdo final que baniu qualquer trao remanescente de amargura que guardara no corao.
Ainda estava  porta quando Travis retornou carregando diversas ferramentas.
Amava-o. Ontem, hoje, sempre.
A emoo a atingiu como se fosse um tapa em seu rosto, deixando-a sem ar e fazendo-a apoiar-se contra a porta. Sentia-se muito fraca.
Achou que o que sentia por ele fosse simplesmente fruto de lembranas antigas de um passado de amor. Achou ter superado sua paixo por Travis.
Ao observ-lo afastar-se percebeu que, sem a amargura, nada havia para deter o amor que inundava seu corao.
Notou tambm que, em algum lugar no espao daqueles cinco anos, seus sonhos haviam mudado.
Nova York no guardava a felicidade por que Francine tanto ansiava.
O estrelato jamais seria suficiente para preencher o corao da garotinha que jamais se sentira amada.
Fora isso que seu sonho lhe dissera na noite anterior Acreditara que os aplausos de uma audincia poderiam afugentar a solido e o vazio, mas isso no era verdade.
Apenas quando Travis sussurrou seu nome com tamanha suavidade e amor, a solido foi preenchida pelo calor humano.
Virou-se e se afastou da porta, o corao pesado pela tristeza. No importava o quanto amasse Travis. Ele no indicava sentir o mesmo.
O barulho familiar de um motor anunciou que Poppy e Gretchen estavam de volta. Foi at a varanda para acolh-los.
No momento em que a caminhonete parou, Gretchen saiu do assento de passageiros.
 Mame, veja o que Poppy me deu! Fez uma pose para mostrar a roupa que vestia.
 So exatamente como as de Poppy e de tio Travis!  exclamou orgulhosa.
 Certamente  respondeu a me.
 Agora eu sou uma garota da fazenda de verdade  disse Gretchen, passando o polegar pela franja da blusa da maneira como Poppy fazia com freqncia.
 Estas roupas so prticas para as tarefas do campo  Poppy falou, como se a nica razo de t-las comprado fosse o pragmatismo em vez do brilho maravilhoso nos olhos da bisneta.  E por falar em tarefas... voc cuidou dos coelhos esta manh?  perguntou para a menina.
 Farei isto imediatamente  respondeu Gretchen, afastando-se correndo.
 Leve aquela cachorra com voc!  Poppy gritou para fazer-se ouvir.  Ela precisa correr um pouco.
Gretchen parou e soltou Linda, que comeou a pular e a latir excitada. Juntas, as duas desapareceram ptio abaixo.
 No devia deixar que ela o convencesse a comprar coisas  disse Francine quando entraram na casa.
 Ela no me convenceu a nada  protestou.  A idia foi minha.
Fitou-a com um ar de desafio.
 Pensei que eu pudesse comprar para minha bisneta alguma coisa sem ter de me explicar.
 Certamente pode  Francine concordou sorrindo.
Poppy pareceu relaxar, como se diante de uma briga que no aconteceria. Sentou-se  mesa da cozinha e respirou profundamente.
 Eu diria que esta... Esta srta. Bagunceira poderia levar um homem  morte com facilidade.
Francine riu.
 Ela  muito socivel. E por falar em ser socivel, fomos convidados para um churrasco esta tarde na casa de Travis.
 Ele far costelas?  perguntou Poppy, e quase sorriu ante o gesto afirmativo.  timo. Travis  o melhor cozinheiro de costelas desta regio.
 Foi exatamente o que me disse.
Dessa vez Poppy realmente sorriu.
  um bom homem, Frannie. No h outro melhor.
 Eu sei  respondeu com suavidade.  Mas a mulher que ficar a seu lado ter de considerar suficiente o que ele tem a oferecer para que d certo.
Poppy a fitou por um longo momento, ento levantou-se.
 Vou dar uma caminhada. Eu nunca fui muito capaz de suportar tolices.
Francine o encarou e o observou afastar-se. Seria ela uma tola? Haveria uma possibilidade de felicidade ali com Travis?
Pela primeira vez considerou a totalidade dos fatos. Estaria o destino lhes dando uma segunda chance para que seguissem juntos?
Fechou os olhos, por um momento capaz de imaginar como seria. Acordaria nos braos de Travis todas as manhs, dormiria a seu lado todas as noites. Seria o paraso. A realizao de seus sonhos.
Talvez, apenas talvez, fosse hora de ela tornar seu verdadeiro sonho realidade. E dizer a Travis qual era seu novo sonho.

 Puxa, Francine, voc est exatamente como cinco anos atrs!  exclamou Margaret ao abra-la.
 Eu gostaria de poder dizer o mesmo sobre voc  respondeu rindo. Deu um passo para trs e observou a jovem com genuna afeio.  Na ltima vez em que a vi, voc tinha treze anos de idade e estava com os cabelos todos tortos porque havia se aventurado a cort-los sozinha.
Margaret riu.
 Eu quase tinha me esquecido daquele corte de cabelos.
Inclinou-se para apresentar-se a Gretchen.
 Ol, sou Margaret, irm mais nova de Travis.
A menina riu.
 Voc no parece ser pequenininha para mim!  exclamou faceira.
 Vamos ficar o dia todo tagarelando ou vamos nos sentar e ficar confortveis?  perguntou Poppy.
Margaret riu e, para surpresa de Francine, deu um beijo na bochecha de Poppy.
 Venha, Poppy, reservei-lhe sua poltrona favorita.
Piscou para Francine ao pousar o brao no ombro dele.
 Travis espera por ns no quintal.
Caminharam juntos pela lateral da casa at os fundos, onde Travis, com cala jeans e avental, estava em p diante da churrasqueira. Fez um aceno para cumprimentar a todos, sorrindo.
 Tio Travis  falou Gretchen , veja, tenho roupas iguais s suas!
A menina aproximou-se, ansiosa por mostrar seus trajes de fazendeira. Poppy a seguia, aproximando-se de sua espreguiadeira favorita, posta prxima ao local onde Travis trabalhava.
  uma linda menina!  falou Margaret.
 Obrigada. Tenho muito orgulho dela  respondeu Francine.
Observou a mulher bonita de cabelos escuros.
 Soube que est para comear a ter aulas na Universidade de Nebraska.
 Comeam em duas semanas.
Margaret fez um gesto em direo  mesa de piquenique e as duas se sentaram.
 Mas eu estive l por cerca de um ms. No ficarei em um alojamento. Minha melhor amiga e eu estamos partilhando um apartamento, assim poderemos ir antes para nos instalarmos e encontrarmos empregos de meio perodo.
 Parece que ser divertido.
 Ser. Embora eu v sentir falta de Travis e Susie. Felizmente estou prxima o bastante e tenho uma programao de aulas que me permitir vir para casa pelo menos duas vezes por ms.
 Ser bom.  muito difcil ficar longe de casa.
Francine lembrou-se nitidamente das noites em que sentiu saudade.
 Sim.
Margaret sorriu e seu olhar pousou no irmo.
 Embora Travis jamais v admitir, acho que ele est sofrendo.
 O que a faz pensar isto?  Francine perguntou, curiosa.
 Oh, no sei. Algumas vezes, quando conversamos ao telefone, ele me parece estar to solitrio. Gostaria que encontrasse uma mulher interessante, se casasse e enchesse esta velha casa de crianas.
Olhou para Francine, calorosamente.
 Houve uma poca em que eu achei que esta mulher seria voc. Sempre apreciei a idia de tornar-me sua cunhada.
Antes que Francine pudesse responder, Susie e seu marido apareceram. Logo todos estavam envolvidos em novas apresentaes e abraos.
A tarde transcorreu com rapidez, as horas consumidas pelo riso, comilana e lembranas. Francine sentia-se deliciada no apenas em conversar com as irms de Travis, mas tambm em notar o bvio amor e respeito que as moas sentiam pelo irmo.
Ficou pensando em como sua vida poderia ter sido diferente se tivesse uma famlia, pais amorosos e tudo o mais. Teriam sido suas chances diferentes se ela tivesse sido rodeada por amor e no perseguida pela aptica desaprovao de Poppy?
Invejava o que Travis tinha ali. Enquanto Francine nutrira sonhos de alcanar o estrelato, ele construra uma famlia... E ela queria desesperadamente fazer parte daquilo. Queria no apenas para si mesma, mas por Gretchen tambm.
 Voc parece estar muito pensativa  disse Susie ao acomodar-se ao lado de Francine na mesa de piquenique.
J haviam tirado os pratos sujos. Momentos antes, Travis havia trazido um jogo e todos, exceto Susie e Francine brincavam no gramado.
 Estou apenas apreciando a noite.
 Nada melhor do que um dia passado em famlia.
 E eu soube que sua famlia est prestes a aumentar. Parabns!
 Obrigada. Estamos muito animados. Tocou o ventre, como para acariciar o beb.
 Richard e eu esperamos ter muitos filhos.
Olhou para o marido, um jovem atraente e alegre.
 Richard parece ser muito simptico  observou Francine.
O rosto de Susie se iluminou.
  mais do que isto.  minha alma gmea.
Alma gmea. Seria Travis sua alma gmea? Olhou para onde ele estava, jogando, rindo. Sim, fora sua alma gmea e no podia imaginar como cometera a estupidez de afastar-se dele.
Um homem simples, sim. Nunca precisou de muito para sentir-se feliz. Francine lembrava-se de como as noites haviam sido belas. Ela deitada em seus braos, os dois conversando sobre os sonhos que tinham... Sonhos que incluam churrascos e familiares, o desejo de uma famlia e crianas.
Poderia Francine abraar o sonho de Travis como sendo seu tambm? Deixar para trs suas aspiraes de fama e estrelato?
Travis no a amara o suficiente para impedi-la de partir anos atrs. Nas ltimas semanas, teriam seus sentimentos por ela se aprofundado?
Seria possvel que, se permanecesse ali tempo bastante, Travis passaria a am-la tanto a ponto de querer passar o resto da vida a seu lado?
Para descobrir, Francine teria de colocar seu orgulho em jogo, o que nunca lhe fora fcil fazer.
Conforme a noite caa, lanando sombras lilases que tornavam impossvel o jogo de bola, todos foram para a varanda dos fundos saborear o sorvete feito em casa e o bolo.
 Est gostoso!  elogiou Gretchen ao terminar o sorvete e estender a vasilha pedindo mais.
 Nada melhor do que sorvete caseiro em uma noite quente de vero  falou Travis ao lhe servir mais uma poro.
Assim que sua vasilha foi reposta, Gretchen sentou-se no colo dele como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo a ser feita.
O corao de Francine disparou ante a viso de pai e filha apreciando a presena um do outro. Seria possvel que o que sentiam fosse um empurro inconsciente dos genes que partilhavam? Embora suas mentes no fizessem idia da conexo, era possvel que seus coraes percebessem?
 H apenas uma coisa mais que tornaria esta noite realmente perfeita  observou Susie ao olhar para o irmo mais velho.  Voc poderia pegar o violo e nos cantar algumas msicas?
 No acho que seja necessrio  respondeu Travis.
 Por favor, tio Travis  falou Gretchen, aparentemente deliciada ante a idia.  Eu posso cantar, tambm. Poderamos cantar juntos.
Travis sorriu para a menina, seu corao e seus olhos mostrando o afeto que sentia.
 No posso dizer no para voc, pequenina.
Gretchen desceu de seu colo, ele ficou em p e entrou na casa. Reapareceu momentos depois com seu violo.
Sentou-se e Gretchen acomodou-se a seus ps, a vasilha cheia de sorvete esquecida ao observ-lo produzir os primeiros sons.
Francine acomodou-se melhor na cadeira e apreciou os movimentos dos dedos habilidosos a iniciar uma harmonia singular. Os insetos da noite se aquietaram, como se quisessem ouvir com preciso os tons doces da msica que preenchia o ar.
Gretchen aproximou-se mais e pousou a cabea no joelho de Travis, fitando-o com adorao.
Francine sempre acreditou ser suficiente para Gretchen. Pensou ter amor bastante para suprir as necessidades da filha e preencher a ausncia de um pai em sua vida. Naquele momento percebeu como se enganara.
Conforme Travis comeava a cantar uma velha balada, Francine fechou os olhos e foi permitindo que o tom profundo de sua voz a dominasse.
Houve uma poca em que julgou que sua voz seria o passaporte dele para o estrelato, enquanto a capacidade de ser atriz seria o seu.
Nesse instante, entretanto, percebeu como ele estivera certo o tempo todo. Francine observou a filha ouvi-lo cantar e soube, com intensa certeza, que a voz de Travis fora feita para canes de ninar.
De alguma maneira, no espao das ltimas semanas, os sonhos dele haviam se tornado mais atraentes para Francine.
Depois de um dia passado na companhia de suas irms, sentindo o amor que existia entre eles, percebeu que Travis atingira uma espcie de estrelato  sua moda, algo mais durvel do que aquele que Francine tentava alcanar.
Passava das dez horas quando Margaret entrou em seu carro para retornar  escola. Nesse horrio Francine j havia decidido que antes que a noite findasse, iria abrir seu corao e sua alma para Travis. Era hora de ver se o destino lhes daria uma ltima chance de encontrar a felicidade juntos.
Susie e Richard estavam prestes a partir, beijando todos calorosamente antes de entrarem no carro. Travis desapareceu casa adentro, carregando tigelas sujas de sobremesa e xcaras de caf para a cozinha.
 Acho que a srta. Bagunceira est pronta para encerrar o dia tambm  falou Poppy para Francine, fazendo um gesto em direo ao local onde Gretchen estava sentada, lutando contra o sono.
 Voc se importaria de lev-la para casa? Eu vou ficar e ajudar Travis com a loua suja e ento irei a p depois.
Poppy a estudou por um longo momento.
 Est na hora mesmo  disse o av.  Hora de voc contar quele garoto que ele tem uma filha.
Francine o fitou, espantada. Poppy simplesmente balanou a cabea de um lado a outro, tristemente.
 No sou o velho tolo que presume que eu seja, embora eu tenha comeado a pensar por quanto tempo voc seria uma jovem tola.
Aps dizer isso, virou-se e chamou por Gretchen.
Francine ficou observando o carro de Poppy afastar-se. As luzes permaneceram visveis durante todo o trajeto. Poppy estacionou diante de sua casa e desligou o motor.
Ento seu av soubera o tempo todo que Gretchen era filha de Travis. No fora enganado pela mentira quanto  idade da menina.
Francine sorriu. Aparentemente Poppy no mentira quando dissera que poucas coisas lhe passavam despercebidas.
Podia ouvir o assobio alegre de Travis ao entrar pela porta dos fundos trazendo mais pratos sujos. Em seguida ele abriu a torneira da pia.
Certamente ficaria feliz quando soubesse. Era evidente como se afeioara a Gretchen nas ltimas semanas.
Pela primeira vez Francine sentiu muito medo de fazer uma confisso para aquele que fora seu melhor amigo. Ser que ele ficaria feliz em saber?
Os dois teriam uma segunda chance de encontrar a felicidade?
O futuro de Francine combinaria com o de Travis, ali em Cooperville?
Era curioso. Cinco anos atrs ela jamais imaginaria construir sua vida ali. Mas desde seu retorno, a cidade e suas pessoas haviam-na acolhido como se fosse uma filha prdiga retornando ao lar.
Desde ento, Francine tivera a agradvel sensao de pertencer ao mundo local, algo jamais experimentado antes.
O pensamento de retornar a Nova York j no mais lhe aprazia. As nicas estrelas a lhe despertar interesse eram aquelas que esperava ver brilhar nos olhos de Travis.
Estaria seu futuro naquele lugar?
Havia apenas uma maneira de descobrir. Respirando profundamente, ela deu um passo adiante e entrou na cozinha.

 
CAPTULO IX

Travis adorou aquele dia. Foram horas tranqilas passadas em clima alegre com seus amigos e familiares, cheias de riso e calor humano. Seu corao parecia transbordar de felicidade.
Preocupava-o pensar em como seria sua vida quando Francine e Gretchen retornassem a Nova York. No havia imaginado a fora desse temor at as duas chegarem  sua casa e preencheram todos os espaos vazios.
Quando Francine partiu havia longos cinco anos, Travis ignorou a perspectiva de sentir solido, preocupado demais em criar as queridas irms. Mas quando Susie se casou e Margaret foi estudar fora da cidade, a sensao de isolamento surgiu com uma intensidade torturante. At mesmo suas visitas a Poppy no eram capazes de dissip-la.
Virou-se quando Francine entrou na cozinha e sorriu.
 Onde esto todos?  perguntou ele.
 Foram embora. Poppy levou uma certa garotinha cansada para casa. Eu decidi ser justa e ficar para ajud-lo a limpar as coisas, j que voc fez toda a comida.
 timo. Detesto ter de enxaguar pratos e coloc-los na mquina de lavar.
Secou as mos, deu-lhe uma esponja, ento sentou-se  mesa e fez um gesto na direo da pia. Francine riu.
 Eu esperava um pouco mais de luta  murmurou ao dedicar-se  tarefa.
 No quando o assunto  este  respondeu-lhe.
Acomodou-se melhor na cadeira, feliz por ela ter decidido ficar.
 Foi um dia e tanto, no foi?  indagou Travis, pensando se Francine sentia a mesma magia em seu corao.
 Sim, foi.
 O que acha de uma xcara de caf?
Travis queria faz-la ficar, gostaria que os dois se sentassem juntos  mesa e conversassem sobre o dia como se fossem casados havia muito tempo. Gostaria de ter essa iluso, prolongar um bocado a magia.
 Parece-me uma boa idia.
Em minutos o caf estava sendo coado, o cheiro forte invadindo a cozinha. Francine colocou a ltima travessa na lavadora de pratos e Travis serviu uma xcara de caf a cada um.
 Que tal retornarmos  varanda?  sugeriu ele.  Detesto desperdiar uma linda noite.
Seguiu adiante e os dois se acomodaram em confortveis espreguiadeiras postas lado a lado. Travis estava plenamente consciente do calor das coxas nuas de Francine contra as suas, algo capaz de transpor at mesmo o tecido grosso da cala jeans.
O perfume delicado dos longos cabelos castanhos era trazido pela brisa e ele lutava contra a onda de desejo que chegava a tirar-lhe o flego.
Observou-a beber o caf, ento fitar sonhadora a noite escura.
 Acho que as estrelas ficam bem prximas da Terra na regio de Nebraska, mais do que em qualquer outro lugar do mundo  disse suavemente.
Travis sorriu.
 Lembra-se de quando ramos jovens e acreditvamos que vagalumes eram estrelas cadas do cu?
Francine riu, o som chegando diretamente ao corao de Travis.
 Havia me esquecido disto. Raramente se v estrelas em Nova York. As luzes e a poluio fazem crer que as estrelas desapareceram para sempre.
"Fique aqui", pensou ele, seu corao implorando para que as palavras fossem proferidas. "Fique no lugar onde as estrelas sempre esto no cu. Fique e faa parte de minha vida."
Travis mordeu a lngua para manter-se calado. Nada ganharia ao penhorar seu corao. Sabia que Francine retornaria a Nova York, em busca dos sonhos que dirigiam sua vida... Sonhos que sempre estariam entre os dois.
Afastou os pensamentos, recusando-se a lidar com as circunstncias infelizes que no poderia alterar. No momento, simplesmente queria apreciar os momentos a seu lado, sem recriminaes amargas do passado e sem vises fantasmagricas de um futuro sem sua adorvel presena.
Pousou um brao sobre os ombros estreitos e de contornos delicados e Francine se inclinou contra seu corpo, assim como fizera centenas e centenas de vezes antes, tempos atrs.
No havia nada sexual naquele gesto, apenas uma proximidade serena, calcada na confiana e nos laos profundos da amizade.
 Margaret e Susie esto maravilhosas, Travis. Voc fez um trabalho e tanto com as duas.
 Eu apenas sinto que mame no esteja aqui para v-las. Teria se sentido muito orgulhosa delas e tambm de voc.
Francine suspirou, um suspiro muito suave contra o pescoo de Travis.
 Eu gostaria de conseguir me lembrar melhor de meus pais  disse ela.  Isto costumava me apavorar. Os dias se passavam e minhas lembranas se tornavam mais fracas e frgeis, at que um dia eu mal pude me lembrar da aparncia dos dois. Ento houve uma vez em que eu fiquei feliz por no me recordar, porque estava muito brava com eles.
 Brava?
 Eles me abandonaram. Era assim que eu sentia. Sei que  irracional, mas eu no estava brava porque haviam ido embora e jamais retornado, mas porque haviam me deixado com um homem que era incapaz de me amar.
Ficou silenciosa por um momento e ento continuou:
 Poppy jamais conversou sobre meus pais. Ns nunca mencionamos a existncia deles durante todos os anos em que morei com meu av.
Travis ficou em silncio, sabendo por instinto que Francine precisava conversar sobre aquele assunto, mas intrigado com essa nova faceta de sua personalidade, uma viso que ela jamais havia lhe mostrado antes.
Em todos os anos de amizade compartilhada, de devoo um ao outro, a ento namorada nada falou a respeito de seus pais. Fora o nico tpico que Travis sempre soube estar alm do limite do relacionamento.
 Conte-me do que se lembra  pediu-lhe.
Francine mais uma vez olhou para as estrelas.
 Coisas poucas e inconseqentes, apenas isto. Como o cheiro do perfume favorito de minha me e a maneira como sua mo passava em minha testa. Lembro-me do riso de meu pai. Era um som forte... eu adorava.
Fitou Travis, o azul de seus olhos se escurecendo devido  emoo intensa. Seria apreenso? Medo?
 Frannie... O que  isto?
Ela terminou de beber o caf e ento pousou a xcara no cho.
 Crescer sem os pais sempre deixa um vazio, no  mesmo?
Travis pensou em seu prprio pai, que falecera quando ele tinha quinze anos e ento na perda da me, quando contava vinte e dois. Ambas as mortes haviam definitivamente deixado para trs um espao difcil de ser preenchido.
 Sim, mas as coisas acontecem. As pessoas morrem.
 Seria algo terrvel manter uma criana e um pai longe um do outro se ambos estivessem vivos  Francine afirmou enigmaticamente.
Travis sentiu um estranho desconforto. Onde ela pretendia chegar com aquilo? O que estaria se passando em sua mente?
 Francine, o que voc quer dizer com isso?
Ela ficou em p e caminhou pela varanda, dando-lhe as costas. Travis podia notar a tenso nas linhas rgidas daquele corpo e uma ansiedade crescente tomou conta de seu ser.
 Converse comigo, Frannie.
Obedecendo ao apelo, ela se virou, mas no o fitou diretamente. Concentrou a ateno em algum lugar por sobre o ombro largo de Travis, como se achasse impossvel encar-lo de fato.
 Gretchen  sua filha, Travis.
Foi como se tivesse falado em outro idioma. Por um momento, as palavras no lhe fizeram sentido e Travis arregalou os olhos, tentando compreender a realidade.
Gretchen era sua? Como era possvel? O que Francine estava tentando fazer?
Engoliu em seco, lutando contra a estranha combinao de emoes.
 O que quer dizer?  perguntou-lhe, a voz rspida at mesmo para seus prprios ouvidos.
 Ela no tem trs anos. Tem quatro. Foi concebida na noite anterior  minha partida para Nova York. E sua filha  repetiu.
Uma alegria intensa invadiu o corao de Travis. A pequenina era sua... sua filha, sua garotinha. Pudera sentir uma conexo to forte com a menina, a despeito de sua prpria relutncia em agir daquele jeito.
Instantaneamente a alegria foi substituda pela raiva, uma raiva intensa ao perceber o quanto da infncia de Gretchen ele perdera.
No, perdera no. Fora-lhe tirada. Roubada por Francine.
Caminhou em sua direo, parando a centmetros de distncia de seu corpo.
 Como voc pde? Como conseguiu manter isto longe de mim o tempo todo?
A expresso dela mostrava o quanto lamentava o que fizera. Estendeu-lhe as mos como em uma splica.
 Travis, eu j estava em Nova York quando percebi que estava grvida.
 Por que no me telefonou? Escreveu ou me contou? Eu tinha o direito de saber.
As palavras explodiam e ela parecia se encolher ante as acusaes. Travis deu um passo para trs, o corao pesaroso.
 Voc tem razo. Tinha direito de saber, mas naquela poca havia diversas razes para eu no lhe contar.
 Que razo voc poderia ter tido?
 Voc sempre foi um homem honrado. Eu sabia que insistiria para que fizssemos a coisa certa, nos casssemos. Naquela poca, voc cuidava de sua me e tentava criar as duas irms. A ltima coisa de que voc precisava era de mais uma responsabilidade... Mais dois fardos.
 E voc sabia que eu insistiria para que retornasse  acrescentou com amargura.  Voc teria de desistir de seus sonhos.
Ela assentiu levemente, como se o pensamento lhe causasse dor. Ao menos no havia negado aquilo.
 Talvez isto tenha mesmo pesado. J no tenho mais certeza.
Por um momento, nenhum dos dois disse uma palavra sequer. Ela permaneceu apoiada  amurada, na defensiva e Travis lutava contra a raiva profunda que ainda o assolava, um dio misturado com uma sensao de jbilo.
Gretchen era sua. Nascera com seus genes, uma continuidade da linhagem de sua famlia. Era uma criana no apenas de seu corpo, mas de seu corao.
 Travis... sinto muito  sussurrou e colocou uma mo em seu brao.
Ele afastou seu toque.
 Sente muito? Voc tem idia do que me roubou? Eu nunca a carreguei recm-nascida, jamais terei outra chance de ver seus primeiros passos. Momentos preciosos de sua infncia se perderam para sempre para mim.
Francine soluou e seus olhos se encheram de lgrimas, mas Travis permaneceu alheio s suas emoes, confuso demais com as prprias.
 Travis, eu estava apenas tentando fazer o que era melhor para todos, porque eu o amava.
Ele riu. Um som amargurado e rouco.
 Amor? Francine, voc no tem idia do significado desta palavra.
Lgrimas turvavam a viso de Travis e ele deu outro passo para trs, precisando manter alguma distncia para procurar compreender o que acabara de saber.
 No v o que fez?  indagou ele, o tom de voz indicando a dimenso de sua incredulidade.  Como pde passar todos aqueles anos a meu lado e no saber o quo importante isto seria para mim? Noite aps noite ouviu meu relato sobre os sonhos de ter uma famlia, ser pai.
Mais uma vez emoes conflitantes o tomaram, com muita fora, a ponto de impedi-lo de falar. Lutou bravamente, piscando com fora para deter as lgrimas.
 Voc teve meu sonho exatamente em suas mos durante os ltimos cinco anos, mas o manteve longe de mim. Isso no  amor, Francine! E eu no sei se um dia poderei perdo-la.
 Sinto muito  disse ela suavemente.
Hesitou por um momento, como para acrescentar alguma coisa, mas ento saiu da varanda e desapareceu na escurido da noite.
No deveria ter-lhe contado. Minutos mais tarde, Francine sentava-se em meio  escurido de seu quarto, olhando janela afora, lgrimas caindo por seu rosto. Culpava-se por ter contado a verdade a Travis.
Nutrira esperanas de que, naquela noite, finalmente se tornaria parte da vida de seu amado. Achara que de alguma maneira conseguiriam deixar o passado para trs e comear a construir um futuro juntos.
Como fora tola!
No exato instante precisava decidir seu futuro, se deveria permanecer em Cooperville ou retornar a Nova York.
As palavras de Travis ecoavam em sua cabea, dizendo-lhe que talvez jamais fosse perdoada. Seu corao estava despedaado. Como poderia ficar ali e v-lo todos os dias, observ-lo namorar outras mulheres, talvez at casar-se?
Como poderia testemunhar a construo de um futuro que no a incluiria? Morreria por dentro. Sem Travis, o que lhe restava naquele lugar?
Seria melhor que retornasse a Nova York, continuasse a perseguir os sonhos que um dia a haviam motivado e sustentado. L no haveria Travis, o peso de sua decepo, sua amargura, a assombr-la.
Quando o sol comeou a nascer, Francine j havia tomado uma deciso. Nada havia para ela naquele lugar. Poppy jamais se importara com sua existncia e atualmente ela no poderia contar com o amor de Travis para contrabalanar a antipatia do av. Talvez pudesse encontrar alguma espcie de felicidade na cidade grande, afinal.
Embora preferisse guardar um pouco mais de dinheiro, decidiu ser melhor partir logo no dia seguinte. Aquilo lhe daria tempo para fazer as malas e ter uma boa noite de sono.
Deciso tomada, desceu  cozinha para fazer caf, sabendo que seria impossvel dormir. Foi para a varanda com uma xcara, querendo ver seu ltimo nascer de sol em Nebraska.
Observou o horizonte ser tingido de diversas cores, mas em seu corao tudo era negro.
Subitamente percebeu que fora trazida de volta a Cooperville pela ridcula esperana de que ela e Travis pudessem retomar o que haviam rompido anos atrs. A alegria e plenitude de estar segura naqueles braos jamais foi superada por qualquer outra experincia de sua vida.
Travis tinha razo. Ela lhe roubara um sonho. Um arrependimento muito grande a tomou ao se lembrar das palavras que ouviu. Sempre soube o quanto ser pai esteve presente nos sonhos de Travis.
Fora egosta e temerosa. Receara perder Gretchen. Ficar sem ningum. Desde o momento de seu nascimento, a menina fora a nica pessoa de sua vida a lhe oferecer amor incondicional, comprometimento total.
Era estranho, mas no havia considerado que, ao manter Gretchen distante de Travis, estava privando a filha de um relacionamento muito importante, do amor de um pai especial.
Precisava enfrentar o fato naquele momento. Admitir que, agindo de maneira egosta, no quisera partilhar sua filha com ningum. Receara que, se fizesse aquilo, lhe restaria menos amor.
Como era fcil notar os erros quando j era tarde demais para consertar as coisas. Seu olhar migrou do esplndido nascer de sol para a casa de Travis.
Ele a odiava. Vira aquele brilho em seus olhos.
Nada seria capaz de mudar o que havia feito. Entretanto, o prejuzo poderia ser menor se ela lhe desse algum tempo com Gretchen.
Quando retornassem a Nova York, Francine lhe escreveria, fariam algum acordo quanto  custdia.
Os dois poderiam lidar com aquele assunto como se fossem um casal divorciado. Gretchen passaria diversas semanas durante o vero e feriados ocasionais em Cooperville com Travis.
Estabeleceriam um acordo civilizado, para que ambos tivessem espao na vida da filha.
Espaos na vida de Gretchen.
Aquilo soava to frio, to civilizado.
Francine terminou de tomar o caf e retornou  cozinha, surpreendendo-se ao ver Poppy sentado  mesa.
 No o ouvi descer a escada  murmurou ao lavar a xcara.
 Tenho estado acordado h algum tempo. No dormi bem.
 Deve ser esta gripe que est pegando todos  respondeu secamente.
Guardou a xcara no armrio e virou-se para encarar o av. Ele lhe pareceu estranhamente velho e cansado naquela manh e por um momento Francine relutou em lhe dizer qualquer coisa.
Mas Poppy teria de saber mais cedo ou mais tarde de seus planos e era melhor que lhe fosse dito imediatamente.
 Gretchen e eu partiremos amanh.
 Por qu?
  hora de retomarmos nossas vidas.
 Voc falou a Travis sobre a menina?
 Eu lhe disse.
 E ele permitir que a leve embora?
Francine enrubesceu de raiva.
 No tem opo. Ela  minha filha e ir aonde eu for.
 Mas Travis  o pai.
 Eu providenciarei para que ele tenha oportunidade de ver Gretchen e passar algum tempo a seu lado  respondeu-lhe.  Darei um jeito para que minha filha volte para c para visitas ocasionais.
Poppy levantou-se e foi at a pia. Encheu um copo de gua e bebeu enquanto Francine lutava contra as lgrimas.
O que havia de errado com ela? Partir era a deciso correta, a melhor. Ento por que sentia uma dor to profunda em seu corao?
Estava apenas cansada, exausta, aconselhou-se.
Poppy se virou, os olhos cheios de uma tristeza que a fez sentir-se pior do que estava.
 Gretchen no quer partir.
 Ela  uma criana, no sabe o que  melhor  ponderou Francine.
 Mas no ter uma vida decente  argumentou Poppy, colocando o copo com fora sobre o balco.  Viver em uma cidade grande cheia de concreto e barulho... isto no ser adequado a uma criana.
 Muitas so criadas na cidade de Nova York, crescem e se tornam adultos felizes e bem-ajustados.
Poppy praguejou e Francine sentiu sua raiva aumentar.
 No torne as coisas mais difceis para mim do que j esto. No posso ficar. No posso ser feliz aqui.
Poppy ficou em silncio, assim como em tantas vezes durante o passado de Francine. Era um silncio crescente que se expandia e preenchia todo o ar.
Estava decepcionado. Um silncio de decepo, jamais de amor.
Como antes, Francine estoicamente sofria com a ausncia de palavras, resignada ante o fato de que Poppy jamais a amaria. Mas subitamente o silncio opressivo causou efeito diferente e a fez falar.
 Eu sei que o senhor no me quer aqui. Eu achei surpreendente que tenha conseguido amar Gretchen quando nunca foi capaz de me amar.
 No julgue o que eu sinto ou deixo de sentir!  exclamou Poppy.
 Eu no tenho de julgar  Francine falou, a voz em tom alto conforme velhas emoes e amarguras a tomavam.  Eu testemunhei tudo isto. Convivi com seus silncios e sua frieza. Passei cada dia sabendo que no me queria aqui, mas no havia lugar para onde eu ir, ningum mais me queria.
Lgrimas quentes caram por seu rosto, conforme externava mgoas antigas, sentimentos guardados durante uma infncia repleta de desamor.
 Francine...
Ela ergueu a mo, no querendo ouvir nada do que o av tinha a dizer. Quaisquer palavras de conforto que ele pudesse arranjar no seriam legtimas, espontneas. E pelo menos at aquele momento, Poppy jamais havia mentido para ela.
 Gretchen e eu vamos partir amanh de manh e nada do que disser mudar este fato.
Sem aguardar por resposta, saiu pela porta dos fundos, batendo-a atrs de si com fora. Correu para o milharal.
Uma vez entre fileiras de ps de milho, deixou-se cair ao cho, soluando a tristeza guardada por tanto tempo.
Todas as lgrimas que se recusara a deixar fluir na infncia naquele instante foram libertas.
Pela primeira vez, chorou a morte dos pais em um trgico acidente de carro.
Chorou pela garotinha que fora, algum que to desesperadamente precisara do amor de um homem velho que nada lhe oferecera.
Finalmente, chorou pela mulher que se tornou. Finalmente percebera que seus sonhos verdadeiros eram ficar ao lado de Travis. Esperara poder tornar-se parte de sua vida. Mas era tarde demais para ela. Tarde demais para os dois.
Sentiu um vazio enorme, um espao em seu corao completamente desprovido de calor e vida. Antes, tivera seus sonhos para sustent-la, mas atualmente eles haviam sumido, assim como Travis.
Francine no soube quanto tempo permaneceu escondida no milharal, permitindo que antigas tristezas e novas decepes a possussem.
Finalmente secou a ltima lgrima e passou a buscar uma fora que sempre foi sua.
No mais choraria. J derramara lgrimas suficientes em coisas que no poderiam ser alteradas. Era hora de caminhar adiante. De arrumar suas coisas e se preparar para a viagem.
Ficou em p e comeou a caminhar de volta  casa. J havia percorrido metade do caminho entre o milharal e a residncia quando Gretchen apareceu  porta dos fundos, ainda de pijama.
 Mame... H algo errado com Poppy!  gritou a menininha.  Ele est dormindo no cho da cozinha e no acorda!
Um medo mortal passou pelo corpo de Francine. Por um momento, parecia que seu corao havia parado.
 Oh, no!  gritou finalmente e correu para a porta dos fundos.
Irrompeu na cozinha, seu olhar instantaneamente pousando no av.
Ele estava estirado no cho, o rosto acinzentado. Imvel.
 Poppy!  gritou e ajoelhou-se a seu lado.
 Mame!  chamou Gretchen, a voz demonstrando o medo que sentia.
 Tudo vai ficar bem, querida  falou Francine ao abrir rapidamente os primeiros botes da camisa de Poppy e o colocar em posio para fazer massagem.
Ele estava imvel, terrivelmente imvel.
 Quero que voc seja uma menina grande e telefone para o tio Travis. Diga-lhe que Poppy est doente e que ele precisa vir para c imediatamente.
Gretchen correu para o telefone. A me lhe disse qual era o nmero e a menina cuidadosamente discou.
Francine mal ouviu a filha relatar o recado a Travis. Fazia as massagens cardacas como um autmato e rezava para que o confronto que havia tido com o av no o tivesse matado.

 
CAPTULO X

 Susie est a caminho para pegar Gretchen  Travis falou ao sentar-se ao lado de Francine na sala de espera do hospital.
Ela estava com expresso ausente e meramente fez um gesto de assentimento. Seu olhar pousou na filha, ainda de pijama, sentada no cho a folhear um livro infantil.
A ltima hora fora um pesadelo. No instante em que Travis chegara  casa, Poppy j respirava, mas permanecia inconsciente.
Os dois o carregaram para o carro, colocaram-no no assento de trs e o levaram em disparada para o hospital mais prximo.
Minutos aps sua chegada, Poppy foi levado para exames e todos ficaram na sala de espera aguardando... aguardando... aguardando.
 Por que ningum vem aqui para nos dizer o que est acontecendo?  indagou Francine.
Ficou em p, nervosa demais para permanecer imvel.
 O que pode estar levando tanto tempo assim?
 Tenho certeza de que algum vir para nos dizer algo assim que tirarem algumas concluses  disse Travis, enquanto a observava caminhar de um lado a outro.
 Mame?
Gretchen fechou o livro e levantou-se.
 Poppy ir ficar bem?
Francine pegou a filha nos braos. Gretchen enroscou as pernas ao redor da cintura da me.
 Tenho certeza de que sim. O cu no o ir querer e o inferno no poder lidar com ele  acrescentou, rezando para que suas palavras pudessem ser verdadeiras.
 Mame, voc disse uma palavra feia.
 Eu vou lavar a boca da sua me, com sabo, mais tarde  murmurou Travis.
Gretchen riu e desceu do colo da me. Pegou o livro do cho e aproximou-se.
 Voc poderia ler isto para mim?
 Claro.
Travis colocou a menina em seu colo. Conforme comeava a ler, Francine mais uma vez perambulava pela pequena sala de espera.
Sentia muita culpa desde o instante em que viu Poppy cado no cho. Jamais devia ter brigado com o av, permitido que suas emoes flussem em tamanho descontrole.
Nunca se perdoaria se algo acontecesse com ele. Se morresse antes que Francine tivesse a chance de lhe dizer o quanto o amava.
Parou de andar quando o Dr. Carterson entrou na sala de espera. Instantaneamente Travis estava a seu lado, a mo em seu cotovelo, como para ampar-la caso houvesse ms notcias.
Sentiu-se grata. A despeito das diferenas, era bom saber que estavam juntos naquilo. Ali eram simplesmente duas pessoas que amavam Poppy.
 Ele est descansando neste momento  o Dr. Carterson falou.
Um suspiro de alvio escapou da boca de Francine e ela se inclinou contra Travis, sentindo uma sbita fraqueza.
 Entretanto, ainda no est fora de perigo  acrescentou o mdico.  Sofreu um ataque do corao ameno, devido a diversas artrias bloqueadas. Precisamos lev-lo para uma cirurgia imediatamente e limpar aquelas artrias para minimizar o risco de outra ocorrncia.
 Angioplastia?  perguntou Travis. Dr. Carterson assentiu.
  um processo relativamente rotineiro e no antecipamos quaisquer complicaes. A despeito deste ataque recente, est em boa sade.
 E quando pretendem faz-lo?  perguntou Francine.
 Imediatamente.
Dr. Carterson sorriu para Francine.
 Temos apenas um pequeno detalhe. Ele insiste em v-la antes que faamos qualquer outra coisa.
 V  falou Travis ao soltar-lhe o cotovelo.  Eu esperarei aqui com Gretchen.
Francine lhe sorriu, grata. Ento seguiu Dr. Carterson atravs de duas portas. Passaram para a unidade de terapia intensiva.
Metido em uma cama enorme, ladeado por diversas mquinas, Poppy a encarou assim que Francine apareceu.
 Um homem no pode morrer com dignidade por aqui  queixou-se, a voz muito fraca mas revelando o tom rabugento habitual.  Fizeram com que eu usasse um maldito vestido aberto nas costas para mostrar toda minha privacidade  reclamou.
 Oh, Poppy, voc nos assustou  Francine falou ao aproximar-se de sua cama.
 Foi por isto que eu achei melhor v-la antes que eles me levem para algum tratamento.
Ajeitou-se melhor na cama, a testa franzida.
 No quero que voc pense que teve algo a ver com isto. Aquela pequena discusso que tivemos no me causou o ataque do corao.
Francine fechou os olhos, permitindo que a absolvio do av fosse incorporada por sua mente. Precisara ouvi-lo dizer aquilo, saber que no a culpava pelo que tinha acontecido.
 Obrigada  balbuciou, tocando-lhe o brao.
Uma enfermeira entrou no quarto, um sorriso brilhante em seu rosto.
 Estamos prontos para nossa cirurgia?  indagou alegremente.
 Ns? Eles vo cortar voc tambm?  Poppy perguntou, irritado.
A enfermeira meramente sorriu.
 Ningum vai cortar voc. Nem mesmo ser submetido a anestesia geral.
Olhou para Francine.
 Ele ficar bem. O mdico a encontrar na sala de espera aps a cirurgia.
Poppy franziu a testa e olhou para Francine.
 V. Saia daqui. Quero terminar logo com isto.
Ela comeou a caminhar em direo  porta quando o av lhe disse:
 D um beijo na srta. Tagarela por mim.
Francine assentiu. Quando retornou  sala de espera, viu Susie com Travis e Gretchen.
 Ele vai ficar bem  disse-lhes.  Est rabugento como sempre e me disse para dar  srta. Tagarela um grande beijo.
Sorriu para a filha.
 Poppy no vai morrer  Gretchen falou para Susie, com a soberba certeza das crianas , porque o cu no o quer e o inferno no conseguir lidar com ele.
A menina sorriu para Travis.
 Quando voc lavar a boca de mame, poder lavar a minha tambm.
Susie riu e pegou a mo da menina.
 Gostaria de ir at a minha casa e passar o dia fazendo cookies comigo?
Gretchen olhou para a me, que assentiu.
 Acho uma boa idia  falou Francine.  Ser muito mais divertido fazer cookies do que ficar sentada aqui o dia todo.
 Est bem. Mas ainda estou de pijama!  exclamou Gretchen, como se fosse impossvel cozinhar com roupas de dormir.
 Daremos uma passada em sua casa para que coloque roupas de cozinheira  disse Susie.
Gretchen franziu a testa pensativamente.
 Cala jeans  roupa de cozinheira?
  a melhor roupa para qualquer coisa  respondeu Travis, a expresso muito suave, amorosa, ao olhar para a filha.
 Obrigada  Francine falou para Susie ao acompanh-las para fora da sala de espera.  Seria um longo dia para ela se tivesse de ficar aqui.
 Estou deliciada por Gretchen passar o dia comigo. O que acha de eu pegar mais roupas para que ela pernoite conosco? Pode ser que vocs saiam tarde daqui.
Francine hesitou.
 Tem certeza de que no se importaria?
 Importar-me? Considero que voc esteja me fazendo um favor.
Depois que Francine deu  filha um rpido abrao e diversas instrues, Gretchen e Susie desapareceram, deixando-a sozinha com Travis na sala de espera.
Sentaram-se lado a lado em silncio. Ela pegou uma revista, folheou-a mas no conseguiu se concentrar em artigo algum. S pensava na cirurgia acontecendo em algum lugar do hospital e no homem sentado a seu lado.
Nada podia fazer por Poppy naquele momento. Estava nas mos da experiente equipe mdica do hospital. Poderia, entretanto, aliviar a tenso que existia entre ela e Travis.
Fechando a revista, virou-se para olh-lo.
 No tenho inteno de deix-la longe de voc  murmurou suavemente.
 Se tivesse, eu lutaria at a morte  respondeu-lhe.
 No ser necessrio. Somos adultos e sensatos. Certamente poderemos elaborar um acordo quanto  custdia.
 Eu achava que ramos dois adultos sensatos, mas isto antes de eu saber que voc a manteve em segredo por quase cinco anos!
Francine suspirou.
 Travis, no quero brigar com voc.
Ele pareceu relaxar levemente e passou a mo pelos cabelos.
 E eu no quero brigar com voc.
 Seria bom eu saber, quando partir, que levarei sua amizade comigo.
Se no podia ter seu amor, amizade seria pelo menos alguma coisa a ser acalentada quando estivesse to longe.
Por um longo momento o olhar de Travis sustentou o seu, os olhos dizendo algo que Francine no conseguia discernir.
 Sempre ter minha amizade, Francine  disse finalmente, como se as palavras lhe causassem uma tremenda dor.
 Obrigada  respondeu-lhe, tentando lutar contra o n na garganta.
Pela primeira vez durante seu longo relacionamento com Travis, sentiu o peso de palavras no ditas e no teve certeza a quem pertenciam.
No importava, aconselhou-se, mais uma vez pegando a revista abandonada momentos antes. O captulo de sua vida com ele estava encerrado.
Partilhariam a filha, mas no mais a vida um do outro. O ltimo silncio era uma comprovao de que no a queria em sua vida.
Apoiou a cabea no encosto da cadeira e fechou os olhos, esperando que Poppy recuperasse a sade rapidamente.
Assim poderia ir embora e escapar do lugar que ela apenas tarde demais percebeu que amava.

Francine acabou de limpar o balco e caminhou at a porta do restaurante. Pendurou a plaqueta sinalizando que o estabelecimento estava fechado.
Fazia dois dias desde a cirurgia bem-sucedida de Poppy. Ela passou as primeiras vinte e quatro horas no hospital, primeiramente aguardando que a operao fosse completada e ento sentada  cabeceira da cama do av adormecido.
Naquela manh, Poppy insistira para que a neta seguisse seu horrio habitual de trabalho no restaurante. Dissera-lhe que no a queria debruada sobre seu rosto.
 Se eu babar durante o sono, no quero que presencie  alegara.
Francine o beijara na testa e prometera trabalhar durante o perodo da tarde. Falara com Travis, que prontamente concordara em tomar conta de Gretchen. Era uma sensao esquisita deixar a filha a seus cuidados.
Francine iria dizer a Gretchen quem era seu pai. No dia em que Poppy fora internado, ela pedira a Travis que deixasse a seu encargo contar a verdade  menina.
Ele concordara, mas a cada momento que se passava devia se sentir mais ansioso para que a filha o reconhecesse como pai.
Falaria naquela noite, aconselhou-se Francine no trancar o restaurante e caminhar em direo ao carro Pararia no hospital para uma rpida visita a Poppy, buscaria Gretchen e antes que a garotinha fosse para a cama, revelaria que Travis era seu papai.
Levou apenas alguns minutos para chegar ao hospital e encontrar uma vaga no estacionamento. Parou o carro e apressou-se rumo ao edifcio, sabendo ser tarde para uma visita. Mesmo assim, tinha certeza de que as enfermeiras a deixariam esgueirar-se para ver o av.
As moas a cumprimentaram quando ela passou rapidamente a seu lado e foi para o quarto de Poppy.
Aparentemente ele dormia. As feies estavam suavizadas pela vulnerabilidade do sono. Francine acomodou-se em uma poltrona, no querendo acord-lo, mas simplesmente precisando ficar alguns momentos a seu lado.
Ficou silenciosa, estudando o rosto enrugado contemplativamente. Era curioso, mas nem mesmo tinha certeza da idade de seu av. Sempre o tinha visto como um idoso, mas naquele instante percebia que provavelmente contava sessenta e cinco anos.
No era o monstro detestvel que sua mente infantil tentara imaginar. Era verdade que Poppy lhe impusera uma disciplina rgida, mas durante a maior parte do tempo fora justo. No era um homem caloroso e amoroso, mas Francine tambm costumara passar dos limites, desafi-lo com freqncia.
Sorriu ao lembrar-se de todas as vezes em que o deixara louco diante de sua teimosia. Talvez aquele tivesse sido o problema dos dois o tempo todo.
Eram muito parecidos, muito orgulhosos e na defensiva para deixar que seus coraes falassem mais alto e tomassem conta da situao.
Poppy resmungou e coou os olhos, ento abriu-os e fitou-a.
 Espero no t-lo acordado  disse Francine, temerosa.
 No acordou.
Poppy sentou-se, parecendo levemente desorientado. Mais uma vez passou a mo pelo rosto, como para tentar desfazer os ltimos vestgios do sono.
 Tive um sonho.
 Espero que tenha sido bom.
 Bom e ruim.
Fitou a neta, o olhar parecendo ler sua mente e alma.
 Sonhei com sua me.
 Oh!
Francine no sabia o que dizer, nem o que esperar. Ele franziu a testa.
 Coloque sua poltrona bem perto. Precisamos conversar, Frannie.
Francine obedeceu, pensando aonde aquilo conduziria, temendo o territrio nada familiar a ser explorado.
 Em meu sonho, sua me estava brava comigo. Disse que eu a estava chateando por no lhe dizer algumas coisas que voc precisava ouvir.
Poppy sorriu levemente, de uma maneira bonita que Francine jamais havia visto.
 Sua me sempre teve temperamento forte.
 Esta  a primeira vez em que o senhor fala dela.
Poppy olhou para o teto.
 Eu nunca consegui antes. Doa demais.
Olhou para a neta, os plidos olhos azuis brilhando com inusitadas lgrimas.
 Ela era minha nica filha, a luz da minha vida.
Francine comeou a compreender aqueles fatos sob a tica do av. Quando chegou  sua casa, uma criana de dez anos de idade muito amargurada, Poppy havia acabado de descobrir que sua nica filha havia morrido.
 Oh, Poppy, eu nunca percebi... Ela pegou a mo do av nas suas.
Por um momento ele permaneceu imvel, ento olhou para as mos entrelaadas e uma lgrima caiu por seu rosto. Apertou a mo de Francine.
 Eu estava to envolvido em minha prpria dor que no sabia como ajudar voc com a sua  disse ele.
Mais uma vez fitou Francine, observando seus traos um a um.
 E l estava voc  continuou , uma miniatura do meu beb perdido e eu jamais me senti to apavorado em toda minha vida.
 Apavorado? Por qu?
Poppy sorriu e sua mo apertou a da neta.
 O que eu sabia sobre criar algum? Quando sua me era pequenina, Delia estava comigo para faz-lo. Mas ento restamos apenas ns dois e voc era a criana mais carente que eu j havia conhecido.
 Eu apenas queria que voc me amasse  Francine falou, a voz rouca devido  emoo suprimida.
 Eu receava que, se fosse muito brando, voc se tornasse uma pessoa selvagem e arrumasse problemas. Ento as assistentes sociais achariam que eu no era capaz de cri-la. Eu estava apavorado demais para lhe mostrar qualquer espcie de amor. Muito aflito com a responsabilidade de ser seu nico parente.
Francine sentiu como se o passado que ela conhecia at ento estivesse subitamente explodindo em mil pedaos. Nunca vislumbrara a situao da perspectiva de Poppy. Apenas vira tudo tendo a si mesma como centro. Uma postura tpica dos jovens.
  claro,  mais fcil com a srta. Tagarela. Eu posso apenas am-la e no me sentir responsvel por ela. Cabe a voc cri-la. Eu posso ser apenas Poppy.
 E Gretchen torna isso muito fcil para voc. Enquanto eu lutava o tempo todo  acrescentou Francine.
 Ns brigvamos muito. Mas talvez no seja tarde demais para mudarmos, no acha?
Ele parecia prender a respirao ao aguardar sua resposta.
Francine afastou as mos e se inclinou. Os braos do av circundaram suas costas, dando-lhe tapinhas, como para confortar a criana carente que ela um dia fora. Um calor agradvel passou pelo corpo de Francine, atingindo os cantos escuros e profundos de sua alma, preenchendo tudo com luz e amor.
 Eu te amo, garota Frannie  sussurrou Poppy suavemente.  Sempre a amarei.
 E eu te amo, Poppy.
 E agora solte-me antes que voc me estrangule  falou, rabugento.
Rindo, Francine deixou que as lgrimas cassem por seu rosto. Soube instintivamente que os dois jamais voltariam a conversar sobre tais coisas.
Assim que deixasse aquele quarto, Poppy voltaria a ser o velho rabugento e Francine a moa irritadia, mas sob tudo aquilo haveria um pilar muito forte de amor que os dois haviam erigido naquele momento.
 Vo deixar que eu saia daqui amanh  declarou Poppy.
 A que horas? Estarei aqui para busc-lo.
 Eu j combinei com Travis para que venha me pegar. Assim voc no precisar trazer a srta. Tagarela para c.
 Sabe que no nos importaramos!  protestou Francine.
 Eu sei, mas j est combinado. Travis vir me pegar.
 Como preferir. Ser muito bom t-lo em casa novamente.
 Frannie... Quanto a voc deixar Cooperville...  Ele franziu a testa e mordeu os lbios.  Suponho que eu deva lhe pedir desculpas por t-la feito sofrer. Quero que voc seja feliz e se isto significar viver na cidade de Nova York, ento v. Mas eu gostaria que escrevesse com mais freqncia e talvez ligasse de vez em quando e me deixasse conversar com a srta. Tagarela.
Francine o beijou na testa.
 Acho que poderemos dar um jeito nisto. Mas no se preocupe. No iremos a lugar algum at eu ter certeza de que o senhor est muito bem.
 O doutor disse que eu estou timo. Tudo de que preciso  ir para casa e comer alguma coisa que no seja essa comida sem gosto do hospital.
Francine sorriu.
 Providenciarei uma refeio especial para sua chegada amanh  prometeu-lhe.
 No quero lhe dar trabalho  murmurou, sorrindo , embora carne assada e biscoitos feitos em casa me soem maravilhosamente bem.
 Pois ser exatamente isto que farei  disse, caminhando em direo  porta.  Eu o verei amanh.
 Frannie, eu realmente amo voc.
O corao dela disparou e aquele calor gostoso novamente a tomou.
 Eu te amo tambm, Poppy.
A sensao de paz continuou com Francine durante o trajeto at a casa de Travis para buscar Gretchen.
Daquela vez, quando partisse para Nova York, saberia que Poppy a amava. Levaria seu amor. Escreveria para o av com freqncia e saberia que receberia uma resposta, cada carta contendo pedaos do carinho recm-descoberto. 
Se as coisas tivessem sido diferentes com Travis, teria considerado a hiptese de ficar. Mas com seu amor por ele sendo to profundo, sabia como seria difcil permanecer em Cooperville.
Mesmo assim, estava comprometida em fazer com que Gretchen passasse bastante tempo com o pai e o bisav. A menina era uma garotinha de sorte. Sua vida estava repleta de pessoas que a amavam.
Estacionou defronte  casa de Travis e correu at a varanda. Ele a encontrou  porta.
 Entre. Gretchen est na sala de estar.
 Obrigada por tomar conta dela enquanto eu trabalho. Apreciei muito  murmurou, entrando na casa.
Travis deu de ombros, o olhar escuro e distante.
 E o que papais fazem.
Comeou a caminhar para a sala de estar, mas hesitou quando Francine tocou seu brao.
 Eu vou contar a ela esta noite.
Os olhos escuros se iluminaram de antecipao.
 Eu deveria estar a seu lado quando lhe disser?
 No, preciso fazer isto sozinha.
Caminharam juntos para onde Gretchen estava sentada no cho, pintando.
 Oi, mame. Fiz um desenho do gatinho. Eu o estou colorindo e o tio Travis disse que vai pendurar o desenho na porta de sua geladeira.
 Tenho certeza de que vai ficar bem bonito na geladeira  respondeu Francine.
No queria olhar para Travis. Observ-lo lhe causava uma dor insuportvel no corao.
 Est quase pronto  falou Gretchen ao voltar a ateno para o trabalho.
Moveu o lpis colorido pela pgina, ento sentou-se.
 Pronto  disse, para indicar que sua obra de arte estava terminada.
Levantou-se e estendeu o desenho a Travis.
 Esta  a gravura mais bela que eu j vi na vida  Travis murmurou, as palavras fazendo a menina enrubescer.
 Diga obrigada a Travis  instruiu-a Francine.  Est ficando tarde e precisamos ir para casa.
 Obrigada, tio Travis. Tive um dia muito divertido.
Ficou na ponta dos ps e lhe deu um abrao.
 Fico feliz. E eu prometo que teremos muitos outros dias divertidos no futuro.
Nada podia ser pior do que a dor de um amor no correspondido, pensou Francine um momento mais tarde, enquanto ela e Gretchen rumavam para a casa de Poppy. Seu corao estava repleto de amor por Travis, mas aquele amor a nada conduziria, nada poderia lhe proporcionar.
Quanto tempo demorava para um amor verdadeiro morrer? Cinco anos em uma cidade distante no haviam sido capazes de afugentar o potente sentimento. Quando finalmente seria capaz de pensar nele, v-lo e no o querer, no sentir uma dor dentro de si?
Ao menos indo a Nova York poderia colocar alguma distncia entre os dois. J no o veria todos os dias, no estaria subjugada ao som daquela voz agradvel, ao riso fcil trazido pela brisa noturna.
Talvez na cidade de Nova York ela pudesse encontrar outra pessoa, algum que pudesse banir as lembranas de um fazendeiro atraente com o qual partilhou uma noite de paixo sob a bno da lua cheia de vero.
Entretanto, antes que pudesse tentar esquec-lo, tinha de lhe ceder o espao apropriado na vida de sua filha.
Aguardou at que Gretchen estivesse pronta para dormir, o pequenino rosto resplandecente aps o banho. Sentou-se  beirada da cama e afagou os cabelos sedosos da menina. Ficou pensando por onde comear.
 Precisamos conversar um pouco  disse.
 Estou com problemas?
 Voc fez alguma coisa que a faa pensar que poderia estar com problemas?
 Acho que no, mas s vezes voc fica brava quando eu no acho que deveria ficar.
Francine sorriu.
 Bem, no estou brava com nada e o que eu quero conversar com voc dever deix-la muito feliz.
Gretchen sentou-se, os olhos arregalados pela curiosidade.
 O que ? Diga-me, mame.
 Voc sabe que a maioria das garotinhas tem uma mame e um papai.
Gretchen assentiu.
 Mary Elizabeth, da creche, tem trs papais. Um de verdade e dois de reserva.
 Bem, voc no tem nem um de reserva, mas tem um de verdade.
 Tenho?
Francine respirou profundamente.
 Travis  seu papai de verdade.
  mesmo?  perguntou Gretchen, batendo as mozinhas alegremente.  Oh, estou to feliz! Eu adoro tio Travis.
Deteve-se e franziu a testa para a me.
 Mas eu achei que mames e papais de verdade fossem casados. Como voc no  casada com tio Travis?
 s vezes mames e papais de verdade so casados e s vezes no so  esclareceu-lhe Francine, ignorando a dor no peito.
Algumas vezes as coisas no funcionavam, por no haver amor suficiente.
 Eu posso cham-lo de papai?
 Sim, acho que ele gostaria muito. E quando voltarmos  Nova York, voc poder retornar todos os veres para visit-lo.
 No quero voltar para Nova York  Gretchen murmurou, seu lbio inferior tremendo.  Quero ficar aqui com Poppy e com tio... com papai. Quero ficar aqui para sempre.
 Gretchen, voc sempre soube que viemos para c apenas para uma visita e que sua casa  em Nova York  Francine falou com pacincia.
 Mas no quero que minha casa seja l  respondeu-lhe, os olhos cheios de lgrimas.  Quero que minha casa seja aqui. Gosto muito mais. Linda tambm prefere.
Gretchen nunca foi uma criana de chorar com facilidade e seus soluos silenciosos emocionaram a me. A menina passava as mos pelos olhos enquanto continuava a chorar.
Francine a pegou nos braos e lhe deu tapinhas leves nas costas, desejando encontrar uma maneira de converter as lgrimas em sorrisos.
Os soluos foram rareando e finalmente Gretchen fitou a me.
 Mame, Poppy precisa que fiquemos. Se eu no estiver aqui, quem vai alimentar os coelhinhos? Quem ir fazer Poppy rir? Se eu no estiver aqui, ele ir se esquecer de como se ri.
Sentou-se, desfazendo-se do abrao materno.
 Por que no podemos ficar? Eu tenho uma mame, um papai e Poppy aqui. Naquela Nova York chata eu no tenho nada.
Francine suspirou.
 Acho que j conversamos o suficiente esta noite. E hora de voc dormir.
Beijou a testa de Gretchen, onde havia uma ruga de preocupao.
 No vou conseguir dormir agora  protestou a pequena.  E se conseguir provavelmente terei pesadelos  acrescentou com um toque de autocomiserao.
Fechou os olhos e, a despeito de suas palavras em contrrio, em poucos momentos estava adormecida.
Francine se despiu e vestiu a camisola. Em vez de ir para a cama, sentou-se na beirada novamente e contemplou a filha.
Queria que Gretchen crescesse feliz, no melhor ambiente, com pessoas que a amavam a seu redor. Conforme a filha a fizera lembrar-se, ali em Cooperville havia Poppy e um papai. Em Nova York, teria apenas uma me que teria de trabalhar para sobreviverem.
Permanecer em Cooperville seria a melhor coisa para Gretchen, mas a mais dolorosa para Francine. Teria de ver Travis com freqncia, lidar com ele, porque ambos amavam a filha.
E cada vez em que o visse, sentiria uma dor no corao por saber que jamais a amaria da maneira como o amava.
Teria de suportar sua dor em prol da felicidade da filha. E naquela batalha em particular no havia competidores. Gretchen sempre viria antes. Sua melhor oportunidade de ter uma infncia saudvel e feliz estava definitivamente ali em Cooperville.
O pior seria engolir o orgulho, dizer a todos que mudara de idia. Acomodou-se sob as cobertas e tentou relaxar. Talvez no dissesse a ningum... simplesmente no partiria.
Um dia talvez deixasse de sentir dor, procurou consolar-se. Poderia at esquecer Travis e a magia que um dia existira entre os dois.
Talvez at sasse com Barry. O jornalista era atraente e simptico. Fechou os olhos e tentou animar-se com a perspectiva, mas sentiu apenas desnimo.
Mesmo se jamais viesse a namorar outro homem, poderia ter uma vida plena ali, trabalhando no restaurante, cuidando de Poppy e de Gretchen. Poderia at dedicar-se a algum trabalho voluntrio na comunidade.
Sim, seria uma boa vida.
Fechou os olhos e lembrou-se dos sonhos de estrelato que um dia nutrira. Os sonhos infantis de uma garotinha solitria e sem amor. Naquele instante tais metas lhe pareciam vazias e tolas.
No lamentava a morte daquele sonho em particular, mas lastimava no poder participar dos sonhos maravilhosos de Travis.
 Quem precisa de sonhos?  perguntou-se suavemente antes de fechar os olhos para evitar que lgrimas cassem por seu rosto.

 
CAPTULO XI

 Est confortvel?  Travis perguntou para Poppy ao colocar o carro em movimento e sair do estacionamento do hospital.
 timo. Eu me sentiria feliz em cavalgar um camelo para sair daquele hospital. Nunca suportei comida ruim, nem enfermeiras conversando comigo como se eu fosse senil ou surdo.
Travis mordeu o lbio para evitar sorrir. Testemunhou o esforo das enfermeiras no intuito de faz-lo sentir-se confortvel. Poppy aparentemente no era o melhor paciente do mundo.
 Na verdade eu me sinto melhor do que em meses  continuou.  Acho que a velha mquina precisava de um pouco mais de manuteno do que eu imaginava. Desde que fizeram aquela operao, eu me sinto dez anos mais jovem.
 Fico feliz, Poppy. Voc me deixou apavorado, a todos ns.
Travis apertou com fora o volante ao lembrar-se da imagem do vizinho deitado no cho da cozinha. At aquele momento, no havia percebido a profundidade de seus sentimentos para com ele, nem imaginado como sua vida seria vazia sem a presena do velho homem rabugento.
Poppy riu.
 Tenho de admitir que tambm fiquei apavorado. No estou pronto para morrer ainda. Tenho coisas a fazer, algumas emendas.
 Emendas?
Ele assentiu e acomodou-se melhor no assento, a testa franzida.
 Algumas vezes um homem acha que est fazendo a coisa certa, cuidando de sua vida e das responsabilidades e se esquece do que  importante e do que no .
Travis o fitou, incerto quanto ao assunto sobre o qual falava.
 No sei se entendi...
 No, acho que no entendeu. Duvido que tenha cometido a mesma espcie de erro que eu.
Travis ainda no compreendia sobre o que Poppy falava.
Naquele momento, Poppy olhava pela janela lateral, fazendo-o concluir no estar particularmente com inteno de se explicar.
Por alguns minutos prosseguiram em silncio. Como sempre, quando havia um momento de quietude, os pensamentos de Travis migravam para Francine. E invariavelmente aquilo lhe dava uma sensao de tristeza misturada com raiva.
Incomodava-o ainda o fato de ela ter mantido Gretchen em segredo por tanto tempo. E a inteno de deixar Cooperville mais uma vez rasgava seu peito. No apenas porque estaria levando a menina para longe, mas tambm porque novamente seu corao a acompanharia na viagem.
 Ir deixar que ela parta novamente?
Travis olhou, espantado, para Poppy, pensando se ele teria conseguido ler sua mente.
 Eu no posso det-la.
 Sim, pode  Poppy o desafiou.  Descobri que voc  o nico que pode fazer isso.
 E como sugere que eu haja?
 Voc a ama, no ama?
Travis nada respondeu por um longo momento. A despeito do fato de ainda estar bravo com Francine, de sentir-se trado, ainda existia em seu peito aquele amor profundo.
 Que diferena isto faz? Ela no me quer. Acho que Francine nunca soube o que  o amor  acrescentou com amargura.
 Pode ser que esteja certo quanto a isto. Deus sabe como eu no lhe mostrei muito quando era criana. Somente um homem muito especial poder preencher os espaos que eu deixei em nossa menina. Acho que voc pode ser este homem.
 Voc tambm a ama. Certamente poder convenc-la a ficar  ponderou Travis.
Poppy suspirou, seu rosto denotando uma profunda expresso de arrependimento.
 No, ela precisou de meu amor quando era garotinha e eu a decepcionei. Mas  uma mulher agora, e no  do meu amor que precisa para ter um motivo para ficar.
Um motivo para ficar.
Travis desesperadamente desejou poder lhe dar isso. Mas no, nunca fora suficiente para Francine. Os sonhos dele, sua vida, eram simples. Jamais seriam bastante para aquela mulher.
 Eu a amava cinco anos atrs e ela no hesitou em partir  Travis o fez lembrar-se.
 Voc lhe disse que a amava na ocasio? Voc lhe pediu para ficar?
 No. Recusei-me ser o motivo de ela permanecer na cidade. No quis que Frannie um dia sentisse raiva de mim por ter lhe roubado os sonhos.
Travis diminuiu a velocidade ao aproximar-se da casa de Poppy.
 Sonhos!
Poppy soltou a palavra como se ela lhe deixasse um gosto amargo na boca.
 Acho que vocs dois foram longe demais sonhando e pouco adiante amando. Sonhos so bons desde que unam duas pessoas que se amam.
 Se Francine realmente me amasse, teria me contado sobre Gretchen anos atrs  Travis falou com raiva ao parar diante da casa.
 Se ela no o amasse, jamais lhe teria dito.
Poppy desceu da caminhonete, ento inclinou-se  janela.
 Frannie me prometeu fazer carne assada para o jantar. Gostaria de vir e comer conosco?
 No, obrigado  respondeu, ausente.
Precisava pensar. As palavras de Poppy haviam-no confundido, feito aflorar a raiva que durante os ltimos dias tentava suprimir.
 Obrigado pela carona. Voc  o nico que pode fazer isto, Travis. D-lhe um motivo para ficar.
Sem aguardar por resposta, virou-se e caminhou em direo a casa.
Travis colocou a caminhonete em movimento, irritado com toda aquela conversa, abismado com a viso de Poppy. Ser que, de alguma maneira, poderia mudar o comportamento de Francine?
Como se algum fosse capaz de mudar, ironizou. Frannie era a mulher mais determinada e teimosa que j conhecera. Certamente sabia que Travis a amava desesperadamente. No poderia duvidar de que ele sempre sonhara que os dois tivessem uma vida juntos.
Sonhos. Estaria Poppy certo? Por acaso haviam passado tempo demais fantasiando sobre o futuro, sobre coisas que pouco tinham a ver com a realidade?
Ela retornara para Cooperville no a estrela que fingira ser e sim falida e desempregada. Uma viso muito triste de seus sonhos de infncia.
A nsia de Francine por celebridade e a dele em ter uma famlia tinham um ponto em comum. A necessidade de serem amados. Ambos queriam aquilo com ardor.
Travis sabia que ela precisava sentir-se especial, amada, porque sua vida com Poppy fora muito desprovida daquela emoo. E quanto a si mesmo, simplesmente queria ser amado pela mulher que conquistou seu corao.
Teriam tido o verdadeiro sonho nas mos durante todo o tempo e o deixado escorregar por entre os dedos como areia soprada pelo vento?
Se lhe pedisse para ficar, estaria colocando seu orgulho em jogo. Estaria lhe dando uma nova oportunidade de aceitar seu amor ou de desprez-lo.
No tinha muita certeza se gostaria de correr o risco. Se poderia lidar, pela segunda vez na vida, com a decepo de v-la partir e renegar seu amor. Era mais fcil no deixar seu corao  mostra e vulnervel.
"Pelo menos eu terei Gretchen", pensou. Embora fosse provavelmente apenas por algumas semanas a cada vero e feriados ocasionais, suas visitas seriam ocasies repletas de alegria e ansiosamente antecipadas.
Certamente teria coisas suficientes para preencher sua vida sem Francine. Teria momentos com Gretchen, Susie esperava um beb e Margaret poderia se casar e ter filhos tambm. Sim, sua vida seria plena sem Francine.
Ele no era o homem especial de quem Poppy falara. No era aquele capaz de ensinar a Francine o que era o amor.
Era apenas um homem simples que jamais seria suficiente para uma mulher como Francine.

 Mais carne assada?  Francine perguntou a Poppy. Estavam somente os dois  mesa. Gretchen terminara de comer e implorara para desculparem sua ausncia, j que havia uma nova famlia de coelhos a ser cuidada.
 Eu no conseguiria comer mais uma garfada sequer  disse Poppy, dando um tapinha no estmago.  Esta foi a melhor carne assada que j saboreei desde que sua av a fazia todos os domingos.
Francine enrubesceu ante o elogio.
 Usei a receita de vov. Encontrei em um caderno no quarto de hspedes.
Poppy a fitou, surpreso.
 O que voc estava fazendo l?
 Fiquei pensando se voc se importaria se eu o ajeitasse para Gretchen. Poderamos ficar aqui um pouco mais do que o planejado e eu acharia melhor que cada uma tivesse seu prprio espao.
 Claro! Faa o que quiser l. Aquele quarto sempre foi um local para armazenar coisas antigas. O que voc no quiser pode ser guardado no sto.
Francine percebeu que o av tinha algumas perguntas a lhe fazer, sabia que pensava no motivo de ela planejar redecorar o quarto se tinha inteno de partir um dia.
No lhe explicou que tinha mudado de idia sobre partir, que a felicidade de Gretchen era muito mais importante do que sua tristeza em perder o amor de Travis.
Simplesmente sentiu-se vulnervel demais para conversar sobre a perda de todos seus sonhos, do amor.
Era claro, Francine descobrira algo especial em Poppy, um amor inexplorado anteriormente e que certamente a ajudaria naquele desafio. Mas havia muitas feridas em seu corao provenientes do relacionamento com Travis, algo que ningum poderia ajud-la a superar.
 Acho que vou caminhar um pouco e ajudar a srta. Tagarela com os coelhos  falou Poppy ao levantar-se da mesa.
Comeou a caminhar em direo  porta dos fundos, mas o tocar do telefone o fez deter-se.
 Eu atenderei  disse ele.
Pegou o fone do aparelho situado  parede e Francine comeou a limpar os pratos.
 Ol, Betty Jean.
Poppy ouviu por um momento, ento olhou para Francine.
  claro que ela pode. No, problema algum. Cuide-se e eu a farei aparecer por a imediatamente.
Desligou e fitou a neta.
 Betty Jean devia trabalhar do meio-dia at o horrio de fechamento, mas h uma hora est se sentindo muito mal. Tem febre e sente dores no estmago.
Sorriu, matreiro.
 Acho que uma garonete doente no  muito boa para o negcio.
 Mas como eu poderei ir trabalhar agora? No quero deixar voc e Gretchen. Voc acabou de sair do hospital.
 Pelo que entendo, quando se tem alta do hospital  porque a pessoa est bem. A srta. Tagarela e eu ficaremos bem e eu terminarei de lavar a loua. V adiante e ajude Betty Jean. Vamos!  repetiu-lhe j que Francine no se moveu.
 Poppy...
  Por favor, Frannie. Ficaremos bem e se eu me sentir cansado, telefonarei para que Travis venha me ajudar.
Francine hesitou por mais um momento, ento lavou as mos, enxugou-as em uma toalha e pegou as chaves do carro de sobre o balco. Pressentia que a imagem do restaurante no estar sendo bem gerido em uma noite de sbado seria muito mais estressante para o av do que um perodo sozinho com Gretchen.
 Est bem, mas apenas se me prometer que no se esforar demais.
 Prometo.
No instante em que Francine chegou ao restaurante, a noite de sbado estava a todo vapor. A nica garonete, uma estudante ginasial que trabalhava meio perodo, suspirou aliviada quando a viu passar pela porta.
Durante as prximas trs horas, Francine nem teve tempo para pensar ou se preocupar. Serviu, limpou mesas, conversou com clientes e recolheu dinheiro sem um momento para respirar.
Por volta das oito horas, o volume de pessoas havia diminudo a ponto de permitir que ela tomasse uma xcara de caf e se sentasse um pouco.
Sabia que pouco tempo haveria para uma pausa. Normalmente aos sbados, no instante em que os clientes tardios para o jantar iam embora, chegavam os adolescentes que ficavam at o fechamento do restaurante.
Aproximava-se das nove horas da noite quando uma caminhonete parou no estacionamento. Ela a reconheceu como sendo a de Travis e por um momento ficou com medo. Ser que alguma coisa havia acontecido a Poppy? Gretchen estaria bem?
Como ele no entrou, Francine foi para fora. Travis estava sentado dentro da caminhonete ainda.
 Poppy est bem?
 Ele e Gretchen esto bem. Dei uma passada por l antes de vir.
 Oh. Voc vai entrar?
 Ainda no decidi.
Um grupo de adolescentes se aproximava. Entraram no estabelecimento.
 Tenho de retornar ao trabalho  falou Francine pensando em qual seria o motivo de ele estar ali.
Como percebeu que no teria resposta, virou-se para entrar no restaurante.
Durante as prximas duas horas, o lugar pipocou com jovens de Cooperville. Entretanto, no importasse o quo ocupada estivesse, Francine no conseguia manter a mente no trabalho.
Viu-se constantemente olhando janela afora, onde Travis permanecia na caminhonete a fit-la.
O que estaria fazendo l fora? Por que estava sentado ali a observando? Aquilo era mais do que desconcertante. Queria que fosse embora. Ou que entrasse.
Mais do que tudo, desejava que Travis a amasse.
Travis a observava trabalhar. Por mais que quisesse sentir raiva, viu-se desejando poder mergulhar os dedos nos cabelos longos e sedosos dela, sentir a doura de seus lbios, t-la nos braos para que seus coraes batessem em unssono.
As palavras de Poppy o haviam confundido. As atitudes de Francine desde seu retorno para casa o deixavam perplexo tambm.
Lembrou-se do momento no milharal, bem no meio do jogo de esconde-esconde, quando se beijaram e a paixo se fez presente instantaneamente. E ento do encontro naquele mesmo campo, aps o sinal que ela lhe lanou.
Seria possvel que Francine sentisse desejo por ele e no o amasse? Travis havia criado duas irms mas pouco conhecia sobre o pensamento feminino.
Ela no retornara a Cooperville porque desesperadamente sentira saudade suas. Viera porque no tinha mais dinheiro.
Pois ele no queria os restos dos sonhos despedaados de Francine. No seria seu prmio de consolao.
Mas apesar de tudo e embora tivesse lhe revelado um tanto tarde, ela conseguira lhe dar o maior presente que uma mulher podia oferecer a um homem: uma criana.
Apoiou a cabea no encosto e pensou em Gretchen. Quando parara na casa de Poppy havia alguns minutos, a garotinha o cumprimentara com um abrao e um beijo.
 Mame disse que voc  meu papai de verdade  dissera ela.  Estou to feliz, porque eu o amo, tio... papai.
Aquelas palavras lhe causaram emoes maravilhosas. Travis percebeu que no importava o que viesse a acontecer entre ele e Frannie. Aquela menina seria sua para sempre.
Mesmo assim, as palavras de Poppy o assombravam, confundiam e irritavam. O senhor palpitara dizendo ser possvel ele e Frannie terem um futuro juntos. Bastava que estendesse a mo para alcan-lo.
Seria ele capaz de faz-la feliz? Poderia lhe dar um novo sonho? Jamais seria capaz de amar outra mulher da maneira como a amava. Frannie estava em seu corao, em sua alma. Seria a recproca verdadeira?
Soltou o cinto de segurana e abriu a porta. Era hora de descobrir.
O sino  porta do restaurante tocou, anunciando sua chegada e Francine olhou para cima, desviando a ateno do talo de pedidos. Ele se surpreendeu ao notar um qu de preocupao em seus olhos.
 Precisamos conversar  disse Travis sem prembulos ao aproximar-se.  Venha para fora comigo.
 Este no  exatamente um bom momento...
Um dos adolescentes  mesa contou uma piada, mas o riso sumiu quando Travis fitou o garoto com frieza.
 Vou esperar.
Travis aproximou-se do balco e acomodou-se sobre uma banqueta.
Percebeu que sua presena a deixava nervosa. Ela derrubou o talo de pedidos, pegou-o e terminou de escrever. Seus dedos tremiam levemente.
Obviamente no fazia idia do motivo de ele estar ali. Provavelmente acreditava que ele queria brigar sobre a guarda de Gretchen.
Mas Travis no queria brigar. E no se daria a fazer jogos desprezveis envolvendo a filha. Queria saber se os dois poderiam ter um futuro juntos. Precisava saber se ela tinha a inteno de deix-lo novamente. Sentiu muita raiva ante o mero pensamento.
Subitamente no pde mais aguardar. Ficou em p e aproximou-se de Francine.
 Temos de conversar agora.
 Travis, estou trabalhando  protestou.
 Karen, tome conta das coisas por ela  disse  garonete adolescente.
Pegou a mo de Frannie e, com determinao mpar, levou-a para fora.
 Travis, voc est fazendo uma cena  sussurrou-lhe ao deixarem o interior fresco do restaurante e sarem para o calor da noite.  Perdeu a cabea?
Soltou o pulso e o fitou, irada.
 Sim, perdi a cabea. Tornei-me completamente irracional, maluco, e a culpa  toda sua.
Observou-a e por um momento ficou pensando se passara dos limites. Estivera quase louco desde o momento que ela retornara, as sensaes se alternando entre o amor e a vontade de odi-la.
 Sobre o que est falando?
 Quero saber quando voc pretende deixar a cidade.
Ela fez uma pausa antes de responder.
 Que diferena faz? Eu lhe disse que providenciaria para que voc passasse bastante tempo com Gretchen.
 No estou falando de Gretchen. Estou falando sobre ns dois.
Frannie franziu a testa.
 O que sobre ns dois? No h "ns dois".
 Isto porque voc saiu de minha vida cinco anos atrs.
As palavras simplesmente explodiram e ele percebeu ser aquele o motivo da raiva que o dominava todas as vezes em que pensava em Francine.
Precisara dela. Francine fora sua sanidade e ela o havia deixado. O sol de sua vida em meio a tantas responsabilidades que ele tivera para com a famlia.
 Eu me recuso a falar sobre tudo isto novamente. J fizemos algo assim e apenas serviu para que dissssemos coisas de que nos arrependemos.
Virou-se para sair, mas Travis a segurou pelos ombros e a forou a encar-lo.
 Eu no vou dizer nada de que possa me arrepender.
Segurou com fora seus ombros, no querendo que ela escapasse antes de ouvir o que tinha a lhe dizer.
 Naquela noite em que partiu, eu a observei ir.
Sua voz ficou mais baixa ao se lembrar da dor ao v-la desaparecer de vista e da sua vida.
 Eu me escondi no milharal e esperei, rezei para que voc parasse. Queria que descobrisse que me queria mais do que a seus sonhos.
A expresso de Francine, banhada pelo brilho rosa da luz non do letreiro, mostrava surpresa.
 Ento por que no me deteve? No me amava o suficiente para me impedir de partir.
 Oh, Frannie, eu no lhe pedi que ficasse porque eu a amava demais e no porque eu a amava pouco!
Ps as mos nos bolsos.
 Como poderia det-la? No quis impedir a realizao de seus sonhos. For-la a ficar apenas faria com que mais tarde voc me culpasse por isto.
Francine abraou o prprio corpo, estudando o rosto de Travis reflexivamente.
 Pois eu queria que voc me detivesse. Esperava que fizesse isto, pedisse para eu ficar, dissesse que me amava.
 Achei que meu amor seria um fardo para voc.
Ela sorriu suavemente.
 E eu achei que Gretchen seria um fardo para voc. Acho que raciocinamos de maneira cruzada, tentando proteger um ao outro e acabamos por nos magoar ainda mais.
 Jamais quis mago-la  disse ele.
Ento Frannie o amara, quisera ficar. Mas isso acontecera cinco anos atrs, pensou Travis. O que estaria querendo naquele exato momento?
 Talvez eu tivesse me ressentido com voc se no tivesse ido a Nova York. Talvez eu precisasse dos ltimos cinco anos para crescer, para perceber o que exatamente era importante para mim.
 E o que e importante para voc?
Travis prendeu a respirao, temeroso das palavras que ouviria em seguida.
 Esta cidade. Poppy. No vamos partir, Travis. Ficaremos aqui. Gretchen quer ficar onde ela tem um papai e Poppy.
 E o que voc quer?
Lgrimas caram pelo rosto de Francine.
 O que eu realmente quero? Quero parar de amar voc, assim no sentirei tamanha dor sempre que o encontrar. Desejava poder esquecer que um dia voc me amou, mas que eu arruinei tudo.
O corao de Travis disparou. Seria possvel que aquele velho homem estivesse com a razo? Que tudo que Francine precisava saber era que ele a amava?
Tirou as mos dos bolsos e colocou-as no rosto de Francine, acariciando a pele suave de suas bochechas com os polegares.
 Mas por que voc quer parar de me amar quando eu a amo to desesperadamente?
 Voc o qu?
 Eu te amo, Frannie. Ontem... hoje... sempre.
Um soluo escapou de sua garganta e Francine inclinou o corpo de encontro a Travis e fechou os olhos.  Repita  sussurrou.
 Eu te amo. Sempre a amarei. Sempre a amarei. Abraou-a, puxando bem fortemente de encontro ao peito.
Seus coraes batiam aceleradamente. Travis podia ouvir as batidas frenticas e sabia ser esse o som do amor.
Francine ergueu a cabea para fit-lo. Seus olhos brilhavam, no com lgrimas e sim com amor.
 Oh, Travis, s vezes eu acho que nasci apenas para am-lo.
Ele inclinou a cabea e capturou seus lbios. O beijo foi ardoroso, pleno de paixo, desejo, o amor de uma vida toda.
 Case-se comigo  pediu ele quando o beijo se interrompeu.  Case-se comigo e vamos construir nossos sonhos juntos.
 Se eu me casar com voc, j terei meu sonho realizado  respondeu-lhe.
 Posso tomar sua resposta com um sim?
 Sim, oh, sim!
Mais uma vez Travis a beijou, querendo perder-se naqueles lbios, sabendo que poderia passar o restante de sua vida fazendo isto.
Conforme se perdiam naquele afago ele foi se tornando consciente do som de gritos e palmas. Interrompeu o carinho e olhou para a janela do restaurante, de onde o grupo de adolescentes observava-os, batendo palmas e gritando como se estivessem diante de seu heri favorito nos esportes.
Francine enrubesceu e deu um passo para afastar-se de seu amado.
 Seremos o assunto da cidade.
Ele sorriu.
 Ento vamos lhes dar algo mais de que falar  respondeu-lhe e a puxou de volta para seus braos.
 Para um homem simples, voc tem um jeito e tanto de fazer com que eu me sinta especial  disse Francine com um suspiro ao sentir os lbios na pele fresca de seu pescoo.
 Voc  especial, Frannie. Voc  minha garota. Agora e para sempre.
Beijou-a novamente, o som dos aplausos dos adolescentes servindo como pano de fundo enquanto dava-se o prazer de apreciar o amor da mulher de sua vida.

 
EPLOGO

Francine sentou-se em frente  janela de seu quarto, observando os campos banhados pelo luar. Devia dormir. Logo seria meia-noite e o dia seguinte prometia ser cheio.
Abraou o prprio corpo e apoiou a testa contra o vidro frio da janela. Era difcil acreditar que dois meses haviam se passado desde a noite em que Travis a pedira em casamento  porta do restaurante. Dois meses de mais risos e alegria do que ela jamais sonhou ser possvel.
Um flash de luz brilhou da janela de Travis, um brilho rpido seguido por outro. Ela sorriu e percebeu o motivo de no estar dormindo. Soubera, com a intuio que sempre marcara seu relacionamento, que Travis lhe sinalizaria para que se encontrassem naquela noite.
Pegou uma jaqueta do armrio, sabendo que as noites de final de outubro eram frias. Colocou-a sobre os ombros e caminhou para o quarto ao lado, onde Gretchen estava na cama.
A menina dormia, abraando o dinossauro de pelcia que o pai lhe dera no carnaval. Feliz por ver a filha dormindo profundamente, Francine voltou a seu quarto e silenciosamente esgueirou-se janela afora.
O ar frio da noite a envolveu enquanto corria em direo a Travis, parado no meio do milharal. Uma alegria muito grande a invadiu quando ele abriu os braos para acolh-la.
Seus corpos se encontraram e Frannie apreciou os contornos familiares daquele abrao. Por um longo momento permaneceram em p, abraados, sem sentirem necessidade de palavras.
 Eu no tinha certeza se voc veria meu sinal.
 Eu o estava esperando.
 Ah, voc me conhece bem demais!
Travis sentou-se no cho e pegou-lhe a mo para que se acomodasse a seu lado, conforme haviam feito em centenas, milhares de noites no passado.
 Voc tem sorte de eu ter vindo. D azar um noivo ver a noiva no dia do casamento.
Travis ergueu a mo para o luar e olhou para o relgio.
 Ainda temos quinze minutos antes que seja oficialmente o dia de nosso casamento.
Ela apoiou-se contra seu corpo.
 Nervoso?
Ele a abraou e puxou-a para bem perto.
 Nem um pouco. E quanto a voc?
 Absolutamente no. Sinto que casar-me com voc ser a coisa mais certa que j fiz na vida.
Francine observou a lua, pensando em como era bom estar realizando seu grande desejo.
 Quem diria que Poppy insistiria que tivssemos um casamento tradicional?
Travis riu, o som agradvel causando um arrepio de deleite em Francine.
 Eu acho que Poppy  um romntico. Juro ter visto lgrimas em seus olhos quando estivemos colhendo flores.
Francine sorriu. Sim, o av era uma contnua surpresa. A cerimnia familiar, simples, que o casal havia planejado acabara crescendo quando Poppy decidira tomar conta de todos os arranjos.
 E por falar em flores, Gretchen decidiu que eu no deverei carregar nem uma.
 Por qu?  Travis lhe indagou, surpreso.
 Ela disse que est prximo demais do dia das bruxas e que seria melhor eu carregar uma abbora iluminada.
 Eu no me importarei se carregar um gato preto e usar uma roupa de bruxa, contanto que seja voc a entrar na igreja e dizer "sim".
Beijou-a, deixando-a arrepiada.
 Eu te amo, Frannie  disse Travis ao interromper o beijo.  Prometo passar o resto de minha vida tentando faz-la feliz. E espero que jamais se arrependa de ter ficado aqui.
 Shhh.
Ela colocou um dedo sobre seus lbios.
 Eu apenas tenho um arrependimento. Arrependo-me de ter sido to orgulhosa e teimosa cinco anos atrs. Deixei de lhe revelar minhas reais necessidades.
Colocou ambas as mos no rosto de Travis, observando com ateno os traos msculos que tanto amava.
 Eu te amo, Travis, e voc  tudo de que eu preciso para que meu sonho se torne realidade.
Mais uma vez os lbios dele cobriram os de Francine em um beijo que deu aos dois o gosto da paixo, ternura, passado e futuro.
Em algum lugar profundo de sua mente, ela deu um silencioso adeus a seus sonhos de infncia. E acolheu os novos, descobertos ao lado daquele homem simples a quem tanto amava.


 
DICAS

COMO O BEB APRENDE A COMER SOZINHO
Seu beb vai querer comer sozinho bem antes de saber como fazer. Por mais baguna que ele faa e por mais demoradas que se tornem as refeies, anime-o o quanto puder. Esse  seu primeiro passo para a independncia. Esteja preparada para ver comida no rosto, na roupa e nos cabelos do beb, sem falar no cho. Encare as refeies de seu filho com tranqilidade, pois, fazendo-as da maneira que tiver vontade, ele as achar divertidas e voc ter menos problemas com a alimentao dele no futuro.
COM SETE MESES
Com esse tempo de vida, seu beb vai estar fazendo todo o esforo para reconhecer os alimentos, seu sabor, sua textura, porm ainda no ter coordenao alguma para pr na boca toda a comida que deseja. Alimente-o voc mesma, mas deixe que ele brinque com a comida. A sujeira que ele faz no rosto  o passo inicial para aprender a comer: deixe sempre  mo um pano limpo para asse-lo depois.
COM QUINZE MESES
Nessa idade seu filho estar tentando comer com co lher ou com garfo de pontas arredondadas. Corte a comida dele em pedaos. Ele pode precisar de sua ajud em certos dias.
COM DOIS ANOS
Por volta de dois anos seu filho provavelmente estar pronto para deixar o cadeiro e sentar-se  mesa com famlia. As refeies so situaes sociais importantes, aprender a participar delas como membro da famlia  par vital da socializao da criana. Sua alimentao tamb  importante, desde que voc lhe d o suficiente e o dei decidir o que vai comer. Ele no vai morrer de fome e sab de quanta comida precisa.

